Livros Espíritas
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Em sentido oposto podem-se registrar casos extraordinários de dedicação, considerada a idade dos que os praticam; salvamentos são efetuados com reflexão e decisão por crianças de dez anos de idade ou menos. Tais indivíduos, como os precedentes, parecem trazer para este mundo disposições particulares que não se encontram nos seus parentes. Assim como se vêem anjos de pureza e doçura nascerem e crescerem em meios grosseiros e depravados, assim também se encontram ladrões e assassinos em famílias virtuosas, num e noutro caso em condições tais que nenhum precedente atávico pode dar a chave do enigma. Todos esses fenômenos, na sua variedade infinita, têm sua origem no passado da alma, nas numerosas vidas humanas que ela percorreu; cada um traz ao nascer os frutos da sua evolução, a intuição do que aprendeu, as aptidões adquiridas nos diversos domínios do pensamento e da obra social, na Ciência, no comércio, na indústria, na navegação, na guerra, etc.; traz habilidade para determinada coisa em particular, conforme sua atividade se tenha exercitado nesse ou naquele sentido. O Espírito tem capacidade para os estudos mais diversos; mas, no curso limitado da vida terrestre, por efeito das condições ambientes, por causa das exigências materiais e sociais, geralmente só se aplica ao estudo de um número restrito de questões e, desde que sua vontade se encaminhou para qualquer dos vastos domínios do saber, em razão das suas tendências e das noções em si acumuladas, sua superioridade nesse sentido declara-se e define cada vez mais; repercute de existência em existência, revelando-se, em cada vinda à arena terrestre, por manifestações cada vez mais precoces e mais acentuadas. Daí, as crianças-prodígio e, em forma menos distinta, as vocações, as predisposições nativas; daí o talento, o gênio, que são o resultado de esforços perseverantes e contínuos para um objetivo determinado. Que a alma é chamada, todavia, a entrar na posse de todas as formas do saber e não a restringir-se a algumas necessidades de estágios sucessivos, demonstra-se pelo simples fato da lei de um desenvolvimento sem limites. Do mesmo modo que a prova das vidas anteriores é estabelecida pelas aquisições realizadas antes do nascimento, a necessidade das vidas futuras impõe-se como conseqüência dos nossos atos atuais, conseqüência que, para campo de ação, exige condições e meios em harmonia com o estado das almas. Atrás de nós temos um infinito de promessas e esperanças; mas, de todo esse esplendor de vida, a maior parte dos homens só vê e só quer ver o mesquinho fragmento da existência atual, existência de um dia, que eles crêem sem véspera e sem amanhã. Daí a fraqueza do pensamento filosófico e da ação moral na nossa época. O trabalho anterior que cada Espírito efetua pode ser facilmente calculado, medido pela rapidez com que ele executa de novo um trabalho semelhante, sobre um mesmo assunto, ou também pela prontidão com que assimila os elementos de uma ciência qualquer. Deste ponto de vista, é de tal modo considerável a diferença entre os indivíduos, que seria incompreensível sem a noção das existências anteriores. Duas pessoas igualmente inteligentes, estudando determinada matéria, não a assimilarão da mesma forma; uma alcançar-lhe-á à primeira vista os menores elementos, a outra só à custa de um trabalho lento e de uma aplicação porfiada conseguirá penetrá-la. É que uma já tem conhecimento dessa matéria e só precisa recordá-la, ao passo que a outra se encontra pela primeira vez dentro de tais questões. O mesmo se dá com certas pessoas que facilmente aceitam tal verdade, tal princípio, tal ponto de uma doutrina política ou religiosa, ao passo que outras só com o tempo e à força de argumentos se convencem ou deixam de convencer-se. Para umas é coisa familiar ao seu espírito e para outras é estranha. Vimos que as mesmas considerações são aplicáveis à variedade tão grande de caracteres e das disposições morais. Sem a noção das preexistências, a diversidade sem limites das inteligências e das consciências ficaria sendo um problema insolúvel e a ligação dos diferentes elementos do “eu”, num todo harmonioso, tornar-se-ia fenômeno sem causa. O gênio, dizíamos, não se explica pela hereditariedade nem pelas condições do meio. Se a hereditariedade pudesse produzir o gênio, ele seria muito mais freqüente. A maior parte dos homens célebres teve ascendentes de inteligência medíocre e sua descendência foi-lhes notoriamente inferior. Sócrates e Joana d'Arc nasceram de famílias obscuras. Sábios ilustres saíram dos centros mais vulgares, por exemplo: Bacon, Copérnico, Galvani, Kepler, Hume, Kant, Locke, Malebranche, Réaumur, Spinoza, Laplace, etc. J.-J. Rousseau, filho de um relojoeiro, apaixona-se pela Filosofia e pelas Letras na loja do seu pai; D'Alembert, enjeitado, foi encontrado na soleira da porta de uma igreja e criado pela mulher de um vidreiro. Nem a ascendência nem o meio explicam as concepções geniais de Shakespeare. Os fatos não são menos significativos, quando consideramos a descendência dos homens de gênio. Seu poder intelectual desaparece com eles, não se encontra em seus filhos. A prole conhecida de tal ou tal grande poeta ou matemático é incapaz das obras mais elementares nessas duas espécies de trabalhos; a maior parte dos homens ilustres teve filhos estúpidos ou indignos. Péricles gerou dois patetas, que foram Parallas e Xântipo. Dessemelhanças de outra natureza, mas igualmente acentuadas, encontram-se em Aristipo e seu filho Lisímaco, em Tucídides e Milésias. Sófocles, Aristarco e Temístocles não foram mais felizes com os filhos. Que contraste entre Germânico e Calígula, entre Cícero e seu filho, Vespasiano e Domiciano, Marco Aurélio e Cômodo! E que dizer dos filhos de Carlos Magno, de Henrique IV, de Pedro, o Grande, de Goethe, de Napoleão? Há, contudo, casos em que o talento, a memória, a imaginação, as mais altas faculdades do espírito parecem hereditárias. Essas semelhanças psíquicas entre pais e filhos explicam-se pela atração e simpatia; são Espíritos similares atraídos uns para os outros por inclinações análogas e que antigas relações uniram. Generans generat sibi simile. Tal fato pode, no que diz respeito às aptidões musicais, ser verificado nos casos de Mozart e do jovem Pepito, os quais são, no entanto, muito superiores aos seus ascendentes. Mozart brilha entre os seus como um sol entre planetas obscuros. As capacidades musicais da sua família não bastam para fazer-nos compreender que aos quatro anos tenha podido revelar conhecimentos que ninguém lhe havia ensinado e mostrar ciência profunda das leis da harmonia. De todos os Mozart, foi o único que se tornou célebre. Evidentemente as altas Inteligências, a fim de manifestarem com mais liberdade suas faculdades, escolhem, para reencarnar, um meio em que haja comunhão de gostos e em que os organismos materiais se vão, de geração em geração, acomodando às aptidões, cuja aquisição elas prosseguem. Dá-se isso particularmente com os grandes músicos, para quem condições especiais de sensação e percepção são indispensáveis; mas, na maior parte dos casos, o gênio aparece no seio de uma família sem antecessor nem sucessor no encadeamento das gerações. Os grandes gênios moralizadores, os fundadores de religiões, Lao-Tse, Buda, Zaratustra, Cristo e Maomé pertencem a essa classe de Espíritos; à mesma classe pertencem também poderosas Inteligências que tiveram neste mundo os nomes imortais de Platão, Dante, Newton, G. Bruno, etc. Se as exceções fulgurantes ou funestas, criadas numa família pelo aparecimento de um homem de gênio ou de um criminoso, fossem simples casos de atavismo, dever-se-ia encontrar na genealogia respectiva o ancestral que serviu de modelo, de tipo primitivo a essa manifestação; ora, quase nunca isso se dá, quer num, quer noutro sentido. Poderiam perguntar-nos como conciliaremos essas dessemelhanças com a lei das atrações e das semelhanças, que parece presidir à aproximação das almas? A penetração em certas famílias de seres sensivelmente superiores ou inferiores, que vêm dar ou receber ensinamento, exercer ou sofrer novas influências, é facilmente explicável; pode resultar do encadeamento dos ensinos comuns que, em certos pontos, se tornam a unir e se enlaçam como conseqüência de afeições ou ódios mútuos do passado, forças igualmente atrativas que reúnem as almas em planos sucessivos na vasta espiral de sua evolução. Seria possível explicar pela mediunidade os fenômenos acima apontados? Alguns o tentaram. Nós mesmos, numa obra precedente,(167) reconhecemos que o gênio deve muito à inspiração e que esta é uma das formas da mediunidade. Mas acrescentávamos que, mesmo nos casos em que essa faculdade especial nitidamente se desenha, não se pode considerar o homem de gênio como um simples instrumento, assim como o é, antes de tudo, o médium propriamente dito. O gênio, dissemos nós, é principalmente aquisição do passado, o resultado de pacientes estudos seculares, de lenta e dolorosa iniciação. Esses antecedentes desenvolveram no ser uma profunda sensibilidade que o torna acessível às influências elevadas. Há diferenças apreciáveis entre as manifestações intelectuais das crianças-prodígio e a mediunidade tomada no seu sentido geral. Esta tem um caráter intermitente, passageiro, anormal. O médium não pode exercer sua faculdade a cada momento; são precisas condições especiais, difíceis, às vezes, de reunir, ao passo que as crianças-prodígio podem utilizar seus talentos a cada passo, constantemente, como nós mesmos o podemos fazer com as nossas próprias aquisições mentais.
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(167) Ver No Invisível, “A mediunidade gloriosa”.
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