Livros Espíritas
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Não obstante os tormentos inenarráveis, os seguidores fiéis de Jesus revelaram o poder da fé àquela so ciedade perversa e decadente, afrontando as torturas que lhes cabiam. Interrogados nos tribunais, em momento tão trágico, declaravam abertamente sua confiança em Cristo Jesus, aceitando os sofrimentos com humildade, por amor ao seu nome. Aquele heroismo parecia acirrar, ainda mai s, os ânimos da multidão animalizada. Inventavam-se novos gêneros de suplício. A perversidade apre sentava, diariamente, números novos em sua venenosa facúndia. Mas os cristãos pareciam possuidos de energias diferentes das conhecidas nos campos de batalhas sanguinolentas. A paciência invencível, a fé poderosa, a capacidade moral de resistência, assombravam os mais afoitos. Não foram poucos os que se entregaram ao sacrifício, cantando. Muita vez, diante de tanta coragem, os verdugos improvisados temeram o misterioso poder triunfante da morte. Terminada a chacina de agosto, com grande entu siasmo popular, continuou a perseguição sem tréguas, para que não faltasse o contingente de vítimas nos espetáculos periódicos, oferecidos ao povo em regozijo pela recons trução da cidade. Diante das torturas e da carnificina, o coração de Paulo de Tarso sangrava de dor. A tormenta operava confusão em todos os setores. Os cristãos do Oriente, em sua maioria, trabalhavam por desertar do campo da luta, forçados por circunstâncias imperiosas da vida par ticular. O velho Apóstolo, entretanto, unindo-se a Pedro, reprovava essa atitude. À exceção de Lucas, todos os cooperadores diretos, conhecidos desde a Ásia, haviam regressado. O ex tecelão, todavia, fazendo causa comum com os d esamparados, fez questão de assisti-los no transe inaudito. As igrejas domésticas estavam silenciosas. Fe chados os grandes salões alugados na Suburra para as pregações da doutrina. Restava aos seguidores do Mes tre apenas um meio de se entreverem e se reconfortarem na prece e nas lágrimas comuns: era as reuniões nas catacumbas abandonadas. E a verdade é que não poupa vam sacrifícios para acorrer a esses lugares tristes e ermos. Era nesses cemitérios esquecidos que encontravam o conforto fraternal, para o m omento trágico que os visitava. Ali oravam, comentavam as luminosas lições do Mestre e hauriam novas forças para os testemunhos impendentes. Amparando-se em Lucas, Paulo de Tarso enfrentava o frio da noite, as sombras espessas, os caminhos ásperos. Enquant o Simão Pedro cogitava de atender a outros setores, o ex -rabino encaminhava-se aos antigos sepul cros, levando aos irmãos aflitos a inspiração do Mestre Divino, que lhe borbulhava na alma ardente. Muitas ve zes as pregações se realizavam alta madrugada, quando soberano silêncio dominava a Natureza. Centenas de dis cípulos escutavam a palavra luminosa do velho Apóstolo dos gentios, experimentando o poderoso influxo da sua fé. Nesses recintos sagrados, o convertido de Damasco associava-se aos cânticos que se misturavam de prantos dolorosos. O espírito santificado de Jesus, nesses momentos, parecia pairar na fronte daqueles mártires anônimos, infundindo-lhes esperanças divinas. Dois meses haviam decorrido, após a festa hedionda, e o movimento das prisões aumentava dia a dia. Esperavam-se grandes comemorações. Alguns edifícios nobres do Palatino, reconstruídos em linhas sóbrias e elegantes, reclamavam homenagens dos poderes públicos. As obras de reedificação do Grande Circo estavam adiantadíssimas. Era impresci ndível programar festejos condignos. Para esse fim, os cárceres estavam repletos. Não faltariam figurantes para as cenas trágicas. Projetavam -se naumaquias pitorescas, bem como caçadas humanas no circo, em cuja arena seriam igualmente representadas peças famosas de sabor mitológico. Os cristãos oravam, sofriam, esperavam. Certa noite, Paulo dirigia aos irmãos a palavra afe tuosa, no comentário do Evangelho de Jesus. Seus con ceitos pareciam, mais que nunca, divinamente inspirados. As brisas da madrugada pe netravam a caverna mortuá ria, que se iluminava de algumas tochas bruxuleantes. O recinto estava repleto de mulheres e criança , ao lado de muitos homens embuçados. Depois da pregação comovedora, ouvida por todos, com os olhos molhados de lágrimas, o ex-tecelão de Tarso perolava solícito: — Sim, irmãos, Deus é mais belo nos dias trágicos. Quando as sombras ameaçam o caminho, a luz é mais preciosa e mais pura. Nestes dias de sofrimento e morte, quando a mentira destronou a verdade e a virtude foi substituida pelo crime, lembremos Jesus no madeiro in famante. A cruz tem, para nós outros, uma divina men sagem. Não desdenhemos o testemunho sagrado, quando o Mestre, não obstante imáculo, só alcançou neste mundo batalhas silenciosas e sofrimentos indefiníveis. For taleçamo-nos na idéia de que seu reino ainda não é deste mundo. Alcemos o espírito à esfera do seu amor imortal. A cidade dos cristãos não está na Terra; ela não poderia ser a Jerusalém que crucificou o Enviado Divino, nem a Roma que se comprás em derramar o sangue dos mártires. Neste mundo, estamos em uma frente de combate incruento, trabalhando pelo triunfo eterno da paz do Senhor. Não esperemos, portanto, repousar no lugar do trabalho e dos testemunhos vivos. Da cidade indestrutível da nossa fé, Jesus nos contempla e balsamiza o coração. Caminhemos ao seu encontro, através dos su plícios e das perplexidades dolorosas. Ele ascendeu ao Pai, do cimo do Calvário; nós lhe seguiremos as pegadas, aceitando com humildade os sofrimentos que, por seu amor, nos forem reservados... O auditório parecia extático, ouvindo as palavras proféticas do Apóstolo. Entre as lajes frias e impassí veis, os irmãos na fé sentiam -se mais unidos entre si. Em todos os olhares cintilava a certeza da vitória espi ritual. Naquelas expressões de dor e de esperança havia o tácito compromisso de seguir o Crucificado até ao seu Reino de Luz. O orador fizera uma pausa, sentindo -se dominado por estranhas comoções. Nesse instante inesquecível, um magote de guardas rompeu afoito no recinto. O centurião Volúmnio, à testa da patrulha armada, fazia íntimações em alta voz, enquanto os crentes pacíficos estarreciam surpresos. — Em nome de César! — bradava o preposto im perial, exultando de contentamento. E ordenando aos soldados que fechassem o círcu lo em torno dos cristãos indefesos, continuava gritando de modo espetacular. — E que ninguém fuja! Quem o tentar, morre como um cão! Apoiando-se a forte cajado, pois, nessa noite não tivera a companhia de Lucas, Paulo, erecto, evidenciando sua energia mora l, exclamou firmemente: — E quem vos disse que fugiríamos? Ignorais, por ventura, que os cristãos conhecem o Mestre a quem servem? Sois emissário de um príncipe do mundo, que estes sepulcros esperam; mas nós somos trabalhadores do Salvador magnânimo e imortal!... Volúmnio fitou-o surpreso. Quem seria aquele velho, cheio de energia e combatividade? Apesar da admiração que lhe inspirava, o centurião manifestou seu desagrado num sorriso de ironia. Medindo o ex -rabino de alto a baixo, com olhar de profundo desprezo, acrescentou: — Atentem bem no que aqui dizem e fazem... E depois de uma gargalhada, dirigiu -se a Paulo com insolência: — Como ousas afrontar a autoridade de Augusto? Devem existir, de fato, diferenças singulares entre o imperador e o crucificado de J erusalém. Não sei onde estaria seu poder de salvação para deixar suas vítimas ao abandono, no fundo dos cárceres ou nos postes do martírio... Essas palavras eram pontilhadas de mordaz ironia, mas o Apóstolo respondeu com a mesma nobreza de Convicção: — Enganai-vos, centurião! As diferenças são apre ciáveis!.. É que vós obedeceis a um infeliz e odiento perseguidor e nós trabalhamos por um salvador que ama e perdoa. Os administradores romanos, impensadamente, poderão inventar crueldades; mas Jesus nunca cessa rá de nutrir a fonte das bênçãos!.. A resposta produzira grande sensação no auditório. Os cristãos pareciam mais calmos e confiantes, os sol dados não ocultavam a enorme impressão que os dominava. O centurião, embora reconhecendo o desassombro daquele espírito varonil, não queria parecer fraco aos olhos dos subalternos e exclamou irritado: — Vamos, Lucílio: três bastonadas neste velho atre vido. O nomeado avançou para o Apóstolo, impassível. Ante a admiração silenciosa dos presentes, o bastão zuniu no ar, bateu em cheio no rosto do Apóstolo que, nem por isso, se alterou. As três pancadas foram rápi das; no entanto, um filete de sangue lhe escorria da face dilacerada. O ex-rabino, a quem haviam tomado o cajado de apoio, mantinha -se de pé com certa dificuldade, mas sem trair o bom ânimo que lhe caracterizava a alma enérgica. Fixou os verdugos com firmeza e sentenciou: — Não podeis ferir senão o corpo. Podereis amar rar-me de pés e mãos; quebrar-me a cabeça, mas as mi nhas convicções são intangíveis, inacessíve is aos vossos processos de perseguição. Diante de tanta serenidade, Volúmnio quase recuou aterrado. Não podia compreender aquela energia moral que se lhe deparava aos olhos cheios de espanto. Começava a acreditar que os cristãos, desprotegidos e anô nimos, retinham um poder que a sua inteligência não lograva atingir. Impressionando se com semelhante re sistência, organizou, à pressa, as filas dos pobres perseguidos, que, humildes, obedeciam sem vacilar. O velho Apóstolo tarsense tomou lugar entre os prisio neiros sem trair o mínimo gesto de enfado ou rebeldia. Observando atentamente a conduta dos guardas, exclamou, quando se deslocava o bloco de vítimas e verdugos, ao primeiro contacto com o relento frio da madrugada: — Exigimos o máximo respeito para com as mulheres e crianças!.. Ninguém ousou responder à observação, articulada em tom grave de advertência. O próprio Volúmnio parecia obedecer inconscientemente às admoestações daquele homem de fé poderosa e invencível. O grupo marchou em silêncio, atravessa ndo as estradas desertas, chegando à Prisão Mamertina quando listravam o horizonte os primeiros clarões da aurora.
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