Livros Espíritas
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O saber relativo à Terra também não seria útil a esses seres glorificados, como não o seria a sua poeira terrestre organizada, a qual, em temperatura semelhante, seria reduzida ao seu último átomo. Mesmo na Terra, a borboleta esvoaçante não traz consigo os órgãos ou os apetites da lagarta rasteira da qual surgiu. Todavia, há um sentimento, uma paixão, que a mônada ou essência espiritual conserva sempre em todos os estágios de sua existência, e que nos seres felizes e elevados, aumenta perpetuamente: é o amor do saber, esta faculdade intelectual que, em seu último e mais perfeito desenvolvimento, se transforma no amor da sabedoria infinita e na união com Deus. Eis a grande condição do progresso da alma em suas transmigrações na vida eterna. “Mesmo na vida imperfeita da Terra, esta paixão existe nalgum grau; aumenta com a idade, sobrevive ao aperfeiçoamento das faculdades corporais e, no momento da morte, se conserva no ser consciente. O destino futuro do ser depende da maneira pela qual essa paixão intelectual foi exercida e aumentada durante sua prova terrestre transitória. Se foi mal aplicada, o ser é degradado e continua a pertencer à Terra ou a qualquer sistema inferior, até que seus defeitos sejam corrigidos pelas provas penosas de existências novas. (Somos o que fazemos de nós mesmos). Ao contrário, quando o amor da perfeição intelectual é exercido sobre objetivos nobres, na contemplação e na descoberta das propriedades das formas criadas, quando o Espírito se esforçou por aplicar a seus estudos um fim útil e benfazejo para a Humanidade, bem como ao conhecimento das leis ordenadas pela inteligência suprema, o destino do princípio pensante continua a efetuar-se na ordem ascendente e sobe a um mundo planetário superior.” Eis algumas de suas elevadas concepções sobre a natureza da alma: “Em última análise, para nós o mundo externo ou material não passa de um amontoado de sensações. Remontando às primeiras lembranças de nossa existência, encontramos um princípio constantemente presente, que se pode chamar mônada, ou eu, que se associa intimamente com as sensações particulares produzidas pelos nossos órgãos. Esses órgãos estão em relação com sensações de outro gênero e, a bem dizer, os acompanham através das metamorfoses corporais de nossa existência, deixando temporariamente uma linha de sensação que as une todas; mas a mônada jamais se ausenta, e não poderíamos assinalar nem começo, nem fim às suas operações. Durante o sono, por vezes se perde o começo e o fim de um sonho, mas nos lembramos do meio. Um sonho não tem a menor relação com outro e, contudo, temos consciência de uma variedade infinita de sonhos que se sucederam, embora na maior parte do tempo não encontremos o seu fio, já que há entre eles diversidades e lacunas aparentes. “Temos as mesmas analogias para crermos numa infinidade de existências anteriores, que entre si devem ter tido misteriosas relações. A existência humana pode ser encarada como o tipo de uma vida infinita e imortal, e sua composição sucessiva de sonos e de sonhos poderia certamente nos oferecer uma imagem aproximada da sucessão de nascimentos e de mortes de que é composta a vida eterna. Não se pode mais negar que as nossas idéias provêm das sensações devidas aos nossos órgãos, como não se nega a relação que existe entre as verdades matemáticas e as fórmulas que as demonstram. Todavia, por si mesmos esses sinais não são fatos, assim como os órgãos não são o pensamento. “A história inteira da alma apresenta o quadro de um desenvolvimento efetuado segundo uma certa lei; conservamos apenas a lembrança das mudanças que nos foram úteis. A criança esqueceu o que fazia no seio da mãe; logo não mais se lembrará dos sofrimentos e dos folguedos que constituíram os seus dois primeiros anos. Entretanto, vemos que alguns hábitos desta idade subsistem em nós durante a vida inteira; é com o auxílio dos órgãos materiais que o princípio pensante compõe o tesouro de seus pensamentos e as sensações de modificação com a transformação dos órgãos. Na velhice, o espírito embotado cai numa espécie de sono, donde despertará para uma nova existência.” Não podendo pôr sob os olhos dos nossos leitores senão alguns breves fragmentos desta interessante publicação, terminaremos por uma teoria do perispírito, que se diria extraída das obras espíritas modernas. Eis em que termos se exprime Sir Humphry Davy, no diálogo Imortalidade, pág. 275 e seguintes: “Tentar explicar de que maneira o corpo está unido ao pensamento, seria pura perda de tempo. Evidentemente, os nervos e o cérebro aí estão em íntima ligação; mas, em que relação? Eis o que é impossível definir. A julgar pela rapidez e pela variedade infinita dos fenômenos da percepção, parece extremamente provável que há no cérebro e nos nervos uma substância infinitamente mais sutil do que permitiram descobrir a observação e a experiência. Assim, pode-se supor que a união imediata do corpo com a alma, da matéria com o espírito se dá por intermédio de um corpo fluídico invisível, de uma espécie de elemento etéreo inacessível para os nossos sentidos, e que talvez represente para o calor, para a luz e para eletricidade o que estes representam para o gás. O movimento é produzido mais facilmente pela matéria rarefeita, e todos sabem que agentes imponderáveis, tais como a eletricidade, derrubam as mais fortes construções. Não me parece improvável que alguma coisa do mecanismo refinado e indestrutível da faculdade pensante, adira, mesmo após a morte, ao princípio sensitivo. Porque, malgrado à destruição pela morte dos órgãos materiais, como os nervos e o cérebro, sem dúvida a alma pode conservar, indestrutivelmente, algo dessa natureza mais etérea. Às vezes eu penso que as faculdades chamadas instintivas pertencem a esta natureza requintada. A consciência parece ter uma fonte inacessível e permanecer em relação oculta com uma existência anterior.” Estas as passagens que quisemos assinalar aos nossos leitores. Sir Humphry Davy foi um dos grandes apóstolos do progresso. O Espiritismo não poderia ter melhores auxiliares do que no testemunho indireto desses sábios ilustres que, pelo estudo da Natureza, chegaram à descoberta de novas verdades. Tais obras devem fazer parte, merecidamente, da biblioteca do Espiritismo, e devemos ser gratos ao Sr. Camille Flammarion por se ter imposto a tarefa de traduzir e comentar a obra notável de Sir Humphry Davy.
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(24) Um vol. in-12. Preço: 3 fr. 50. Paris, 1869, Didier, e na Livraria Espírita, 7, rue de Lille.
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