Livros Espíritas
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Estabelecer a dependência dessa ordem é criar o cativeiro do espírito, que anula nossa capacidade de improvisação e estimula os vícios do pensamento. Fujamos ao condenável sistema de adoração recíproca, em que a falsa ternura opera a cegueira do sentimento. Respeitemo-nos mutuamente, na qualidade de irmãos congregados para a mesma obra do bem e da verdade, mas combatamos a idolatria; bem-queiramo-nos uns aos outros, como Jesus nos amou; todavia, cooperemos contra a insuflação do exclusivismo destruidor. Somos depositários de grandes lições da vida superior. Pô-las em prática, estendendo mãos amigas aos nossos semelhantes, é o nosso objetivo fundamental. Cada um de vocês tem obrigações em separado, nos setores diferentes da atividade espiritual. Durante alguns meses, estivemos quase sempre juntos, quando a oportunidade permitia. Associados na mesma experiência, criamos laços santificados de amor que nos identificam uns aos outros. Não podemos, porém, descansar sobre as comodidades do afeto. É preciso enfrentar as asperezas do serviço, conhecer a luta, testemunhar aproveitamento. Nunca me valeria da qualidade de instrutor para impedir o crescimento mental de vocês. A Terra, que nos é mãe comum, reclama filhos esclarecidos que colaborem na divina tarefa de redenção planetária. Há multidões, por toda parte, escravas do bem-estar e da miséria, da alegria e do sofrimento, estranhas ao caráter temporário das condições em que se agitam. Todos vivem, mas raros Espíritos de nosso mundo tomaram posse da vida eterna. O campo de trabalho é vastíssimo. Experimentem nele o que aprenderam, despertando as consciências que dormem ao longo do caminho. O aprendizado fornece-nos conhecimento. A vida oferece-nos a prática. Unamos a sabedoria com o amor, na atividade de cada dia, e descobriremos a divindade que palpita dentro de nós, glorificando a Terra que aguarda nosso concurso eficiente, pelo equilíbrio e compreensão. Não faltam instrutores benevolentes e generosos e, além disso, vocês devem aplicar as lições que receberam, orientando, igualmente, o próximo em luta e os companheiros ainda frágeis. Só as vítimas voluntárias da idolatria convertem a ausência num vácuo. Não, meus amigos, não alimentemos qualquer processo doloroso de saudade sem otimismo e sem esperança. Imenso futuro de realizações sublimes com o Pai espera cada um de nós. Edifiquemo-nos, aceitando as experiências construtivas que nos convocam o esforço à possibilidade maior. Estimo profundamente a consolação individual, mas, acima de nosso conforto, devemos procurar a libertação com o Cristo. Incontestavelmente, a preleção era vazada em severidade afetuosa, que, no momento, não nos sabia bem ao coração, habituado às expressões de incessante carinho, mas tinha a virtude de acordar-nos para a verdade, chamando-nos a uma atitude de legítimo entendimento. Ainda aí, numa simples reunião de despedidas, Alexandre sabia ser grande e generoso, impondo-nos um equilíbrio que, de outro modo, não saberíamos conservar. Embora a compreensão, porém, tínhamos os olhos úmidos. A separação dos bons, não obstante temporária, é sempre dolorosa. Na companhia dele, havíamos aprendido sublimes ensinamentos. Forte e sábio, carinhoso e enérgico, exercitara-nos as asas frágeis nos grandes voos de novos conhecimentos. Comparando nossa situação anterior à presente, observávamos evidente melhoria geral. Como não lhe dever, a ele, abençoado amigo de todas as horas, ilimitados testemunhos de amor? Creio que a maioria partilhava os meus pensamentos, porque Alexandre, dando a ideia de que nos ouvia as reflexões mais íntimas, acrescentou: — Devemos ao Cristo-Jesus todas as graças! Ele é o Divino Intermediário entre o Pai e nós outros. Saibamos agradecer ao Mestre as bênçãos, as lições, as tarefas. O espírito de gratidão ao Senhor, alegra a vida e valoriza o trabalho dos servos fiéis!… Em seguida, o instrutor levantou-se e, sorridente, abraçou cada um de nós, dirigindo-nos palavras de incitamento ao Bem e à Verdade, enchendo-nos de coragem e fé. Equilibrados pela sua palavra esclarecida, os aprendizes não ousaram pronunciar qualquer exclamação, filha da ternura indiscreta. Estávamos todos edificados, em posição serena e digna. Epaminondas, o discípulo mais respeitável de nosso Círculo, tomou a palavra e agradeceu, sobriamente, estampando nas afirmativas nossos sentimentos mais nobres e endereçando ao instrutor amigo nossos ardentes votos de paz e êxito, na continuidade de seus trabalhos gloriosos. Vimos que Alexandre recebia nossas vibrações de amor e reconhecimento em meio de profunda emoção. Sua fronte venerável emitia sublimes irradiações de luz. Terminada a breve saudação do companheiro, pronunciou algumas frases de agradecimento, que não merecíamos, e falou: — Agora, meus amigos, elevemos ao Cristo nossos pensamentos de júbilo e gratidão, consagrando-lhe as inesquecíveis emoções de nosso adeus. Manteve-se de pé, cercado de intensa luz safirino-brilhante, e, de olhos erguidos para o alto, estendeu os braços como se conversasse com o Mestre presente, embora invisível, orando com infinita beleza: Senhor, sejam para o teu coração misericordioso Todas as nossas alegrias, esperança e aspirações! Ensina-nos a executar teus propósitos desconhecidos, Abre-nos as portas de ouro das oportunidades do serviço E ajuda-nos a compreender a tua vontade!… Seja o nosso trabalho a oficina sagrada de bênçãos infinitas, Converte-nos as dificuldades em estímulos santos, Transforma os obstáculos da senda em renovadas lições… Em teu nome, Semearemos o bem onde surjam espinhos do mal, Acenderemos tua luz onde a treva demore, Verteremos o bálsamo do teu amor onde corra o pranto do sofrimento, Proclamaremos tua bênção onde haja condenações, Desfraldaremos tua bandeira de paz junto às guerras do ódio!… Senhor, Dá que possamos servir-te Com a fidelidade com que nos amas, E perdoa nossas fragilidades e vacilações na execução de tua obra. Fortifica-nos o coração Para que o passado não nos perturbe e o futuro não nos inquiete, A fim de que possamos honrar-te a confiança no dia de hoje, Que nos deste Para a renovação permanente até à vitória final. Somos tutelados na Terra, Confundidos na lembrança De erros milenários, Mas queremos, agora, Com todas as forças dalma, Nossa libertação em teu amor para sempre! Arranca-nos do coração as raízes do mal, Liberta-nos dos desejos inferiores, Dissipa as sombras que nos obscurecem a visão de teu Plano divino E ampara-nos para que sejamos servos leais de tua infinita sabedoria! Dá-nos o equilíbrio de tua lei, Apaga o incêndio das paixões que, por vezes, Irrompe, ainda, No âmago de nossos sentimentos, Ameaçando-nos a construção da espiritualidade superior. Conserva-nos em tua inspiração redentora, No ilimitado amor que nos reservaste E que, integrados no teu trabalho de aperfeiçoamento incessante, Possamos atender-te os sublimes desígnios, Em todos os momentos, Convertendo-nos em servidores fiéis de tua luz, para sempre! Assim seja. A comovedora prece de Alexandre fora a última nota do maravilhoso adeus. Saímos. Em torno, as flores exalavam agradabilíssimo perfume, à luz prateada da noite. E, ao longe, no alto dos céus, brilhavam os astros, como fulgurantes corações de luz, em praias distantes do Universo, imanados, como nós, uns aos outros, à procura das alegrias supremas da união com a Divindade.
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Nota: Nesse ponto, da 1ª edição, o linotipista omitiu o texto: “da qual nos valemos com todas as forças de que”, que foi reposto pela editora nas edições seguintes desse livro.
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