Livros Espíritas
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Um desses encontros, como vimos no início deste livro, foi com o homem que figurava em inúmeros dos seus sonhos e vidências. Ela sempre teve certa convicção íntima de que, embora só o visse em tais vidências, ele existia de fato, era um ser humano concreto e estava em algum lugar, talvez à espera dela. Não imaginava, porém, que um dia pudesse estar subitamente diante dele, em carne e osso e, por isso quando o momento chegou, ela não estava preparada para o impacto emocional correspondente. Era ele sem a menor dúvida! Não havia engano possível, mesmo porque, por um processo inexplicável, as feições atuais dele como que se esfumaram para adquirir a conformação exata da figura com a qual estava habituada a conviver durante seus sonhos acordados. O mais grave e traumatizante, contudo, era não poder aproximar-se dele, identificar-se, identificá-lo e trazer para a realidade do cotidiano a vivência daquele amor tão antigo quanto feliz. Imaginemos a situação. Chegar a ele e dizer-lhe: - O senhor é o principal figurante das minhas vidências ... Estaria criada uma situação de constrangimento na qual ela, certamente, passaria por doente mental, ainda mais que ele tinha seus compromissos de família e, portanto, um programa espiritual a cumprir. Identificara, afinal, aquele amigo especial de muitas e remotas existências de convívio, ternura, entendimento e devotamento e que, até então, só conseguira ver em sonho ou por meio de projeções mentais que muitos classificariam cruamente como fantasias da sua imaginação exaltada. E agora o tinha ali, ao alcance dos olhos materiais, podendo até tocá-lo com as mãos, o coração aos saltos, a sensação estranha de irrealidade, expectativa, perplexidade, que rapidamente se degenerou em decepção, em desencanto, agonia e dor. Só lhe restava uma alternativa válida: engolir as lágrimas, estrangular , emoções, respeitar as secretas motivações da lei e voltar a sua solidão. Quanto também ele seguia seu destino. Se-pa-ra-dos ... Depois desse reencontro - do qual ele nem ficara sabendo -, passou ter vidências em que ele aparecia em outros episódios, sempre ele, às vezes durante a noite, sob a forma de sonho, às vezes em desdobramentos conscientes, durante o dia, nos momentos de repouso e meditação. Em vários desses episódios, a presença de um triângulo amoroso no qual outra mulher parecia disputar-lhe o amor. E a constância e coerência dos tipos psicológicos, ao longo dos séculos e até milênios! É de justiça ressaltar que, dentro desse quadro geral de coerência psicológica, todas as entidades envolvidas no processo cometeram no passado equívocos mais ou menos graves, mas, onde quer que se encontrem hoje, apresentam-se inegavelmente mais amadurecidas e posicionadas em patamar evolutivo mais elevado, a despeito de imperfeições ainda a superar, como é natural. Regina jamais conseguiu penetrar o segredo que gerou essa triangulação e os compromissos decorrentes. A mais remota 'estação' que suas antenas psíquicas captaram foi no antigo Egito. Em uma daquelas vidas, a 'outra' havia sido a esposa legal e ela, a amada de sempre (que ele respeitou, naturalmente), mas acabou sendo a segunda esposa, quando a primeira morreu, em condições trágicas. No amplo cenário dos séculos, na Europa, muitas outras vezes teriam encontro marcado. Duas vezes no ducado de Anjou, na França medieval. Ele, o titular da Casa, sempre um tanto 'desligado' dos problemas do dia-a-dia, estudando, meditando, de pouco falar e muito pensar. Suponho tê-lo localizado como certo Foulques II, chamado Le Bon (O Bom), que a preciosa Biographie universelle descreve como pessoa que "favoreceu as populações e procurou fixar em torno de si, pelos seus gestos generosos, os homens mais sábios de seu tempo". Compôs ele próprio alguns hinos religiosos em homenagem a são Martinho, e os cantava no coro com os sacerdotes. Era, pois, um homem culto para seu tempo. Era simples e bom, como nos informa seu apelido. Certa vez o rei Luís de Além-Mar pilheriou com ele acerca de seu gosto pelas letras, inusitado em um nobre de sua época: - Sabei, sire - respondeu o duque -, que o príncipe iletrado é um asno coroado. Sobre ele, apenas uma data: morreu no ano de 958, em Tours. Segundo as vidências de Regina, duas existências subseqüentes foram vividas ali, em Anjou, pelo antigo triângulo. Numa delas, Regina era a esposa legal e titulada do conde e a 'outra', a concubina, tomada (dentre as servas da casa) num momento de impulso por parte dele, ante um impulso semelhante de Regina que resolvera armar-lhe uma 'pirraça', na esperança de se fazer mais desejada, por mais arisca. Deu-se mal a dupla, por causa desse episódio um tanto desastrado. Na existência seguinte, o duque se uniu clandestinamente (mas legalmente) a Regina, uma jovem camponesa, mas acabou cedendo a pressões, conformando-se com um casamento forçado - que não se consumou, pois ele se recusou a conviver com a segunda mulher. Esta era, precisamente, a concubina da existência anterior que voltara para exigir, como esposa legítima, a posição social e os bens a que se julgava com direito, em virtude das frustrações da vida passada. E, novamente, se viu frustrada. Descoberta a trama, esta reagiu violentamente, no que, aliás, tinha suas razões, mas descobriu-se impotente para repor as coisas no lugar que entendia certo, pois Regina era mulher legítima e ele havia assegurado a ela, por escritura, a posse de todos os seus bens. A ela e aos dois filhos gêmeos, aliás. Regina não sabe que destino teve a 'outra'; 'viu', porém, que ela (Regina) morreu antes do duque e se lembra de ter acompanhado do mundo espiritual, a vida triste e tranqüila que ele vivia com os dois filhos, excelentes rapazes. Um destes voltou a ser filho dele, em outra existência, desta vez com a 'outra' ... Em outra vida, ainda na Europa, Regina vê, novamente, o triânguulo fatídico em ação. Ela própria é uma jovem de família nobre, a 'outra' é uma duquesa poderosa e arbitrária e ele, ao que parece, o marido dela que, talvez cansado da convivência difícil, retirou -se para um velho castelo, parcialmente em ruínas, onde se dedicou aos seus estudos (desta vez foi a alquimia). Regina, ainda muito jovem, adolescente, foi despachada pela duquesa juntamente com outras crianças (todas órfãs) - ela não sabe como caíram em mãos da mulher -, para bem longe de onde viviam. O homem que dirigiu essa expedição. constrangido a obedecer a duquesa durona, não podia fazer nada para impedi-lo, mas distribuiu-as a pessoas que as aceitassem, mediante recibo, certamente com a finalidade de emprestar à operação um aspecto mais ou menos 'legal'. Regina e mais um menino fiicaram com o duque, exilado em seu próprio castelo em ruínas, mas muito feliz da vida por estar em condições de viver em paz. com seus livros, suas experiências e suas meditações. Regina vinha dar o toque final de calor humano a esse quadro idílico e de solitude. Nem sempre a 'outra' aparece como figurante, mas Regina e ele são personagens cativos em todas essas novelas verdadeiras e coerentes. Em uma dessas, Regina e ele, ambos religiosos, são obrigados a tomar veneno, em trágica farsa, montada deliberadamente para sugerir um pacto suicida entre eles. pois haviam pulado o alto muro das conveniências e tabus para entregarem-se, uma vez mais. ao magnetismo daquela paixão multissecular. A cena final, a que ela assistiu como personagem e espectadora, foi terrível: era noite, em ambiente fechado de igreja ou claustro, e os dois foram obrigados a ingerir a dose letal, cercados de monges encapuzados. Alguns desses viriam, séculos depois, ao grupo mediúnico em que Regina funcionava como médium. Estavam ainda desarmonizados e perdidos nas sombras de seus equívocos. A 'outra' não aparece nesse episódio. Ao que se apurou, em existência vivida por Regina numa corte européia, desta vez sentada num trono, a 'outra' também não figura. Essa foi uma vida em que vários e graves compromissos foram assumidos por Regina que, lamentavelmente, não se saiu muito bem do teste, para muitos fatal, do exercício do poder. Não que tenha sido uma megera arbitrária e violenta, mas é certo que cometeu ou deixou que cometessem em seu nome alguns erros compromete dores ... Disto daria conta, pouco depois, em duas ou mais existências subseqüentes, nos Estados Unidos, nas quais se vê, em uma delas, como vítima impotente da famosa "caça às bruxas", em Boston, onde sua incompreendida mediunidade levou-a a passar por tormentos e horrores inconcebíveis. (Este episódio foi narrado mais extensamente em A memória e o tempo). A existência seguinte foi no dramático período das lutas pela emancipação do país do domínio inglês, que culminou com os históricos eventos de 1777. Creio que vale a pena demorar-nos um pouco mais sobre este episódio, pelos instrutivos aspectos que nos oferece à meditação. Prefiro, neste ponto, ceder a palavra à própria Regina, reproduzindo seu relato. A) INTERLÚDIO AMERICANO "As lembranças e revelações de possíveis vidas passadas que vieram no desprendimento", escreve ela, "foram sempre provocadas por crises de angústia muito intensas e questionamentos íntimos decorrentes da invencível inadaptação ao mundo objetivo em que tinha de viver. Intuitivamente, ela sabia que tais desajustes tinham suas raízes e explicações no passado; seria, contudo, possível (e desejável) identificá- las com a finalidade de melhor compreender minha situação? "Sempre tive muita fé. Orava com freqüência e fervor, desejando encontrar uma explicação. Não uma solução mágica para os problemas e dramas que vivia, mas uma resposta que me ajudasse a entender a situação e conseguir adaptar-me a ela, aceitando o que tinha de ser aceito e mudando o que pudesse ser mudado.
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