Livros Espíritas
Sugerir Edição de Documento
Editar documento
Título:
Autor:
Espiritos:
Capítulo:
Conteúdo:
20000
caracteres restantes
Estamos na velha Jerusalém, numa clara manhã do ano 35. No interior de sólido edifício, onde tudo transpira conforto e luxo da época, um homem ainda moço parece impaciente, à espera de alguém que se demora. Ao menor rumor da via pública, corre à janela, apressado, voltando a sentar-se e a examinar papiros e pergaminhos, como quem se diverte matando o tempo. Chegando à cidade, depois de uma semana de via gem exaustiva, Sadoc aguardava o amigo Saulo para o abraço afetuoso da sua amizade de muitos anos. Dentro em breve um carro minúsculo, semelhante às bigas romanas, estacava à porta, tirado por dois soberbos cavalos brancos. Num minuto, as nossas personagens se abraçaram efusivamente, transbordantes de alegria e juventude. O jovem Saulo apresentava toda a vivacidade de um homem solteiro, bordejando os seus trinta anos. Na fisionomia cheia de virilidade e máscula beleza, os traços israelitas fixavam -se particularmente nos olhos profundos e percucientes, próprios dos tempera mentos apaixonados e indomáveis, ricos de agudeza e resolução. Trajando a túnica do patriciato, falava de preferência o grego, a que se afeiçoara na cidade natal, ao convívio de mestres bem amados, trabalhados pelas escolas de Atenas e Alexandria. — Quando chegaste? — perguntou Sadoc, bem -humorado, ao visitante. — Estou em Jerusalém desde ontem de manhã. Aliás, estive com tua irmã e teu cunhado, que me deram notícias tuas ao partirem para Lida. — E como vais de vida lá por Damasco? — Sempre bem. Antes que se fizesse alguma pausa, o outro observou: — Mas como estás modificado!... Um carro à ro mana, a conversação em grego e... Saulo, porém, não o deixou prosseguir e rematou: — E no coração a Lei, sempre desejoso de submeter Roma e Atenas aos nossos princípios. — Sempre o mesmo homem! — exclamou o amigo com um sorriso franco. — Aliás, posso apresentar um complemento às tuas próprias explicações. A biga éindispensável’ às visitas a uma casinha florida, na estrada de Jope; e a conversação grega é necessária aos colóquios com uma legítima descendente de Issacar, nascida entre as flores e os mármores de Corinto. — Como o sabes? — inquiriu Saulo admirado. — Pois não te disse que estive ontem à tarde com tua irmã? E os dois, acomodados em poltronas confortáveis da ép oca, entremeando a conversação com algumas pe quenas taças do capitoso “Chipre”, esfloravam largamente os problemas da vida pessoal, relacionando as pequenas ocorrências de cada dia. Jovialíssimo, Saulo contou ao amigo que, de fato, se enamorara de uma jovem da sua raça, que aliava os dotes de peregrina beleza aos mais elevados tesouros do coração. Seu culto ao lar constituía um dos mais santificados atributos femininos. Explicou o primeiro encontro que tiveram. Em companhia de Alexandre e Gamaliel, fora, havia uns três meses, à festividade íntima que Zacarias ben Hanan, adiantado lavrador no caminho de Jope, oferecera a alguns amigos bem colocados, em homenagem à circuncisão dos filhinhos de seus servidores. Acrescentou que o anfitrião era antigo comercian te israelita emigrado de Corinto, após longos anos de trabalho na Acaia, desgostoso com as perseguições de que fora vítima. Após grandes provações na viagem de Cencréia a Cesaréia, Zacarias chegara àquele porto em péssimas condições financeiras, mas foi au xiliado por um patrício romano, que lhe facultou recursos para arrendar uma grande propriedade na estrada de Jope, a regular distância de Jerusalém. Acolhido generosamente em sua casa, agora farta e feliz, ali conhecera na jovem Abigail um terno coração de menina, dona dos mais belos predicados morais que pudessem exornar uma filha da sua raça. Era, de fato, o seu ideal de moço: inteligente, versada na Lei e, sobretudo, dócil e carinhosa. Adotada pelo casal como filha muito cara, havia sofrido amargamente em Corinto, ali deixando o pai morto e o irmão escravizado para sempre. Havia três meses que se conheciam, permutando-se as mais risonhas esperanças e, quem sabe? talvez o Eterno lhes reservasse a união conjugal, como coroamento dos sonhos sagrados da juventude. Saulo falava com o entusiasmo próprio do seu temperamento apaixonado e vibrátil. No olhar pro fundo, notava-se-lhe a chama viva dos sentimentos reso lutos, com respeito à afeição que lhe dominava a capacidade emotiva. — E já comunicaste a teus pai s esses projetos? —perguntou Sadoc. — Minha irmã pretende ir a Tarso nestes dois me ses e será a intérprete dos meus votos, concernentes à organização do meu futuro. Aliás, sabes, isso não pode nem deve ser um problema de soluções precipitadas. Penso que a o homem não convém entregar —se assim, sem mais nem menos, a uma questão decisiva do seu destino. Obedecendo ao nosso velho instinto de prudência, venho analisando demoradamente meus próprios ideais e ainda não trouxe Abigail para conviver com Dalila, algun s dias, em nossa casa; pretendo fazê-lo tão-só nas vésperas da visita de minha irmã ao lar paterno. — Já que acalentas tantos projetos para o futuro adjuntou o amigo com bondoso interesse —, em que pé estão as tuas pretensões ao cargo no Sinédrio? Não posso queixar-me, porqüanto o Tribunal me confere atualmente atribuições especialissimas. Sabes que Gamaliel há muito vem instando com meu pai a respeito da minha transferência para Jerusalém, onde me prometem lugar de relevo na administração do nosso povo. Como sabemos, o antigo mestre está idoso e deseja retirar -se da vida pública. Não tardarei a substituí -lo no voto das mais altas deliberações, além de auferir atualmente ótima remuneração, independente da contri buição que me vem de Tarso periodicamente. Tenho, acima de tudo, o ideal político de aumentar meu prestígio junto aos rabinos. É preciso não esquecer que Roma é poderosa e que Atenas é sábia, tornando -se indispensável acordar a eterna hegemonia de Jerusalém como tabernáculo do Deus único. Precisamo s, pois, dobrar os joelhos de gregos e romanos ante a Lei de Moisés. Sadoc, no entanto, deixando perceber que não pres tava muita atenção ao seu idealismo nacionalista, retinha o pensamento na situação particular, advertindo delicadamente. — Pelo que me dizes, folgo em saber que teu pai vai melhorando, progressivamente, as condições finan ceiras. E dizer-se que foi tecelão humilde.. — Por isso mesmo, talvez — glosou Saulo —, ensinou-me a profissão, quando menino, para que nunca me esquecesse de que o pro gresso de um homem depende do seu próprio esforço. Hoje, porém, depois de tantas fadigas no tear, ele descansa, com justiça, numa velhice honrada e sem cuidados, junto de minha mãe. Suas caravanas e camelos percorrem toda a Cilícia e os transportes lhe garantem um desenvolvimento de renda cada vez maior. A palestra continuou animada e, em dado instante, o moço de Tarso inquiriu o amigo sobre os motivos que o traziam a Jerusalém. — Vim certificar-me da cura de meu tio Filodemos, que ficou curado da velha cegueira, mediante processos misteriosos. E, como se trouxesse o cérebro onusto de interro gações de toda sorte, para as quais não encontrava res posta nos próprios conhecimentos, acentuou: — Já ouviste falar nos homens do “Caminho”? — Ah! Andrônico falou-me a respeito deles, há muito tempo. Não se trata de uns pobres galileus mal trapilhos e ignorantes que se refugiam nos bairros desprezíveis? — Isso, justamente. E contou que um homem chamado Estevão, por tador de virtudes sobrenaturais, no dizer do povo, h avia devolvido a vista ao tio, com assombro geral de muita gente. — Como é isso? — disse Saulo admirado. Como pôde Filodemos submeter-se a experiências tão sórdidas? Acaso não terá compreendido que o fato pode radicar nas artimanhas dos inimigos de Deus? V árias vezes, desde que Andrônico me referiu o assunto pela primeira vez, tenho ouvido comentários a respeito desses homens e cheguei mesmo a trocar idéias com Gamaliel, no intuito de reprimir essas atividades perniciosas; entretanto, o mestre, com a tolerância que o caracteriza, me fez ver que essa gente vem auxiliando a numerosas pessoas sem recursos. — Sim — atalhou o outro —, mas ouço dizer que as pregações de Estevão estão arrebanhando muitos es tudiosos a novos princípios que, de algum modo, infirmam a Lei de Moisés. — Todavia, não foi um carpinteiro galileu, obscuro, sem cultura, que originou tal movimento? Que pode ríamos esperar da Galiléia? Porventura terá produzido outra coisa além de legumes e peixes? E, contudo, o carpinteiro martirizado to rnou-se um ídolo para os sequazes. Procurando desfazer as im pressões de meu tio, chamando -o à razão com a energia necessária, fui levado a visitar, ontem, as obras de caridade dirigidas por um tal Simão Pedro. É uma instituição estranha e que não deixa d e ser extraordinária. Crianças desamparadas que encontram carinho, leprosos que recobram a saúde, velhos enfermos e des protegidos da sorte, que exultam de conforto. — Mas os doentes? Onde ficam esses doentes? —interrogou Saulo assombrado. — Todos se agasalham junto desses homens incom preensíVeiS. — Estão todos malucos! — disse o moço de Tarso com a franqueza espontânea que lhe marcava as atitudes. Ambos trocaram impressões íntimas, sobre a nova doutrina, pontuando de ironia o comentário de muitos fatos pi edosos que empolgavam a atenção do povo simples de Jerusalém. Ao finalizar a conversa, Sadoc acrescentou: — Não me conformo em ver os nossos princípioS aviltados e proponho -me a cooperar contigo, embora es teja em Damasco, para estabelecermos a imprescindível repressão a tais atividades. Com as tuas prerrogativas de futuro rabino, em destaque no Templo, poderás encabeçar uma ação decisiva contra esses mistificadores e falsos taumaturgos. — Sem dúvida — respondeu. — E prontifico-me a executar todas as providências que o caso requer. Até agora, a atitude do Sinédrio tem sido da máxima tolerância mas farei que todos os companheiros mudem de opinião e procedam como lhes compete, em face dessas investidas que estão a desafiar severa punição. E, quase solene, concluía: — Quais os dias de pregação desse tal Estevão?
Mais opções
TAG
Valor
Mensagem para o avaliador (caso precise explicar suas sugestões):
3000
caracteres restantes
Criado por (coloque telefone ou e-mail caso seja necessário entrar em contato):
Cancelar
Salvar
Aguarde um momento...
×
Deseja sair do sistema?
×
Confirma a operação?
×