Livros Espíritas
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O artista limita-se a aprender a dominar uma técnica especial, enquanto que o médium precisa aprender também a dominar impulsos emocionais a fim de que a mensagem que passa por ele, vinda de alguém no plano do espírito e destinada a alguém no plano da matéria, não se contamine com as suas próprias paixões e desacertos íntimos. Ele terá de ser como o lápis bem-apontado, com o grafite na consistência própria, na cor certa, ou o aparelho de som dotado de dispositivos de alta fidelidade para que a boa gravação não seja reproduzida com distorções, zumbidos e estáticas que a tornem irreconhecível. Deve se esforçar para que a mesma qualidade de som existente na gravação-fonte seja a que se reproduz nos alto-falantes, com toda a fidelidade e autenticidade possíveis. A mediunidade em si não apresenta, a meu ver, dificuldades na fase inicial, desde que não sejam criadas pelo médium ou por aqueles que se incumbem de ajudá-lo no desenvolvimento de suas faculdades. Ele deve ser assistido, orientado e esclarecido nas suas dúvidas, mas não compelido a este ou aquele processo. Não apenas o seu ritmo próprio e pessoal de desenvolvimento deve ser respeitado, mas também não se deve forçá-lo a cuidar de uma forma de mediunidade quando a que está aflorando é outra. Se é ele que está tentando forçar uma faculdade, simplesmente porque a deseja ou acha que lhe dará maiores projeções, então, sim, deve ser advertido, com franqueza e cordialidade, dos riscos que corre. Deve, porém, ser convencido com argumentos e não com ordens para serem cumpridas sem discussão, que é da sua conveniência deixar que as faculdades se desenvolvam naturalmente. E que seja também desestimulado da ambição prejudicial de querer ser o melhor médium do mundo, dotado de todas as faculdades possíveis, no seu mais alto grau de perfeição. Nem os atletas nem os artistas ambicionam tanto. O que eles desejam, usualmente, é serem bons naquilo que fazem, serem os melhores nas atividades de sua escolha. Na mediunidade, não há disputa de campeonatos nem medalhas de ouro ao vencedor, porque não há vencedores, no sentido de que um médium possa suplantar outros. Na mediunidade, ganha aquele que serve na obscuridade, modestamente, com devotamento e honestidade. Quando ouço falar que alguém é "um grande médium", fico logo de pé no freio. Existem grandes médiuns? Mediunidade é grandeza? Muita gente avalia os médiuns pelos fenômenos espetaculares que podem produzir ou pela ampla variedade de faculdades que exibem. Quanto a mim, não é isso que busco num médium. Ele, ou ela, pode até dispor de ampla faixa de sensibilidades - que isto não é defeito -, mas prefiro aquele que, embora dotado de faculdades várias, dedica-se modestamente a uma ou duas para exercê-las bem e com dedicação. 4. A FACULDADE DOMINANTE De acordo com a promessa do Cristo de que haveria um recrudescimento das faculdades mediúnicas, nestes últimos tempos, muitos estão renascendo dotados de mediunidade em potencial, a ser treinada e desenvolvida; mas é preciso examinar bem cada caso que se nos apresenta para que o surto de mediunidade, esperado e previsto, não se transforme numa corrida desabalada para as mesas mediúnicas e, de modo especial para a psicografia. Kardec já observava, ao seu tempo, a preferência por essa forma de comunicação. Vejamos bem como ele coloca a questão: "De todos os meios de comunicação, a escrita manual é o mais simples, mais, cômodo e, sobretudo, mais completo. Para ele devem tender todos os esforços porquanto permite se estabeleçam com os espíritos relações tão continuadas e regulares como as que existem entre nós. Com tanto mais afinco deve ser empregado, quanto é por ele que os espíritos revelam melhor sua natureza e o grau de seu aperfeiçoamento ou da sua inferioridade. Pela facilidade que encontram em se exprimir por esse meio, eles nos revelam seus mais íntimos pensamentos e nos facultam julgá-los e apreciar-lhes o valor. Para o médium, a faculdade de escrever é, além disso, a mais suscetível de desenvolver-se pelo exercício". (Kardec, Allan, 1975). Depreende-se, por conseguinte, que a psicografia é de fato uma faculdade desejável, mas não a única. Parafraseando Paulo de Tarso, poderíamos dizer que se todos fossem psicógrafos, que seria da psicofonia, da vidência, da audição, da cura, do passe, do desdobramento e de tantas outras variedades dentro das categorias gerais? Aliás, Kardec mesmo adverte, pouco adiante que ... "Um médium pode, sem dúvida, ter muitas aptidões, havendo, porém, sempre uma dominante. Ao cultivo dessa é que, se for útil, deve ele aplicar-se". Em erro grave incorre quem queira forçar de todo modo o desenvolvimento de uma faculdade que não possua. Deve a pessoa cultivar todas aquelas sem que reconheça possuir os germes?. Procurar ter as outras é, acima de tudo tempo e, em segundo lugar, perder talvez, enfraquecer com certeza, as de que seja dotado, (Idem). São palavras inequívocas e que devem ser lidas, meditadas e postas em ação, porque partem de quem teve oportunidade de observar e aprender com quem tinha condições de ensinar. Vejamos, por exemplo, o que acrescenta Sócrates (espírito) a comentário de Kardec: "Quando existe o princípio, o gérmen de uma faculdade, esta se manifesta sempre por sinais inequívocos. Limitando-se à sua especialidade, pode o médium tornar-se excelente e obter grandes e belas coisas; ocupando-sede tudo, nada de bom obterá. Notai, de passagem, que o desejo de ampliar indefinidamente o âmbito de suas faculdades é uma pretensão orgulhosa que nunca deixam impune. Os bons abandonam o presunçoso, que se torna um joguete dos mentirosos. Infelizmente, não é raro verem-se médiuns que, não contentes com os dons que receberam, aspiram, por amor-próprio ou ambição, a possuir faculdades excepcionais, capazes de os tornarem notados. Essa pretensão lhes tira a qualidade mais preciosa: a de médiuns seguros". (Idem). Não precisamos procurar muito para confirmar tais observações. Ao escrevermos este livro (1984), o mercado literário está sendo inundado de livros psicografados, em prosa e verso. São mensagens, textos pseudocientíficos, depoimentos, romances, poesia, revelações, tudo quanto se possa imaginar. Ressalvado um ou outro documento de melhor qualidade literária e de texto confiável, a maioria dessa produção é de baixo nível, tanto na forma quanto no conteúdo, isto sem contar erros e distorções de natureza doutrinária, quando os seus autores resolvem discorrer sobre temas de maior responsabilidade. Resulta essa subliteratura do açodamento com que se disputa um lugar no círculo dos médiuns psicógrafos, esteja ou não o sensitivo dotado para essa faculdade. Muitos são atraídos pelo nome na capa de um livro e por isso, no dizer de Sócrates, tornam-se "joguetes de mentirosos". Enquanto assistimos a essa correria para a psicografia, vemos abandonadas faculdades outras da maior importância, como a que leva o médium devotado às tarefas de desobsessão ou doutrinação a dar passes, consolar um sofredor, assitir um doente, alegrar o solitário. Mediunidade não é privilégio concedido a alguns e negado a outros para que aqueles possam projetar-se e estes não. As faculdades são distribuídas segundo um programa de ação previamente acertado como instrumento de trabalho para ajudar o processo evolutivo do próprio médium e dos seres aos quais ele estender a mão para socorrer. É, portanto, responsabilidade e não título de nobreza ou destaque social. Sobre esse aspecto específico, colho, no depoimento de uma pessoa, algumas observações: A tarefa mediúnica - diz ela - é de livre escolha, segundo afirmam nossos amigos espirituais, decidida antes da reencarnação. Está, pois, na programação da pessoa. É compromisso e, uma vez aceito, deve ser exercido com dedicação, com amor. Se o médium vai para a reunião porque ele tem de ir, então é melhor desligar-se do grupo e cuidar de outra coisa. Ele deve ir se que ir. Aqueles que vão para o local da reunião como que arrastados, obrigados, porque acham que devem ou que precisam, trabalhar mediunicamente, não terão sequer condições suficientes de concentração para um bom trabalho. Especialmente nos grupos maiores, muitos estão ali impacientes, com a atenção voltada para o relógio, à espera de que a reunião termine logo, contando os médiuns que ainda não 'receberam' ..... E já que estamos falando em concentração, vejamos isso um pouco mais atentamente. Muitos são os participantes de grupos - médiuns ou não - que se queixam de não saber como concentrar-se. Vão à reunião, fazem um esforço enorme, procuram mentalizar isto ou aquilo e os resultados são desanimadores. Regina perguntou, certa vez, ao seu devotado amigo espiritual o que era concentrar-se; como é que a pessoa encarnada deve concentrar-se durante o trabalho mediúnico. Explicou ele que concentrar-se não é prender a alma em determinado pensamento ou idéia, ao contrário, é soltar a alma, relaxar, a fim de que a mente se esvazie. Já a concentração preparatória à meditação tem uma seqüência diferente. Após uma espécie de limpeza prévia da mente, eliminando preocupações do momento e tensões provocadas pela vida material, deve ser buscado um tema de natureza evangélica, por exemplo, com o qual a mente possa repousar, tranqüilizar-se. De minha parte, procuro, nesses momentos lembrar-me de que, como dizia Paulo, vivemos e nos movemos em Deus e nele temos o nosso ser. E que, portanto, estou entregue a ele, indestrutível imortal. Isto me faz lembrar uma remota encarnação no século XVI, em que era meu lema o conhecido versículo 31, do capítulo 8, da Carta aos Romanos: "Se Deus está conosco, quem estará contra nós?" O problema se resume, portanto, em nos colocarmos nas mãos de Deus, como escreveu Antero de Quental, ainda encarnado: Na mão de Deus, na sua mão direita Descansou afinal meu coração Do palácio encantado da ilusão Desci a passo e passo a escada estreita. E termina: Dorme o teu sono, coração liberto Dorme na mão de Deus eternamente!
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