Livros Espíritas
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Sabemos que em Roma os cristãos começam a morrer no sacrifício, tomados por escravos misérrimos. Os poderes perversos do mundo desencadeiam a tempestade de igno mínias sobre a fronte dos seguidores do Evangelho. Se eu tiver de testificar de Jesus, fá -lo-ei em Roma. Saberei mor rer junto dos companheiros, como um homem comum e pecador; mas não me submeterei ao papel de falso imitador do Messias prometido. Destarte, já que o processo vai ser novamente debatido pelo novo governador, apelarei para César. O médico fez um gesto de as sombro. Como a maio ria dos cristãos eminentes de todas as épocas, Lucas não conseguia compreender aquele gesto, interpretado, à primeira vista, como negativa do testemunho. — Entretanto — objetou com certa hesitação —Jesus não recorreu para as altas autoridades no sacrifício da cruz, e eu receio que os discípulos não saibam interpretar tua atitude, como convém. — Discordo de ti — respondeu Paulo, resoluto se as comunidades cristãs não puderem compreender mi nha resolução, prefiro passar a seus olhos como pedante e desatento, nesta hora singular de minha vida. Sou pecador e devo desprezar o elogio dos homens. Se me condenarem, não estarão em erro. Sou imperfeito e pre ciso testemunhar nessa condição verdadeira de minha vida. De outro modo seria perturbar mi nha consciência, provocando um falso apreço humano. Muito impressionado, Lucas guardou a lição ines quecível. Três dias depois dessa entrevista, o governador re gressava à sede do Governo provincial, acompanhado de numeroso séquito de israelitas dispostos a conseguir a entrega do famoso prisioneiro. Pórcio Festo, com a serenidade que lhe marcava as atitudes políticas, procurou conhecer imediatamente a situação. Reviu o processo meticulosamente, inteirando -se dos títulos de cidadania romana do acusado, de acordo com a legislação em vigor. E notando a insistência dos rabinos que denotavam enorme ansiedade pela solução do assunto, convocou uma reunião para novo exame das declarações do acusado, no intuito de satisfazer a política regional de Jerusalém. O convertido de Damasco, alquebrado de corpo, mas sempre revigorado de espírito, compareceu à assembléia sob os olhares rancorosos dos irmãos de raça, que pleiteavam sua remoção a todo custo. O Tribunal de Cesaréia atraía grande multidão, ansiosa de conhecer o n ovo julgamento. Discutiam os israelitas, os cristãos comen tavam os debates em atitude defensiva. Mais de uma vez, Pórcio Festo foi obrigado a levantar a voz, recla mando atenção e silêncio. Abertos os trabalhos da assembléia singular, o go vernador interrogou o acusado, com energia cheia de nobreza. Paulo de Tarso, entretanto, respondeu a todas as argüições com a serenidade que lhe era peculiar. Não obstante a manifesta animosidade dos judeus, declarou que em nada os havia ofendido e não se recordava de qualquer ato de sua vida no qual houvesse atacado o Templo de Jerusalém ou as leis de César. Festo percebeu que tratava com um espírito culto e eminente, e que não seria tão fácil entregá-lo ao Sinédrio, conforme julgara a princípio. Alguns rabinos haviam insistido para que ordenasse a remoção para Jeru salém, pura e simplesmente, à revelia de quaisquer preceitos legais. O governador não hesitaria, nesse particular, fazendo valer sua influência política; mas, não quis praticar um ato arbitrário antes de c onheçer as qualidades morais do homem focalizado pelas intrigas judaicas. No íntimo, considerava que, se se tratasse de uma personagem vulgar, poderia entregá -lo sem receio à autoridade tirânica do Sinédrio que, certo, o liqüida ria; mas, outro tanto não a conteceria, caso verificasse nobreza e inteligência no prisioneiro, porqüanto, com o seu acurado senso político, não desejava adquirir um inimigo capaz de prejudicá -lo a qualquer tempo. Tendo reconhecido os altos dotes intelectuais e morais do Apóstolo, modificou inteiramente a sua atitude. Passou logo a considerar com mais severidade o interlocutor, che gando à conclusão de que seria crime agir com parcialidade no feito. Além da cultura que o acusado exibia, tratava -se de um cidadão romano por títulos le gitimamente adquiridos. Formulando novas conjeturas e com imensa surpresa para os representantes confiados do Sinédrio, Pórcio Festo perguntou ao prisioneiro se con sentia em voltar a Jerusalém, a fim de lá ser julgado, perante ele próprio, pelo Tribunal religioso da sua raça. Paulo de Tarso, compreendendo a cilada dos israelitas, replicou tranqüilamente, enchendo a assembléia de assombro: — Senhor governador, estou diante do Tribunal de César, a fim de ser definitivamente julgado. Há mais de dois anos esp ero a decisão de um processo que não posso compreender. Como sabeis, a ninguém ofendi. Minha prisão derivou, tão-só, das intrigas religiosas de Jerusalém. Desafio, neste particular, o conceito dos mais exigentes. Se pratiquei algum ato indigno, peço, eu mesmo, a sentença de morte. Convocado a novo jul gamento, acreditei tivésseis a coragem necessária para romper com as aspirações inferiores do Sinédrio, fazendo justiça à vossa longanimidade de administrador conscien cioso e reto. Continuo confiando na vossa autoridade, na vossa imparcialidade, isenta de favor, que ninguém poderá exigir dos vossos encargos honrosos e delicados. Examinai detidamente as acusações que me retêm no cárcere de Cesaréia! Verificareis que nenhum poder provincial poderá entregar -me à tirania de Jerusalém! Reconhecendo essa valiosa circunstância e invocando meus títulos, embora creia sinceramente em vossas deli berações sábias e justas, apelo, desde já, para César!... A atitude inesperada do Apóstolo dos gentios pro vocou geral espanto. Pórcio Festo, muito pálido, en golfou-se em sérias cogitações. De sua cátedra de juiz, ensinara, generosamente, o caminho da vida a muitos acusados e malfeitores; entretanto, naquela hora inolvidável de sua existência, encontrava um réu que lhe falava ao coração. A resposta de Paulo valia um pro grama de justiça e de ordem. Com imensa dificuldade pedia o restabelecimento da calma, no recinto. Os repre sentantes do judaísmo discutiam acaloradamente entre si; alguns cristãos, mais apressados, comentavam des favoravelmente a atitude do Apóstolo, apreciando -a superficialmente, como se constituísse uma negação do testemunho. O governador reuniu, à pressa, o pequeno conselho dos rabinos mais influentes. Os doutores da Lei antiga insistiram pela adoção de medid as mais enérgicas, no pressuposto de que Paulo se modificaria com algumas bastonadas. Entretanto, sem desprezar a opor tunidade de mais uma prestigiosa lição para sua vida pública, o governador cerrou ouvidos às intrigas de Jerusalém, afirmando que de mod o algum podia transigir no cumprimento do dever, naquele significativo instante de sua vida. Desculpou -se, desapontado, com os velhos políticos do Sinédrio e do Templo, que o fixavam com olhos rancorosos e pronunciou as célebres palavras. — Apelaste para César? Irás a César! Com essa antiga fórmula ficaram encerrados os trabalhos do novo julgamento. Os representantes do Sinédrio retiraram -se extremamente irritados, exclamando um deles, em voz alta, para o prisioneiro que recebeu o insulto serenamente: — Só os desertores malditos apelam para César. Vai -te para os gentios, indigno intrujão!... O Apóstolo fixou-o com benignidade, enquanto se preparava para voltar ao cárcere. O governador, sem perder tempo, determinou se anotasse a petição do réu, para prosseguimento do feito. No dia seguinte demorou -se a estudar o caso e sentiu-se presa de grande indecisão. Não podia enviar o acusado à capital do Império, sem justificar os motivos da prisão, por tanto tempo, nos cárceres de Cesaréia. Como pro ceder? Mas, decorridos alguns dias, Herodes Agripa e Berenice vinham saudar o novo governador, em visita cerimonioSa e imprevista. O preposto imperial não pôde dissimular as preocupações que o absorviam, e depois das solenidades protocolares, devidas a hóspedes tão ilustres, Contou a Agripa a história de Paulo de Tarso, cuja personalidade empolgava os mais indiferentes. O rei palestinense, que conhecia a fama do ex-rabino, manifestou desejo de observá -lo de perto, ao que Festo anuiu satisfeitíssimo, não somente pela possib ilidade de proporcionar um prazer ao hóspede generoso, senão tam bém por esperar das impressões do mesmo algo de útil para ilustrar o processo do Apóstolo, que lhe incumbia enviar para Roma. Pórcio deu a esse ato um caráter festivo. Convidou as personalida des mais eminentes de Cesaréia, reunindo luzida assembléia em torno do rei, no melhor e mais vasto auditório da Corte Provincial. Primeiramente houve bailados e música; em seguida, o convertido de Damasco, devidamente escoltado, foi apresentado pelo própri o governador, em termos discretos, mas cordiais e sinceros. Herodes Agripa impressionou -se logo, vivamente, com a figura alquebrada e franzina do Apóstolo, cujos olhos serenos traduziam a energia inquebrantável da raça. Curioso por conhecê -lo melhor, mandou que se defendesse de viva voz. Paulo compreendeu a profunda significação daquele minuto e passou a historiar os transes da sua existência com grande erudição e sinceridade. O rei ouvia assombrado. O ex-rabino evocou a infância, deteve -se nas reminiscências da mocidade, explicou sua aversão aos se guidores do Cristo Jesus e, exuberante de inspiração, traçou o quadro do seu encontro com o Mestre redivivo, às portas de Damasco, à viva luz do sol. Em seguida, passou a enumerar os feitos da obra de gentilida de, as perseguições sofridas em toda parte por amor ao Evan gelho, concluíndo, com veemência, que, sem embargo, suas pregações não contrariavam, antes corroboravam as pro fecias da Lei Antiga, desde Moisés. Dando curso à imaginação ardente e fácil, o orado r tinha os olhos jubilosos e brilhantes. A assembléia aristocrática estava eminentemente impressionada com os fatos narrados, denotando entusiasmo e alegria.
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