Livros Espíritas
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Admitido, pois, que o princípio das faculdades esteja no Espírito, e não na matéria, suponhamos que se reconheça numa substância a propriedade de modificar as disposições morais, neutralizar uma inclinação má: isto só poderia ser por sua ação sobre o órgão correspondente a essa inclinação, ação que teria por efeito interromper o desenvolvimento desse órgão, atrofiá-lo ou paralisá-lo, se for desenvolvido. Torna-se evidente que, neste caso, não se suprime a inclinação, mas a sua manifestação, absolutamente como se ao músico se tirasse o seu instrumento. Provavelmente são efeitos desta natureza que certos homeopatas observaram, e que os levaram a crer na possibilidade de corrigir, com o auxílio de medicamentos apropriados, vícios tais como o ciúme, o ódio, o orgulho, a cólera, etc. Uma tal doutrina, se verdadeira, seria a negação de toda responsabilidade moral, a sanção do materialismo, porque, então, a causa de nossas imperfeições estaria só na matéria; a educação moral se reduziria a um tratamento médico; o pior homem poderia tornar-se bom sem grandes esforços, e a Humanidade poderia ser regenerada com o auxílio de algumas pílulas.6 Se, ao contrário, como não padece dúvida, as imperfeições forem inerentes à própria inferioridade do Espírito, não se o melhorará pela modificação de seu invólucro carnal, como não se endireitaria um corcunda, dissimulando sua deformidade sob os tecidos de suas roupas. Contudo, não duvidamos que tais resultados sejam obtidos em alguns casos particulares, porquanto, para afirmar um fato tão grave, é preciso ter observado; mas estamos convictos de que se enganaram com a causa e o efeito. Por sua natureza etérea os medicamentos homeopáticos têm uma ação de certa forma molecular; sem dúvida podem agir, mais que outros, sobre certas partes elementares e fluídicas dos órgãos e lhes modificar a constituição íntima. Se, pois, como é racional admitir, todos os sentimentos da alma têm sua fibra cerebral correspondente para a sua manifestação, um medicamento que agisse sobre essa fibra, quer para a paralisar, quer para exaltar sua sensibilidade, paralisaria ou exaltaria, por isso mesmo, a expressão do sentimento, do qual fosse instrumento, mas o sentimento não deixaria de subsistir. O indivíduo estaria na posição de um assassino a quem se tirasse a possibilidade de cometer homicídios, cortando-lhe os braços, mas que conservasse o desejo de matar. Seria, pois, um paliativo, mas não um remédio curativo. Não se pode agir sobre o ser espiritual senão por meios espirituais; a utilidade dos meios materiais, se fosse constatado o efeito acima, talvez fosse de dominar mais facilmente o Espírito, de o tornar mais flexível, mais dócil e mais acessível às influências morais; mas nos embalaríamos em ilusões se esperássemos de uma medicação qualquer um resultado definitivo e duradouro. Seria completamente diferente se se tratasse de ajudar a manifestação de uma faculdade existente. Suponhamos um inegável que trazem certo alívio às partes lesadas, ou supostas como tais, alcançando, quem sabe, o próprio perispírito, e propiciando uma trégua ao doente, seguida de visível melhora, a fim de que a sua reforma moral, esta sim, e os recursos da prece e da fluidoterapia possam operar a cura definitiva, na atual ou no curso de outras existências. Espírito inteligente encarnado, não tendo ao seu serviço senão um cérebro atrofiado e não podendo, por conseguinte, manifestar suas idéias: será para nós um idiota. Admitindo, o que julgamos possível à homeopatia, mais do que a qualquer outro gênero de medicação, que se possa dar mais flexibilidade e sensibilidade às fibras cerebrais, o Espírito manifestaria seu pensamento, como um mudo, ao qual se tivesse desatado a língua. Mas se o Espírito fosse idiota por si mesmo, ainda que tivesse ao seu serviço o cérebro do maior gênio, nem por isso seria menos idiota. Não podendo um medicamento qualquer agir sobre o Espírito, não lhe poderia dar o que não tem, nem tirar o que tem; mas agindo sobre o órgão da transmissão do pensamento, pode facilitar essa transmissão sem que, por isto, nada seja mudado no estado do Espírito. O que é difícil, o mais das vezes mesmo impossível no idiota de nascença, porque há interrupção completa e quase sempre geral do desenvolvimento nos órgãos, torna-se possível quando a alteração é acidental e parcial. Neste caso, não é o Espírito que se aperfeiçoa, são os meios de comunicação.
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(6) N. do T.: É perfeitamente lógico este raciocínio de Allan Kardec, considerando-se o estado em que se achava a ciência médica do seu tempo. Então não se dispunham dos avanços conquistados no campo da farmacologia, da bioquímica, da genética, da biologia e da engenharia moleculares, que permitiram a síntese de medicamentos de real valor, hoje usados com sucesso nos distúrbios mentais. Embora não curem a doença em si, cujo substrato está no Espírito imortal, é
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