Livros Espíritas
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II EXTRATO DO RELATÓRIO DA CAIXA DO ESPIRITISMO, FEITO À SOCIEDADE DE PARIS, EM 5 DE MAIO DE 1865 Muito se há falado dos proventos que eu retirava de minhas obras. Certamente, nenhuma pessoa séria acredita realmente em meus milhões, a despeito da afirmação dos que diziam saber de boa fonte que eu levava uma vida principesca, tinha carruagens de quatro cavalos e que em minha casa só se pisava em tapetes de Aubusson. (Revista de junho de 1862). Além disso, não obstante o que disse o autor de uma brochura que conheceis, provando, por cálculos hiperbólicos, que o meu orçamento de receita ultrapassa a lista civil do mais poderoso soberano da Europa, porquanto, só na França, vinte milhões de espíritas são meus tributários (Revista de junho de 1863), há um fato mais autêntico do que os seus cálculos: é que jamais pedi qualquer coisa a alguém, ninguém me deu algo para mim pessoalmente; numa palavra, não vivo a expensas de ninguém, porquanto, das somas que me foram voluntariamente confiadas no interesse do Espiritismo, nenhuma parcela foi desviada em meu proveito.63 As minhas imensas riquezas proviriam, pois, das minhas obras espíritas. Conquanto estas obras tenham alcançado inesperado êxito, basta ter um pouco de familiaridade com os negócios de livraria, para saber que não é com livros filosóficos que se amontoam milhões em cinco ou seis anos, quando sobre a venda só se tem o direito autoral de alguns centavos por exemplar. Mas, avultado ou mínimo, sendo esse lucro fruto do meu trabalho, ninguém tem o direito de intrometer-se no emprego que lhe dou; ainda mesmo que se elevasse a milhões, ninguém tem nada a ver com isto, desde que a compra de livros, assim como a assinatura da Revista, é facultativa e não se impõe em nenhuma circunstância, nem mesmo para assistir às sessões da Sociedade. Falando comercialmente, estou na posição de todo homem que recolhe o fruto de seu trabalho; corro o risco de todo escritor, que tanto pode triunfar, quanto fracassar.64 Mesmo não tendo, neste particular, nenhuma conta a prestar, creio útil à própria causa a que me devotei, dar algumas explicações. Antes de mais, direi que minhas obras não são propriedade exclusiva minha, o que me obriga a comprá-las de meu editor e pagá-las como um livreiro, à exceção da Revista; que o lucro se acha singularmente diminuído pelas dívidas incobráveis e pelas distribuições gratuitas, feitas no interesse da Doutrina, a pessoas que, sem isto, delas estariam privadas. Um cálculo muito fácil prova que o preço de dez volumes perdidos ou doados, que nem por isso deixo de pagar, é suficiente para absorver o lucro de cem volumes. Isto seja dito a título de informação e entre parênteses. Somando tudo e feito o balanço, resta, contudo, alguma coisa. Imaginai a cifra que quiserdes; o que faço dela? Isto é o que mais preocupa certa gente. Quem quer que outrora tenha visto a nossa habitação e a veja hoje poderá atestar que nada mudou na nossa maneira de viver, desde que entrei a ocupar-me com o Espiritismo; é tão simples agora como o era antigamente. Então é certo que os meus lucros, por maiores que sejam, não servem para nos dar os prazeres do luxo. Teria eu, então, a mania de entesourar para ter o prazer de contemplar meu dinheiro? Creio que meu caráter e meus hábitos jamais permitiram que se fizesse tal suposição. O que pretendem? Desde que isto não me aproveita, quanto mais fabulosa for a soma, mais embaraçosa será a resposta. Um dia saberão a cifra exata, bem como o seu emprego detalhado, e os fazedores de histórias pouparão a imaginação; hoje eu me limito a alguns dados gerais para pôr um freio a suposições ridículas. Para tanto devo entrar nalguns detalhes íntimos, mas que são necessários, e para os quais vos peço perdão. Sempre tivemos do que viver, muito modestamente é verdade, mas o que teria sido pouco para certa gente nos bastava, graças a nossos gostos e hábitos de ordem e economia. À nossa pequena renda vinha juntar-se, como suplemento, o produto das obras que publiquei antes do Espiritismo e o de um modesto emprego, que me vi forçado a deixar quando os trabalhos da Doutrina absorveram todo o meu tempo. Tirando-me da obscuridade, o Espiritismo veio lançar-me em novo caminho; em pouco tempo vi-me arrastado por um movimento que estava longe de prever. Quando concebi a idéia de O Livro dos Espíritos, era minha intenção não me pôr de modo algum em evidência e permanecer desconhecido; mas, prontamente ultrapassado, isto não me foi possível: tive de renunciar ao meu gosto pelo insulamento, sob pena de abdicar da obra empreendida e que crescia de dia para dia; foi preciso seguir seu impulso e tomar-lhe as rédeas. Se meu nome tem agora alguma popularidade, seguramente não fui eu que o procurei, pois é notório que nem a devo à propaganda, nem à camaradagem da imprensa, e que jamais aproveitei de minhas relações para me lançar no mundo, quando isto me teria sido tão fácil. Mas, à medida que a obra crescia, um horizonte mais vasto se desdobrava à minha frente, recuando os seus limites; compreendi então a imensidade de minha tarefa e a importância do trabalho que me restava fazer para completá-la. Longe de me apavorarem, as dificuldades e os obstáculos redobraram as minhas energias; vi o objetivo e resolvi atingi-lo com a assistência dos Espíritos bons. Sentia que não tinha tempo a perder e não o perdi nem em visitas inúteis, nem em cerimônias ociosas; foi a obra de minha vida: a ela dei todo o meu tempo, sacrifiquei-lhe meu repouso, minha saúde, porque o futuro estava escrito diante de mim em caracteres irrecusáveis. Sem nos afastarmos do nosso gênero de vida, nem por isso essa posição excepcional deixou de nos criar menos necessidades a que só os meus recursos pessoais, muito limitados, não me permitiriam prover. Seria difícil a outrem imaginar a multiplicidade das despesas que aquela posição acarreta e que, sem ela, eu teria evitado. Pois bem, senhores! o que me proporcionou suprimento aos meus recursos foi o produto das minhas obras. E o digo com satisfação, pois foi com o meu próprio trabalho, com o fruto de minhas vigílias que provi, pelo menos em sua maior parte, às necessidades materiais da instalação da Doutrina. Assim, eu trouxe uma larga cota-parte à caixa do Espiritismo. Os que ajudam a propagação das obras não poderão, pois, dizer que trabalham para me enriquecer, porque o produto da venda de todo livro, de toda assinatura da Revista, redunda em proveito da Doutrina e não do indivíduo. Mas, prover ao presente não era tudo: importava também pensar no futuro e preparar uma fundação que, depois de mim, pudesse auxiliar aquele que me substituísse na grande tarefa que terá de desempenhar. Esta fundação, a cujo respeito ainda devo guardar silêncio, se prende à propriedade que possuo e é em vista disto que aplico, em melhorá-la, uma parte do que ganho. Como estou longe dos milhões com que me gratificaram, e a despeito de minhas economias, duvido muito que meus recursos pessoais me permitam dar a essa fundação o complemento que em vida lhe queria destinar. Uma vez, porém, que a sua realização está nos desígnios dos meus guias espirituais, se eu mesmo não o fizer, é provável que, um dia ou outro, isso se fará. Enquanto aguardo, vou elaborando os projetos no papel. Longe de mim, senhores, o pensamento de me envaidecer, ainda que de leve, com o que acabo de expor-vos. Foi necessária a pertinácia de certas diatribes, para que eu me decidisse, embora a contragosto, a quebrar o silêncio acerca de alguns fatos que me concernem. Mais tarde, todos aqueles que à malevolência aprouve desnaturar serão trazidos à luz por meio de documentos autênticos; mas o tempo dessas explicações ainda não chegou. A única coisa que por enquanto me importava era que ficásseis esclarecidos com relação ao destino dos fundos que a Providência faz que passem pelas minhas mãos, seja qual for a sua origem. Não me considero mais do que um depositário, até mesmo do que ganho e, com mais forte razão, daquilo que me é confiado. Alguém me perguntava certo dia, sem curiosidade, é claro, e por mero interesse pela causa, o que eu faria de um milhão, se o tivesse. Respondi-lhe que hoje o seu emprego seria totalmente diferente do que houvera sido no princípio. Outrora eu teria feito propaganda por uma larga publicidade; agora reconheço que isso seria inútil, pois os nossos adversários se encarregaram de custeá-la. Não me pondo então à disposição grandes recursos, os Espíritos quiseram provar que o Espiritismo só devia seus triunfos à sua própria força. Hoje, que o horizonte se ampliou, sobretudo que o futuro se desdobrou, fazem-se sentir necessidades de ordem completamente diversa. Um capital como o que supondes receberia um emprego mais útil. Sem entrar em detalhes, que seriam prematuros, direi simplesmente que uma parte se destinaria a converter a minha propriedade numa casa especial de retiro espírita, cujos habitantes recolheriam os benefícios de nossa doutrina moral; a outra constituiria uma renda inalienável, destinada: 1o a manter o estabelecimento; 2o a assegurar uma existência a quem me suceder e aos que o ajudarem em sua missão; 3o a prover às necessidades correntes do Espiritismo, sem os riscos de auxílios eventuais, como sou obrigado a fazer, já que a maior parte de seus recursos decorrem do meu trabalho, que terá termo.
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Nota 1:
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(61) N. do T.: Comportando maiores ou menores desenvolvimentos, este artigo está inserido em Obras Póstumas, segunda parte: “Constituição do Espiritismo – Exposição de motivos”.
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(62) Tratamos especialmente a questão das instituições espíritas num artigo da Revista de julho de 1866, ao qual remetemos o leitor para maiores desenvolvimentos.
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(63) Essas somas se elevavam naquela época ao total de 14.100 francos, cujo emprego, a favor exclusivamente da Doutrina, se acha justificado pelas contas.
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Nota 4:
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(64) Aos que perguntaram por que vendíamos nossos livros, em vez de os doar, respondemos que o faríamos, se tivéssemos encontrado impressor que no-los imprimisse a troco de nada, negociante que nos fornecesse papel grátis, livreiros que não exigissem nenhuma comissão para se encarregarem de distribuí-los, uma administração dos correios que os transportasse por filantropia, etc. Enquanto esperamos, e como não temos milhões para subvencionar esses encargos, somos obrigados a lhes dar um preço.
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