Livros Espíritas
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Postura semelhante assume Boddington: Em grandes grupos de pessoas não se pode obter a harmonia porque o assunto é tratado de maneira tão diversa que nem mesmo a amizade com um é possível. Com uns poucos amigos escolhidos, a harmonia é facilmente conseguida. Assim, poucos membros, usualmente seis a dez, têm sido a condição mais satisfatória para grupos de desenvolvimento em geral. Outra razão é a de que muitos não podem comparecer regularmente e o absenteísmo resulta em que os dirigentes espirituais têm de trabalhar sem que esteja presente, às vezes, exatamente o componente talvez essencial ao sucesso do grupo. (Boddington, Harry, 1949). 21. Os ESPÍRITOS SÃO GENTE Uma coisa é certa: trabalho mediúnico é atividade séria e não deve ser assumido sem nítida noção de responsabilidade. São muitos os que se deixam atrair pelos aspectos mais dramáticos e fascinantes da fenomenologia para se sentirem, em pouco tempo, desencantados com a rotina do treinamento, com o esforço, as renúncias, as dificuldades e perplexidades inevitáveis que acarretam não apenas o desenvolvimento, como a prática regular da mediunidade. Médiuns em formação, levados por impulsos emocionais ou sonhando com a posição de veículos de importantes revelações e fenômenos inusitados, logo se decepcionam. Afinal de contas, como assinala Boddington, acabam descobrindo que "os espíritos não são brinquedos infantis, mas indivíduos dotados de um claro propósito na vida e que escolhem seus médiuns como a melhor instrumentação para alcançarem os objetivos que têm em mente". Essa observação, alias, contém outras implicações que é bom colocar logo aqui: a de que os espíritos são gente, como qualquer um de nós, embora alguns estejam colocados muitos patamares acima de nós, enquanto outros estão dois ou três degraus abaixo. Não se trata de expor uma hierarquia de valores para exaltar alguns e denegrir outros. Isto é uma realidade pura e simples que é bom admitir logo, para facilitar as coisas. O ser superior que comparece para trazer a colaboração da sua sabedoria e bondade não é um semideus que deve ser ouvido e seguido servilmente como um guru infalível e, sim, uma pessoa humana que merece nosso maior respeito, a mais doce afeição e que nos inspira confiança. Até mesmo suas observações e recomendações devem ser examinadas com atenção e espírito crítico construtivo. Se eles forem mesmo o que dizem ser, não se aborrecerão com isto; ao contrário, chegarão até a sugeri-lo. Por outro lado, os que nos buscam para serem tratados, esclarecidos e ajudados não são seres desprezíveis ou monstros inaceitáveis apenas porque seus erros nos parecem tenebrosos e sua aparente maldade seja incompreensível para nós. São seres humanos também, mergulhados em equívocos lamentáveis de que, no fundo, desejam sair, mas não sabem como nem por onde. O médium que os receber sentirá o impacto de suas paixões e desarmonias e poderá até ficar com resíduos vibratórios penosos depois que eles forem 'desligados', mas não nos esqueçamos jamais de que são companheiros de jornada evolutiva em situação de aflitivas angústias e que nos procuram porque precisam de socorro, embora não o reconheçam e nem queiram admiti-lo. Não são nada diferentes do que fomos e ainda somos em grande parte. 22. O MÉDIUM E O GRUPO: PALAVRAS FINAIS Para que trabalhos dessa natureza se desenrolem de maneira adequada, o médium tem de estar bem integrado no grupo, que precisa oferecer condições satisfatórias para que todos se sintam bem. O trabalho, portanto, só é bom coletivamente quando é bom em cada indivíduo componente do grupo. Este, por sua vez, terá sempre a resistência do seu elo mais fraco. Não é tão fácil, portanto, para o médium em formação encontrar o grupo dos seus sonhos, mesmo porque, na maioria das vezes, ele nem sabe ao certo quais as condições ideais para o trabalho que pretende realizar. Se suas faculdades estão ainda na fase inicial e necessitam de assistência competente para se desenvolverem corretamente, suas dificuldades de adaptação talvez sejam menores - desde que tenha a felicidade de encontrar um bom grupo -, porque se instruirá dentro dos padrões ali adotados. Se já está desenvolvido a ponto de poder participar das tarefas mediúnicas em andamento ali, poderá ter dificuldades bem maiores, como vimos no caso de Regina. Com a dose certa de boa vontade e de compreensão de parte a parte, tais arestas poderão ser eliminadas. Se, porém, o médium sente que não há como adaptar-se àquele tipo de trabalho ou àquele grupo em particular, deve continuar sua busca. Do contrário, sua maneira específica de exercer a mediunidade estará acarretando problemas para o grupo, que prefere trilhar outros caminhos, como também o modo de trabalhar do grupo estará sempre criando nele um confronto que gera desconfortante mal estar e até mesmo conflitos mais sérios que precisam ser evitados. O período de adaptação do médium ao grupo, portanto, é sempre uma fase delicada, tanto na vida do grupo quanto na carreira do médium, exige atenção especial, compreensão, tolerância de parte a parte, mas não concessões prejudiciais, de um ou de outro lado, que resultem em prejuízo para ambos. Isto quer dizer que nem o médium deve impor suas condições ao grupo qual pretende servir, alterando drasticamente procedimentos e ditando normas e condições, nem o grupo deve obrigá-lo a aceitar condições, segundo as quais se torne impraticável para ele exercer sua mediunidade de maneira satisfatória. O problema é complexo, insistimos em dizer, porque, mesmo em tais posições de respeito mútuo ou por causa disso, tanto o médium deve permanecer receptivo a observações destinadas a colaborar no aperfeiçoamento de suas faculdades como o grupo deve examinar, com atenção, observações que o médium recém-chegado tenha a oferecer sobre o trabalho e que possam resultar em aprimoramento dessa tarefa. Se cada um se fecha em sua torre de marfim e fica expedindo decretos-leis irrevogáveis e indiscutíveis, não há como se chegar a um entendimento. Sei que é difícil acolher críticas, mesmo justas. Mas nós só evoluímos mudando: só melhoramos corrigindo defeitos e equívocos. Um pouco de humildade de parte a parte é a única fórmula satisfatória e fecunda. Não é nosso propósito, neste livro, expor um plano sistemático de trabalho destinado ao desenvolvimento das faculdades mediúnicas. Já que estamos, porém, discorrendo sobre a fase inicial do exercício mediúnico, parece oportuno acrescentar alguns comentários adicionais para finalizar este módulo do livro. O primeiro aspecto a observar é o de que o dirigente das tarefas mediúnicas oferece melhores condições de êxito no desempenho da parte que lhe toca, se suas próprias faculdades - se as tiver - não o levarem a um estado de inconsciência. Este ponto foi discutido em obra paralela, sob o título Diálogo com as sombras, à qual o leitor deverá recorrer, se desejar. Encontro a mesma recomendação em Boddington. Lembrando a importância de um ambiente descontraído, fraterno e sério, o competente autor inglês observa: Quando os componentes são selecionados adequadamente e os médiuns funcionam bem, no saudável exercício de suas faculdades, todo o grupo se sente bem. O médium se torna objeto de respeito, desenvolvendo uma atitude de autoconfiança que leva à eclosão de fenômenos satisfatórios. Compare-se esse tipo ideal com os dotados de vontade fraca e caprichosa e ficará evidente por si mesmo o valor de uma sábia liderança. Do que ficou dito, é fácil concluir-se que o dirigente que nunca perde a consciência é mais adequado para presidir reuniões públicas ou semipúblicas. (Idem) Cabe aqui uma observação adicional. Tanto na Inglaterra, em particular, como na Europa, em geral, e nos Estados Unidos, a mediunidade costuma ser exercida profissionalmente, prática que a doutrina espírita condena formal e explicitamente. São comuns, naqueles países, verdadeiros espetáculos mediúnicos para um público pagante, com as inevitáveis características de shows em que médiuns famosos se apresentam distribuindo mensagens aos espectadores. Sem dúvida, ocorrem ali identificações e são transmitidos recados autênticos. Tais fenômenos podem impressionar favoravelmente um ou outro espectador e levá-lo ao estudo mais aprofundado da questão, mas isso não retira à exibição inequívocas características de espetáculo público de diversão, mais ou menos inconseqüente. É por isso que Boddington se refere a sessões públicas. O certo, contudo, é que ele não acha conveniente entregar a direção de trabalhos mediúnicos a pessoas que também estejam sujeitas a entrar em estados inconscientes de transe, e neste ponto específico estamos de acordo. Não, porém, em tolerar a mediunidade remunerada, convertida em atração de palco. (Em vez de palco, eles preferem uma expressão eufemística, designando o local de onde fala o médium pelo nome de platform - plataforma. O que não descaracteriza o espetáculo como exibição pública da faculdade mediúnica com fins comerciais e de exibicionismo, que a doutrina espírita rejeita). 23. QUE É CONCENTRAÇÃO? Ainda em conexão com o trabalho inicial do médium, convém discutir, embora sumariamente, o problema da chamada 'concentração'. São muitos os dirigentes de trabalhos mediúnicos que exigem concentração de todos os participantes do grupo. O termo, contudo, é um tanto nebuloso no seu significado nesse contexto e, portanto, dúbio em suas implicações e conseqüências.
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