Livros Espíritas
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1. O MÉDIUM E O ARTISTA Ocorre-me, com freqüência, comparar o médium a um artista, a começar, como é óbvio, pela sensibilidade mais aguda que a ambos caracteriza. Não apenas o médium tem algo do artista, mas o artista tem muito do médium pela sua faculdade de captar inspirações sutilíssimas, em verdadeiros transes, para desenvolvê-las posteriormente no trabalho sofrido da elaboração. E até nisto podemos observar as simetrias, pois é no trabalho da interpretação e da tradução da mensagem mediúnica ou artística que se revela o bom médium ou o bom artista, ou seja, no processo da comunicação. Por isso tantos artistas sofrem ao contemplar a pobreza dos resultados obtidos na obra realizada, em confronto com a beleza imaterial do original, tal como concebido na mente. O mesmo se poderá dizer do médium. Não é fácil 'materializar', em toda a sua pureza original, numa mensagem psicofônica ou psicográfica, o pensamento do espírito manifestante de elevada condição evolutiva. Emmanuel nos oferece uma idéia dessa dificuldade quando se viu ante a contingência de reproduzir, em toscas palavras do vocabulário humano, uma exortação do Cristo a um grupo de espíritos que acabavam de se libertar da carne, após sofrimentos inauditos, nos primeiros momentos do cristianismo nascente. Escreve ele, por Chico Xavier em Há dois mil anos: "De modo algum se poderia traduzir, fielmente, na Terra, a beleza nova da sua palavra eterna, substância de todo o amor, de toda a verdade e de toda a vida, mas constitui para nós um dever, neste esforço, lembrar a sua ilimitada sabedoria, ousando reproduzir, imperfeitamente e de leve, a essência de sua lição divina naquele momento inesquecível". (Xavier, Francisco Cândido, Emmanuel 1989,) O experimentado espírito faz o possível para reproduzir o pensamento do Cristo, mas está bem consciente de que a sua 'tradução' é precária, em face da grandeza do original. É como o artista que, ao contemplar um quadro vivo de indescritível beleza e harmonia, só disponha de um pincel, uma tela e poucas tintas, com o que não conseguirá reproduzir o que vê, ou um compositor que, percebendo em exaltado estado de sensibilidade, toda uma sinfonia ou uma sonata, só disponha para reproduzi -la de sete notas e alguns recursos convencionais e simbólicos, com os quais tem de trabalhar intensamente para fazê-los expressarem um pouco do muito que ele percebeu nos planos rarefeitos do pensamento. Também como o médium, o artista começa com manifestações esparsa de seu talento e de seu gosto por esta ou aquela atividade e, como muitos médiuns, ele deixa, às vezes, de atender ao chamamento ou vocação, abandonando sem cultivo faculdades que provavelmente tenha vindo programada para exercer na Terra. E, também como os médiuns, se deseja realizar sua tarefa e quer fazê-la bem, precisa submeter-se ao aprendizado das técnicas correspondentes à disciplina, ao treinamento, à busca de informações, ao estudo teórico e prático de tudo quanto possa oferecer algum interesse para aquilo que deseja fazer. Mais uma simetria pode ser citada: tanto no artista como no médim, a estrutura é a mesma, ou seja, a sensibilidade, mas as manifestações vem ser apenas acompanhadas, nunca forçadas, neste ou naquele sentido. Como a água que desce das nascentes montanhosas, ela é que decide lei básica da gravidade, que rumo seguir na direção do mar. Não adianta o médium forçar o desenvolvimento da psicografia se a sua condição está voltada para a doação magnética de energias através do passe magnético, u ficar anos a fio experimentando com a mediunidade dita de incorporação (psicofonia), se está programado para a psicovidência, ou fenômenos de efeitos físicos. Da mesma forma, o artista deve deixar que seus talentos encontrem os seus próprios meios de expressão material. Para que forçar o talento musical, por exemplo, se o desenho ou a pintura estão praticamente 'explodindo' nele ou nela? Estava já escrito este capítulo, quando encontrei no livro de Colin Wilson, Misteries, conceitos semelhantes, colhidos em Brunler, segundo o qual não apenas médiuns e artistas se assemelham no nível mental e na sensibilidade, como podem (e devem), segundo ele, ser treinados para desenvolver adequadamente suas faculdades. Outra observação pessoal posso oferecer, a proposlto das conexões das faculdades artísticas e mediúnicas: no que me foi possível apurar, verifiquei que alguns excelentes médiuns de meu conhecimento foram, em passadas existências, não menos excelentes artistas: músicos, poetas, escultores ou pintores. 2. DIVERSIDADE DOS CARISMAS Por isso, dizem os espíritos a Kardec que eles se utilizam da faculdade que lhes pareça mais flexível no médium. É claro, pois é assim que encontrarão menor resistência para o que desejam transmitir por intermédio dele. Dessa maneira, um espírito pode preferir se comunicar psicofonicamente por intermédio deste sensitivo, enquanto que, por meio de outro, dará preferênncia à psicografia. Quando o médium é dotado de vidência, não adianta forçá-la a produzir um texto psicografado. Isso quer dizer que, embora uma só faculdade na sua essência, a mediunidade é especialização na sua expressão. Tal como os sentidos físicos normais são controlados por um núcleo central, no computador cerebral, não se pode transmitir, por via auditiva, uma mensagem destinada à visão e vice-versa. Os entendidos têm razão, pois, quando chamam os sentidos de analisadores, dado que essa é precisamente a tarefa que lhes incumbe, ou seja, proceder à análise sensorial de um estímulo exterior para que o cérebro possa conhecê-lo e tomar as medidas que julgar adequadas. A tendência do médium iniciante, e até mesmo de muitos mais experimentados, é ambicionar o exercício de várias faculdades simultaneamente. " Fulano, - dizem, - é um médium formidável, completo, maravilhoso. Vê, fala, escreve, materializa, desdobra-se, tem todas as faculdades. É até possível que tenha mesmo, mas o exercício simultâneo de inúmeras faculdades é uma desvantagem para o médium, não um traço a ser estimulado. É melhor que ele se aplique a uma ou duas das diversas modalidades, que tentar ser eclético. Dedicando- se a uma ou duas, ele poderá alcançar um desempenho adequado, seguro, competente das faculdades que melhor se apresentam nele, ao passo que, tentando apoderar-se de todas, criará problemas complexos para si mesmo, para os espíritos e para os companheiros encarnados. Dificilmente ele poderá ser tão eficiente em todas as faculdades que experimentar quanto em apenas uma ou duas. Sabemos todos, por exemplo, que o nosso Chico Xavier poderia ter se dedicado ao exercício de outras faculdades mediúnicas ou anímicas, como nos trabalhos de efeitos físicos, em demonstrações mais ou menos espetaculares de fenômenos insólitos. Mas, porém, seria feito em prejuízo evidente de seu trabalho no campo da psicografia e da psicofonia, mesmo porque o médium tem de estar atento às suas limitações orgânicas. A mediunidade de efeitos físicos é das mais desgastantes. E o que estaria provando o nosso querido Chico? Que os espíritos se materializam ou que podem produzir efeitos sensacionais de palco para maravilhar platéias ocasionais? Conta Ranieri que uma única vez, ao que se saiba, Emmanuel usou a expressão "Não quero!" Foi quando o Chico estava sendo levado a desviar sua atenção para certos trabalhos de efeitos físicos, que certamente ele tem condições de realizar, mas que não convinham ao seu plano de trabalho. Assim como a um artista em potencial não se recomenda que procure ser tudo ao mesmo tempo - músico, pintor, escultor, poeta, desenhista, ator de teatro -, mas que desenvolva os talentos para os quais se acha mais inclinado, o médium iniciante deve ser aconselhado a desenvolver ou praticar a forma de mediunidade que espontaneamente venha se definindo nele. Se nos lembramos da observação dos espíritos de que eles se utilizam das faculdades en que o médium é mais flexível, estará indicado o caminho a seguir. Ou seja: os próprios espíritos definirão, pelo exercício, as faculdades mais apropriadas. O desenvolvimento é, portanto, uma forma de treinamento, de familiarização com as técnicas envolvidas no processamento da mediunidade. Toda atividade humana regular - artística, profissional, doméstica, pública - tem uma técnica; tem sempre a maneira correta e mais eficiente de ser exercida, e todas elas se aperfeiçoam com a prática, com o estudo e atenção àquilo que fazemos. 3. TEMPERAMENTO Há, contudo, uma diferença fundamental entre o médium e o artista, enquanto no artista é apenas desejável que ele seja uma pessoa equilibrada, serena, sensata, no médium isto é fundamental. Muitos artistas têm tido um temperamento insuportável, vaidades incontroladas, moral duvidosa ou arrogâncias lamentáveis e, nem por isso, deixam de produzir obras geniais, ao médium, por melhor que seja seu desempenho como médium, seu trabalho será logo posto em xeque e estará sujeito a complicações desagradáveis: se não for amparado por um razoável padrão de comportamento. Isto porque ele não trabalha com objetos artísticos materializados que de certa forma independem do seu temperamento e de suas condições éticas. O tem como objeto de seu trabalho seres humanos, de um lado e de outro espíritos e homens. Sua matéria- prima é a emoção viva, o pensamento atuante, a ação e reação espírito/matéria. Ele trabalha com o tecido vivo, com o coração palpitante dos seres que o cercam.
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