Livros Espíritas
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Na véspera da partida, o Assistente Jerônimo conduziu-nos ao Santuário da Bênção, situado na zona dedicada aos serviços de auxílio, onde, segundo nos esclareceu, receberíamos a palavra de mentores iluminados, habitantes de regiões mais puras e mais felizes que a nossa. O orientador não desejava partir sem uma oração no Santuário, o que fazia habitualmente, antes de entregar-se aos trabalhos de assistência, sob sua direta responsabilidade. À tardinha, pois, em virtude do programa delineado, encontrávamo-nos todos em vastíssimo salão, singularmente disposto, onde grandes aparelhos elétricos se destacavam, ao fundo, atraindo-nos a atenção. A reduzida assembleia era seleta e distinta. A administração da casa não recebia mais de vinte expedicionários de cada vez. Em razão do preceito, apenas três grupos de socorro, prestes a partirem a caminho das regiões inferiores, aproveitavam a oportunidade. O conjunto de doze, presidido por uma irmã de porte venerável, de nome Semprônia, que se consagraria ao amparo dos asilos de crianças desprotegidas; o grupo chefiado por Nicanor, um assistente muito culto e digno, que se dedicaria, por algum tempo, à colaboração nas tarefas de assistência aos loucos de antigo hospício, e nós outros, os companheiros encarregados de auxiliar alguns amigos em processo de desencarnação, perfazíamos o total de vinte entidades. Instrutor Cornélio, diretor da instituição, atendido por um assessor, palestrava conosco, demonstrando simplicidade e fidalguia, magnanimidade e entendimento. — Logo de início, em nossa administração, — explicava-nos, — procuramos estabelecer o aproveitamento máximo do tempo com o mínimo de oportunidade. Para concretizar a providência, desde muito não recebemos indiscriminadamente os grupos socorristas. Reunimos os conjuntos de serviço, de acordo com as situações a que se destinam. Em dia de recepção aos que vão prestar serviços na Crosta, não atendemos a colaboradores incumbidos de operar exclusivamente nas zonas de desencarnados, como sejam as estações purgatoriais e as que se classificam como francamente tenebrosas. Há que ordenar as palavras e selecioná-las, criando-se campo favorável aos nossos propósitos de serviço. A conversação cria o ambiente e coopera em definitivo para o êxito ou para a negação. Além disso, como esta casa é consagrada ao auxílio sublime dos nossos governantes que habitam Planos mais altos, não seria justo distrair a atenção e, sim, consolidar bases espirituais, com todas as energias ao nosso alcance, em que possam aqueles governantes lançar os recursos que buscamos. Compreendendo a extensão das tarefas por fazer e o respeito que devemos àqueles que nos ajudam, somos de parecer que precisamos sanar os velhos desequilíbrios das intromissões verbais desnecessárias e, muitas vezes, perturbadoras e dissolventes. Enquanto lhe ouvíamos as ponderações, encantados, imprimiu ligeiro intervalo às sentenças esclarecedoras e continuou: — Aliás, o profeta enunciou, há muitos séculos, que “a palavra dita a seu tempo é maçã de ouro em cesto de prata”. ()Se estamos, portanto, verdadeiramente interessados na elevação, constitui-nos inalienável dever o conhecimento exato do valor “tempo”, estimando-lhe a preciosidade e definindo cada coisa e situação em lugar próprio, para que o verbo, potência divina, seja em nossas ações o colaborador do Pai. Sorrimos, satisfeitos. — Nada mais razoável e construtivo, — opinou Semprônia, a destacada orientadora que dirigiria pela primeira vez a expedição de socorro aos órfãozinhos encarnados. O dirigente do Santuário, reconhecendo, talvez, como nos sentíamos necessitados de esclarecimento quanto ao uso da palavra, prosseguiu: — É lamentável se dê tão escassa atenção, na Crosta da Terra, ao poder do verbo, atualmente tão desmoralizado entre os homens. Nas mais respeitáveis instituições do mundo carnal, segundo informes fidedignos das autoridades que nos regem, a metade do tempo é despendida inutilmente, através de conversações ociosas e inoportunas. Isso, referindo-nos somente às “mais respeitáveis”. Não se precatam nossos irmãos em Humanidade de que o verbo está criando imagens vivas, que se desenvolvem no terreno mental a que são projetadas, produzindo consequências boas ou más, segundo a sua origem. Essas formas naturalmente vivem e proliferam e, considerando-se a inferioridade dos desejos e aspirações das criaturas humanas, semelhantes criações temporárias não se destinam senão a serviços destruidores, através de atritos formidáveis, se bem que invisíveis. Notava-se, claramente, o interesse que suas definições despertavam nos ouvintes. Em seguida a uma pausa mais longa, tornou, cuidadoso: — Toda conversação prepara acontecimentos de conformidade com a sua natureza. Dentro das leis vibratórias que nos circundam por todos os lados, é uma força indireta de estranho e vigoroso poder, induzindo sempre aos objetivos velados de quem lhe assume a direção intencional. Encarregados de assumir a chefia desta casa, trouxemos instruções de nossos Maiores para suprimir todos os comentários tendentes à criação de elementos adversos aos júbilos da Bênção Divina. É por isso que, graças ao amor providencial de Jesus, temos conseguido a manutenção de um instituto em que os nossos mentores de Mais Alto se fazem sentir. A ausência de qualquer palavra menos digna e a presença contínua de fatores verbais edificantes facilitam a elaboração de forças sutis, nas quais os orientadores divinos encontram acessórios para se adaptarem, de algum modo, às nossas necessidades na edificação comum. Fez um gesto do narrador que se recorda de minudência importante e informou: — Encetando nosso trabalho modesto, fomos defrontados por reações apreciáveis. Procurava-se, então, o Santuário, sem qualquer preparação íntima. Nossos amigos prosseguiam repetindo o cenário da Crosta, em que os devotos procuram os templos, como os negociantes buscam mercados. Devíamos administrar dons espirituais, como quem dirige um armazém de vantagens fáceis ao personalismo inferior. Desde o primeiro dia, porém, amparados na delegação de competência que nos foi concedida, golpeamos, fundo, o velho hábito. Durante alguns dias, gastamos tempo, ensinando a reverência devida ao Senhor, a necessidade da limpeza interna do pensamento e a abolição do feio costume de tentar o suborno da Divindade com falaciosas promessas. E quando sentimos conscienciosamente que as lições estavam findas, iniciamos a aplicação de medidas retificadoras. Registros vibratórios foram instalados, assinalando a natureza das palavras em movimento. Desde aí foi muito fácil identificar os infratores e barrar-lhes a entrada na Câmara de Iluminação, onde realizamos nossas preces… Observando, talvez, que alguns de nós faziam certas considerações mentais, observou, sorridente: — Cremos desnecessária qualquer alusão ao imperativo dos pensamentos limpos. Quem busca uma casa especializada em abençoar, não pode hospedar ideias de ódio ou maldição. Compreendemos prontamente a finalidade do ensino indireto e delicado e calamo-nos, prevenidos quanto à necessidade de resguardar a mente contra as velhas sugestões do mal. Desejando facilitar-nos as expansões de alegria e cordialidade, Cornélio fixou um grande relógio que apresentava simbolicamente, no mostrador, a caprichosa forma dum olho humano de grandes proporções, em que dois raios luminosos indicavam as horas e os minutos, e falou, em tom fraternal: — Teremos hoje, conforme notificação recebida há vários dias, a visita dum mensageiro de alta expressão hierárquica. Contudo, antes desse acontecimento excepcional, dispomos ainda de algum tempo. Considerando o preito de amor que devemos aos que nos orientam do Plano Superior, não convém emitir a nossa invocação de bênçãos, nem antes, nem depois do horário estabelecido. Estejam, pois, à vontade, os cooperadores… E, fixando o olhar nos três encarregados de serviço, acrescentou, após as reticências: — Enquanto me entendo particularmente com os chefes das missões, temos quase uma hora para a troca de ideias construtivas. Cornélio passou a dirigir-se, de modo confidencial, aos nossos orientadores e, fracionados em grupinhos diversos, entabulamos conversações amigas. Atendendo-me os desejos, padre Hipólito, qual o chamávamos na intimidade, apresentou-me o Assistente Barcelos, da turma de servidores que se destinava à assistência aos loucos. Fora ele dedicado professor no círculo carnal e interessava-se carinhosamente pela Psiquiatria sob novo prisma. Acolheu-me com fidalgo tratamento e, após as primeiras saudações, perguntou, bondoso: — É a primeira vez que integra uma expedição socorrista? — De fato, — esclareci, — é a primeira. Tenho acompanhado diversas missões de auxílio na Crosta, entretanto, na condição do estudante, com reduzidas possibilidades de cooperação. Agora, porém, o Assistente Jerônimo aceitou-me o concurso e sigo alegremente. Endereçou-me cativante olhar, no qual transpareciam satisfação e surpresa, e observou: — O trabalho beneficia sempre. Interessado em seus informes e esclarecimentos, tornei, humilde: — Seguindo expedições de socorro, como aprendiz, tive ensejo de visitar, por mais de uma vez, dois antigos e grandes sanatórios de alienados do nosso País e vi, de perto, a extensão dos serviços reservados aos servos de boa vontade, nessas casas de purificação e dor. As atividades de enfermagem, aí, são, a meu ver, das mais meritórias.
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