Livros Espíritas
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Consoante as recomendações que havíamos recebido, aguardamos dona Antonina, no estreito recinto em que se processara o culto familiar. Agora, conseguíamos reparar o ancião desencarnado com mais atenção. Conservando integrais remanescentes da vida física, abatido e trêmulo, parecia inquieto, dementado… Tentamos debalde uma aproximação. Não nos via. Lembrei ao meu companheiro que poderíamos densificar o nosso veículo, pela concentração da vontade, e apressamo-nos na providência. Em momentos breves, fornecendo a impressão de recém-chegados, atraímos-lhe o interesse. O velhinho precipitou-se para nós, exclamando: — São oficiais ou praças? Estão pró ou contra? Aquele olhar esgazeado era efetivamente o de um louco. Hilário e eu trocamos impressões de curiosidade e espanto. E antes que nos pronunciássemos, começou a chorar, convulsivamente, acentuando: — Quem trouxe aqui a ideia de perdoar? Em que ponto me situaria na questão? Devo perdoar ou ser perdoado? Não entendo a necessidade de discussão em torno de um assunto como esse entre fraca mulher e três crianças… Comentários dessa natureza devem ser reservados para pessoas aflitas como eu, que trazem um vulcão no centro do crânio… Assim dizendo, alteraram-se-lhe as feições fisionômicas. Afigurou-se-nos mais distante da realidade, mais inconsciente. Gritando quase, continuou: — Tudo teria sido modificado se me houvessem facultado o encontro com o novo Generalíssimo… Sua Alteza compreender-me-ia a situação. Era propósito do Marechal requisitar-me para seu serviço exclusivo, entretanto, por influência do meu miserável perseguidor, sofri transferência injusta… Nosso inesperado amigo vasculhou com os olhos os recantos da sala, qual se temesse a presença de alguma testemunha invisível, e prosseguiu: — Ouçam, porém, o que lhes digo! Ele não somente pretendia afastar-me dos favores do Marechal doente, mas planejava furtar-me a mulher… Lola Ibarruri! Como não haveria de querê-la com a paixão que me inspirou? Porque teria eu de seguir para Fecho dos Morros? O intento de me prejudicarem era evidente. Sem dúvida, fui constrangido a sair, mas não fui além de Tacuaral. O General Polidoro não me abandonaria… Devia regressar a Luque e regressei… O infame Esteves, contudo, agira sem descansar… Além de assaltar-me os direitos de enfermeiro no Quartel General, desviara a atenção de Lola… A formosa Ibarruri não mais me pertencia. Entregara-se ao amigo desleal… Nossa pequena chácara de laranjeiras e nosso jardim estavam esquecidos… Quem disse que não me sacrifiquei na aquisição da encantadora casinha, por mim confiada à pérfida mulher? Durante um mês longo e terrível, suspirei pelo retorno aos carinhos dela… Quando tornei ao lar, naquela estrelada noite de maio, encontrei-a nos braços do traidor… Lola tentou desculpar-se, mas surpreendi-os juntos… Quis vingar-me, de imediato, espetando-o com meu punhal, todavia, as tropas deixariam a cidade, daí a três dias, e o meu inimigo, que se esgueirara na sombra, ante a minha aproximação deu-se pressa em viajar, a serviço, no rumo de Itauguá… O ódio passou a dominar-me, enceguecendo-me… Encontrá-lo-ia em alguma parte, abraçá-lo-ia com a mesma cordialidade fingida com que me abraçara pela primeira vez e arrancar-lhe-ia a vida… Assim fiz… Aparentei ignorar a realidade e busquei-o, sorrindo… e, sorrindo, envenenei-o… Creiam, contudo, que somente me abalancei a semelhante ato, porque ele era impudente, libertino, cruel… Assassinar-me-ia, se eu não tivesse o arrojo de liquidá-lo… Fez breve pausa e, em seguida, ajoelhando diante de nós, passou a clamar, de novo, em alta voz: — Oh!… Para mim, estou certo de que pratiquei a justiça, mas este homem realmente não me abandona! Lutei tanto!… Casei-me e organizei grande família!… Devotei-me à religião, desfrutei os benefícios dos santos sacramentos e admiti que tudo estivesse amplamente solucionado, entretanto, depois de retirar-me do corpo físico sob a imposição da velhice e da enfermidade, longe de encontrar o Céu que parece cada vez mais distante de mim, reconheço que este homem continua a perseguir-me por dentro!… Faz muitos anos que me despedi dos ossos fatigados e perambulo, aflito e infeliz, carregando o inferno, dentro de mim!… A princípio, procurei o sepulcro, na esperança de soerguer meus restos e, escondendo-me neles, esquecer… esquecer… Compreendendo, porém, que meu desejo era de todo frustrado, fugi para sempre do lugar que me asila os despojos e devoro ruas e praças, buscando autoridades que me socorram… Depois de passar as mãos pelo rosto, enxugando as lágrimas, continuou: — Ó senhores, por quem são!… Ainda mesmo que o meu erro fosse tão clamoroso assim, tanto tempo de convívio com este monstro a fitar-me, imperturbável, não bastaria à expiação que me compete ao resgate? Se eu confessasse o crime e me demorasse por menos tempo no cárcere, não estaria redimido, diante dos tribunais? Sentindo que algo nos caberia dizer à guisa de consolo, afaguei-lhe a cabeça branca e falei, tentando ser gentil: — Acalme-se, meu irmão! Quem de nós não terá desacertado no caminho da vida? Sua dor não é única… Também nós trazemos o espírito pejado de aflitivas recordações. As lágrimas de desesperação desajudam a alma… Pelas citações que ouvíramos, percebi que o nosso interlocutor se reportava ao tempo da Guerra do Paraguai e, buscando penetrar o labirinto de suas palavras que estabeleciam ligação do passado com o presente, indaguei: — A que novo Generalíssimo se refere? — Ah! Ignoram? E dando-nos a ideia de quem vivia profundamente arraigado a particularidades do pretérito, aduziu: — Recordo-me com precisão… Sim, a proclamação dele era de 16 de abril… O Príncipe D. Gastão de Orleães era o novo comandante em chefe, mas muito me pesava o afastamento do Marechal… — Qual deles? — perguntei, reavivando-lhe a memória. — O Marechal Guilherme Xavier de Souza. Era meu amigo, meu protetor… Doente, cansado, precisava de mim… contudo, afastaram-me dele… Esteves, o cão infiel… Nesse instante, porém, a voz extinguiu-se-lhe na garganta. Esbugalharam-se-lhe os olhos e, como se estivesse atenazado no íntimo por forças terríveis, insondáveis à nossa observação, começou a queixar-se, desesperado: — Ah! Não posso continuar!… Ele, novamente ele, a crescer dentro de mim! Observa-me com asco e ainda lhe ouço as últimas palavras no estertor da morte… Não! Não! — Bradava ele, agora, com evidentes sinais de angústia, — hei-de libertar-me! Hei-de libertar-me! Tenho fé!… Comovidamente, acerquei-me do pobrezinho e considerei: — Sim, meu amigo, a fé representa o milagroso salva-vidas de todos os náufragos. Você tem orado? Tem pedido a Jesus amparo e assistência? — Sim, sim… — E ainda não lhe chegou qualquer sinal de socorro celeste? O infortunado centralizou em mim o olhar inquieto e informou: — Há alguns dias, fui à Igreja do Rosário, recordando como sempre a visita que fiz até lá, na véspera de minha partida para a guerra, e tanto rezei que tive a felicidade de ver o Marechal, que me apareceu, de súbito… Estava mais moço e incompreensivelmente refeito… Roguei-lhe proteção, ao que me respondeu, informando que o meu caso seria tomado em apreço, que eu descansasse, pois ainda que os nossos erros sejam grandes, maior é a compaixão de Deus que nunca nos desampara… E, exibindo um gesto de profundo abatimento, acrescentou: — Mas, até agora, não tive o menor sinal de renovação do caminho… Acariciei-lhe a nevada cabeça e considerei, comovidamente: — Esteja convencido, porém, de que a bondade de Jesus não nos faltará. — Prometa ajudar-me! Compadeça-se de mim! — Gritou o infeliz. De coração, intimamente tocado por semelhante apelo, hipotequei-lhe a decisão de colaborar em sua paz e soerguimento. Quando o infortunado ancião procurava abraçar-me, Clarêncio chegou, guiando a outra pupila que nos acompanharia na excursão. Simpática e humilde, após cumprimentar-nos, manteve-se a distância. O mentor, num átimo, compreendeu o que se passava. Vimo-lo concentrar-se por momentos, densificando-se para auxiliar com mais presteza. Saudado pelo velhinho, afagou-lhe a fronte e avisou-nos: — Permanece dementado. A mente dele fixou-se em recordações que o obcecam. Mais experiente que nós outros, guardou-o nos braços com paternal carinho, conquistando-lhe a confiança e inquiriu: — Que procura, meu irmão? — Venho suplicar o socorro de Antonina, minha neta. É a única pessoa que se lembra de mim com amor… Dentre os numerosos membros de minha família, só ela me oferece asilo na oração… E, porque reiniciasse as referências lamuriosas, o Ministro colocou a destra sobre a cabeça de nosso interlocutor, como a sondar-lhe o íntimo em minuciosa perquirição e, em seguida, informou: — Temos aqui nosso irmão Leonardo Pires, desencarnado há cerca de vinte anos… Quando jovem, foi empregado do Marechal Guilherme Xavier de Souza e hoje conserva a mente detida num crime de envenenamento em que se envolveu, quando integrava as forças brasileiras acampadas em Piraju, no Paraguai. Podemos conhecer o delito, em suas particularidades, na tela das recordações que o atormentam… É um domingo de festa em campanha… 11 de julho de 1869… A missa é celebrada em pleno campo por um frade capuchinho… O Conde d’Eu, com a luzida oficialidade do seu Quartel General, está presente… Nosso amigo, muito moço ainda, aparece no corpo da infantaria.
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[No recém findo, entre Antonina e filhos, o perdão das ofensas havia sido o tema estudado.]
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