Livros Espíritas
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ESTUDO PSICOLÓGICO Sob o título de Segunda vista, vários jornais reproduziram o seguinte fato, entre outros o Patrie de 26 e o Evénement de 28 de novembro. “Espera-se em Paris a chegada próxima de uma jovem, originária da Suábia, cujo estado mental apresenta fenômenos que deixam muito longe as trapaças dos irmãos Davenport e outros espíritas. “Com dezesseis anos e meio, Louise B... mora com seus pais, proprietários-cultivadores no lugar chamado Bondru (Seine-et-Marne), onde se estabeleceram depois de haver deixado a Alemanha. “Em conseqüência de violento pesar, causado pela morte de sua irmã, Louise caiu num sono letárgico, que durou cinqüenta e seis horas. Após esse lapso de tempo despertou, não para a vida real e normal, mas para uma existência estranha, que se resume nos fenômenos seguintes: “Louise perdeu subitamente a sua vivacidade e a sua alegria, embora sem sofrer, mas caindo numa espécie de beatitude, que se alia à mais profunda calma. Durante o dia inteiro fica imóvel numa cadeira, respondendo apenas por monossílabos às perguntas que lhe são feitas. Chegada a noite, cai num estado cataléptico, caracterizado pela rigidez dos membros e a fixidez do olhar. “Neste momento as faculdades e os sentidos da jovem adquirem uma sensibilidade e um alcance que ultrapassam os limites fixados ao poder humano. Não somente ela possui o dom da segunda vista, mas também o da segunda audição, isto é, ouve palavras proferidas perto de si, como as que são pronunciadas num local mais ou menos afastado, para o qual concentra sua atenção. “Nas mãos da cataléptica, cada objeto adquire para ela uma imagem dupla. Como todo mundo, tem o sentimento da forma e da aparência exterior do objeto; além disso, vê distintamente a representação de seu interior, isto é, o conjunto das propriedades que possui e os usos a que se destina na ordem da criação. “Num grande número de plantas, de amostras metálicas e mineralógicas, submetidas à sua inconsciente apreciação, assinalou virtudes latentes e inexploradas, que reportam o pensamento às descobertas dos alquimistas da Idade Média. “Louise experimenta efeito análogo em relação ao aspecto das pessoas com as quais entra em comunicação pelo contato das mãos. Ela as vê ao mesmo tempo tais quais são e tais quais foram em idade menos avançada. Os sinais de envelhecimento e de doença desaparecem aos seus olhos e, se alguém perdeu algum membro, para ela é como se ainda subsistisse. “A jovem camponesa pretende que, protegida contra todas as modificações da ação vital exterior, a forma corporal continua integralmente reproduzida pelo fluido nervoso. “Transportada a lugares onde se acham túmulos, Louise vê e descreve da maneira que acabamos de referir, as pessoas cujos despojos foram confiados à terra. Então sofre espasmos e crises nervosas, do mesmo modo que quando se aproxima dos locais onde existem água e metais, seja qual for a profundidade do solo em que se encontrem. “Quando a jovem Louise passa da vida ordinária a esse modo de vida, que se pode chamar superior, parece que um espesso véu cai de seus olhos. “Para ela a Criação, explicada de maneira nova, representa objeto de inexaurível admiração e, embora iletrada encontra, para exprimir seu entusiasmo, comparações e imagens verdadeiramente poéticas. “Nenhuma preocupação religiosa se mistura a essas impressões. Os pais, longe de achar nesses fenômenos insólitos motivo de especulação, ocultam-nos com o maior cuidado. Se se decidem a trazer, sem ruído, a mocinha a Paris, é porque essa superexcitação constante do sistema nervoso exerce sobre seus órgãos uma influência destrutiva e ela definha a olhos vistos. Os médicos que dela cuidam opinaram que a levassem à capital, tanto para reclamar o auxílio dos mestres na arte de curar, quanto para submeter à Ciência fatos que escapam da esfera ordinária de suas investigações, e cuja explicação ainda não foi encontrada.” Diz o autor do artigo que os fenômenos apresentados por essa jovem deixam muito longe as trapaças dos irmãos Davenport e outros espíritas. Se esses fenômenos são reais, que relações podem ter com malabarismos? Por que essa comparação entre coisas desiguais, e dizer que uma ultrapassa a outra? Com intenção de lançar uma pequena maldade contra o Espiritismo, o autor anuncia, sem o querer, uma grande verdade, em apoio do que quer denegrir; proclama um fato essencialmente espírita, que o Espiritismo reconhece e aceita como tal, ao passo que jamais tomou os Srs. Davenport sob seu patrocínio e, ainda menos, os apresentou como adeptos e apóstolos. É o que esses senhores jornalistas saberiam, se tivessem levado em conta os inúmeros protestos que lhes chegaram de toda parte contra a assimilação que pretenderam estabelecer entre uma doutrina essencialmente moral e filosófica e exibições teatrais. A explicação desse fenômeno, dizem, ainda não foi dada pela ciência oficial; isto é certo. Mas, para a ciência espírita, há muito tempo isto não é mais mistério. Contudo, não faltam meios de esclarecer. Os casos de catalepsia, de dupla vista e de sonambulismo natural, com as estranhas faculdades que se desenvolvem nesses diversos estados, não são raros. Por que a Ciência ainda está à procura de sua explicação? É que a Ciência se obstina em buscá-la onde não está, onde jamais a encontrará: nas propriedades da matéria. Eis um homem que vive: pensa, raciocina; um segundo depois morre; não dá mais nenhum sinal de inteligência. Então havia nele, enquanto pensava, algo que já não existe, pois não pensa mais. O que pensava nele? Dizeis que é a matéria. Mas a matéria continua sempre lá, intacta, sem uma parcela a menos. Por que, então, pensava há poucos instantes e agora não pensa mais? – É porque está desorganizada; sem dúvida as moléculas se desagregaram; talvez se tenha rompido uma fibra; um nada se desarranjou e o movimento intelectual parou. – Eis assim o gênio, as maiores concepções humanas à mercê de uma fibra, de um átomo imperceptível, e perdidos os esforços de toda uma vida de labor! De todo esse mobiliário intelectual, adquirido a duras penas, nada resta; a mais vasta inteligência não passa de pêndulo bem montado que, uma vez deslocado, só serve como ferro velho! É pouco lógico e pouco encorajador; com tal perspectiva, sem dúvida seria melhor cuidar apenas de comer e beber. Mas, enfim, é um sistema. Segundo vós, a alma é apenas uma hipótese. Mas essa hipótese não se torna realidade em casos análogos ao da jovem em questão? Aqui a alma se mostra a descoberto; não a percebeis, mas a vedes pensar e agir isoladamente do envoltório material; transporta-se para longe; vê e ouve, apesar do estado de insensibilidade dos órgãos. Pode-se explicar só pelos órgãos fenômenos que se passam fora de sua esfera de ação? E nisto não está a prova da independência da alma? Como, pois, não reconhecê-la por sinais tão evidentes? É que, para isto, seria preciso admitir a intervenção da alma nos fenômenos patológicos e fisiológicos, que, assim, deixariam de ser exclusivamente materiais. Ora, como reconhecer um elemento espiritual nos fenômenos da vida, quando, constantemente, se tem dito o contrário? É o que não podem decidir, pois seria preciso admitir que se haviam enganado; e é duro, para certos amores-próprios, receberem um desmentido da própria alma que negaram. Assim, desde que ela se mostra em qualquer parte com muita evidência, logo se apressam em cobri-la com um alqueire e não se ouve mais falar no assunto. Assim sucedeu com o hipnotismo e tantas outras coisas. Queira Deus que assim não aconteça com Louise B... Para liquidar a questão, dizem que esses fenômenos são ilusões, e que seus promotores são loucos ou charlatães. Tais são as razões que fizeram negligenciar o estudo tão interessante e tão fecundo em resultados morais dos fenômenos psico-fisiológicos; tal é, também, a causa da repulsa do materialismo pelo Espiritismo, que repousa inteiramente nas manifestações ostensivas da alma, durante a vida e depois da morte. Mas, dirão, o partido religioso, fustigado pelo materialismo, deve acolher com ardor os fenômenos que vêm derrubar a incredulidade pela evidência. Por que, então, em vez de os transformar em arma, os repele? É que a alma é uma indiscreta, que vem apresentar-se em condições muito diversas do estado em que no-la mostram, e sobre o qual construíram todo um sistema; teriam de voltar a crenças que dizem imutáveis; depois ela vê bem claro; assim, era preciso interditar-lhe a palavra. Mas não contaram com a sua sutileza: ela não pode ser encerrada como um pássaro numa gaiola; se lhe fecham uma porta, ela abre mil outras. Hoje ela se faz ouvir em toda parte, para dizer de um a outro extremo do mundo: eis o que somos. Muito hábeis serão os que a impedirem. Voltemos ao nosso assunto. A jovem em questão oferece o fenômeno, muito comum em casos semelhantes, da extensão das faculdades. Essa extensão, diz o artigo, atinge um alcance que ultrapassa os limites fixados ao poder humano. Deve-se distinguir aqui duas ordens de faculdades: as faculdades perceptivas, isto é, a visão e a audição, e as faculdades intelectuais. As primeiras são postas em atividade pelos agentes exteriores, cuja ação repercute no interior; as segundas constituem o pensamento que irradia do interior para o exterior. Inicialmente falemos das primeiras.
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