Livros Espíritas
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Em outras palavras, cabe ao médium viver o dia-a-dia em estado de permanente vigilância, fugindo de situações equívocas provocadas pelo que Boddington chama de "distúrbio emocional". Tem de ser tão disciplinado nesse ponto e tão positivo, ou mais, do que as pessoas que natureza procuram resolver tudo com equilíbrio e de cabeça fria. Uma vez que essa atitude de serena observação e avaliação no trato com o mundo que o cerca seja desenvolvida e consolidada no médium em estado normal de vigília, fixa-se nele uma segunda natureza de equilíbrio que não vai permitir espaços para que o espírito manifestante possa fazer dele quanto lhe venha à cabeça. Qualquer pessoa que tenha vivido alguns anos de experiências com trabalhos mediúnicos reconhece prontamente a importância de tais observações. Os espíritos em estado de perturbação encontram com facilidade em médiuns dominados por emoções indisciplinadas condições para para manifestarem sua própria agressividade. Ali estão, como que à sua disposição, os elementos que desejam para as explosões emocionais, a gritaria, os gestos violentos, situação que não encontram no psiquismo do médium que já cultivou e consolidou atitudes de paciência, serenidade e equilíbrio emocional. Há, contudo, uma não menos importante observação adicional a fazer neste ponto. O médium não deve ser uma espécie de múmia animada, através da qual se manifeste o espírito. Não podemos esperar e nem exigir que um espírito indignado com alguém que a seu ver o prejudicou gravemente no passado - e ele sempre se considera vítima inocente - ou irritado com os componentes do grupo que se "metem indevidamente" na sua vida, venha com palavras doces, gestos suaves, atitudes cordatas, falar da sua indignação ou irritação. É preciso deixá-lo falar e, dentro dos limites das conveniências que o bom médium poderá traçar, como já vimos, manifestar, com autenticidade e espontaneidade, seu pensamento em palavras e em gestos. Muitos são os dirigentes de grupos que exigem de seus médiuns uma postura uniforme, contida, inexpressiva, rígida, sem uma alteração de voz, sem um gesto de enfado ou de irritação, sob a alegação de que o médium deve saber controlar a manifestação. Deve, sim, mas não inibi-la a ponto de descaracterizá-la. Nota-se, por outro lado, que a exigência de controlar excessiva e abusivamente a manifestação choca-se, frente a frente, com o temor que assalta os dirigentes, quando suspeitam que seus médiuns estão sendo vitimados pelo temível 'fantasma' do animismo. Será que não percebem que, com a exigência irredutível de obrigar o médium ao controle exagerado da manifestação mediúnica estão precisamente estimulando o predomínio do mediunismo sobre a mediunidade, ou seja, a imposição da personalidade do médium sobre a do espírito manifestante? Pois é o que acontece em tais casos. O espírito emite um pensamento de inconformação e impaciência ou irritação, mas a idéia que o médium traduz é de quase conformismo, em palavras educadas e bem-medidas que nada têm a ver com as emoções que as estão suscitando na mente do manifestante. Relembrando nossa figura da combinação de cores,é como se o pensamento azul do espírito, em vez de chegar mais ou menos esverdeado aos seres encarnados a que se destina (no caso o doutrinador), chegasse praticamente amarelo porque o médium rejeita a contribuição do azul até mesmo para compor um tom leve de verde. Prefere deixar passar apenas o seu próprio amarelo. Ou seja. reproduz um quadro completamente diferente daquele que o espírito está tentando pintar. Ante uma distorção tão séria no pensamento do manifestante, como vamos ter condições de ficar inteirados de sua história, de suas angústias, de suas aflições e problemas, se o que estamos ouvindo não é o seu relato fiel e sim, uma pasteurização insípida das suas emoções? É como se o médium ouvisse o espírito dizer que odeia alguém e resolvesse, por sua própria conta, dizer que fulano está dizendo que não tem grande afeição por sicrano. Pois não é precisamente esse ódio a causa central de toda a sua problemática? Não é a esse núcleo que temos de dirigir a atenção, se é que desejamos ajudá-lo a curar-se das suas aflições? Kardec ensina que a doutrinação consiste em levar o espírito a modificar seu modo de pensar e de agir. Se, porém, suas idéias já nos chegam modificadas, depois de passar pela severíssima censura do médium, não saberemos jamais o que modificar. Na realidade, ele está mesmo com ódio desta ou daquela pessoa e se considera inocente da aflição que a pessoa lhe impôs. Quer vingar-se e se julga com todo direito à vingança. Vamos deixar que ele diga o que pensa e o que sente para que possamos avaliar a sua situação e oferecer a nossa singela e amorosa colaboração. Nada disso será possível, ou será muito difícil, se não lhe proporcionamos a oportunidade de dizer, tanto quanto possível com suas próprias expressões, do tumulto que vai no seu atormentado espírito. Daí a importância transcendental da educação mediúnica adequada. Há, por certo, um componente anímico em toda comunicação e disso temos falado repetidamente, mas é preciso que a interferência anímica seja apenas disciplinadora, nunca inibidora ou sufocante a ponto de descaracterizar o pensamento do espírito manifestante. A mensagem resultante precisa ser verde, tão azulada quanto possível, apenas com os toques necessários de amarelo para que o médium marque sua posição e presença como a dizer: diga você o que quiser, mas não se exceda, porque o instrumento de que você se utiliza é meu; eu não abuso dele e nem vou permitir que você o faça. 10. RECEITA DE LEITURA Muita gente pensa que, por ser médium, a pessoa é necessariamente espírita ou tem pleno conhecimento dos mecanismos da mediunidade. O mais grave é que até médiuns pensam assim e decidem, por sua conta e risco, não é preciso estudar coisa alguma sobre o assunto porque são médiuns naturais, espontâneos e dotados de amplos e variados recursos. Quanto mais ostensivas, contudo, e mais atuantes suas faculdades, maiores os riscos correm de se equivocarem no desenvolvimento e na utilização das diversas formas de mediunidade de que se acham dotados, se não se preparam corretamente para isso, lamentavelmente, são muitos os que consideram a mediunidade um privilégio, a marca de uma preferência divina, um talento especial que os coloca acima e à parte dos demais seres que são cegos e surdos aos espíritos desencarnados. É certo que a mediunidade é um dom, não porém, para exibição ou projeção do sensitivo. É natural que o médium principiante ignore de início toda complexa estrutura teórica que vem sendo formulada para a mediunidade a partir de O Livro dos Médiuns. Isto, não obstante, é mais uma razão para considerar os fenômenos com atenção e respeito e buscar logo informações confiáveis sobre o assunto a fim de entender o que se passa. Só assim poderá evitar envolvimentos indesejáveis ou vícios de formação de difícil correção posterior. O primeiro passo nessa caminhada rumo a um desenvolvimento raacional e balanceado das faculdades de que se percebe dotado é dedicar-se ao estudo sistemático da doutrina dos espíritos, a começar pelo O Livro dos Espíritos, seguido de O Livro dos Médiuns e dos demais da Codificação, bem como das obras dos continuadores de Kardec. O conselho é válido também para os que não disponham de nenhuma faculdade mediúnica ou sensibilidade especial, como eu. Já contei alhures como foi o início da minha busca. Logo que minha atenção foi solicitada para o problema, por intermédio de uma precaríssima e fragmentária experiência caseira com o copinho, à qual assistira de 'cabeça fria', mas atento, procurei quem eu sabia estar bem-informado acerca dos aspectos teóricos do espiritismo e o consultei, como a um médico, solicitando-lhe uma 'receita de leitura'. O meu querido amigo, homem culto, dinâmico, positivo, engenheiro militar de elevada patente, tomou de um bloco de papel e 'prescreveu', com a sua letra firme, elegante e clara: O livro dos espíritos, O livro dos médiuns e acrescentou dois nomes que, àquela altura, me eram totalmente desconhecidos: Gabriel Delanne e Léon Denis. Passou-me o papel e acrescentou: - Daí em diante, você irá sozinho. Estava eu posto no caminho e até hoje não vejo por que deixá-lo para enveredar por um dos muitos atalhos que surgem, às vezes tão convidativos, à beira da estrada principal. Não apresentei jamais sintomas óbvios de mediunidade aflorante. Exceto um ou outro fenômeno inexpressivo e vago. Nunca vi um espírito ou os ouvi falar a não ser através dos médiuns com os quais tenho trabalhado. Costumo dizer que, se dependesse do meu testemunho visual ou auditivo, jamais acreditaria na existência de espíritos desencarnados, até que eu próprio voltasse a ser um deles. Se alguma forma de mediunidade ostensiva viesse, no devido tempo, a manifestar-se em mim, acho que encontraria consolidadas as estruturas doutrinárias correspondentes. Entendi logo que a minha tarefa não estava programada para essa área e aprendi também que tais programações a gente traz nas profundezas dos arquivos secretos da memória e, com um pouco de boa vontade, é possível tomar conhecimento delas através dos mecanismos da intuição que se desenvolvem com a prática habitual da meditação diária, na solidão e no silêncio. Por isso, não ambicionei faculdades mediúnicas. Acho que numa seara tão grande e tão atarefada como a do Cristo, na qual são poucos os trabalhadores dispostos a servir, não cabe a nós escolher a tarefa, rejeitar a que nos foi designada ou buscar a que poderá acarretar-nos projeção, mas também assumir os seus ônus e desenganos. Além do mais, como assinala Paulo, com sabedoria e competência, em sua Epístola aos Coríntios, cada um tem uma função específica na seara. "Se todo o corpo fosse apenas olho" - escreve ele - "onde ficaria o ouvido? E se fosse apenas ouvido, onde o olfato?". Quanto a mim, contentei-me em ser ouvido para depois escrever sobre o que me foi ensinado. 11. VISITANTES INESPERADOS
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