Livros Espíritas
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Em data de 18 de agosto último, o Sr. bispo de Argel publicou uma brochura dirigida aos senhores curas de sua diocese, sob o título de Carta circular e pastoral sobre a superstição dita Espiritismo. Citamos as passagens seguintes, acompanhadas de algumas observações. “...Tínhamos pensado em adicionar modesta página a esses luminosos anais, exprobrando, das alturas do bom-senso e da fé, como o merece ser, o Espiritismo, que, tirado da mais velha e mais grosseira idolatria, vem abater-se sobre a Argélia. Pobre colônia! Após tão cruéis provas, ainda lhe era necessária uma deste gênero!” Pobre colônia! com efeito, não seria ela muito mais próspera se, em vez de tolerarem e protegerem a religião dos nativos, houvessem transformado suas mesquitas e sinagogas em igrejas e não tivessem detido o zelo do proselitismo? É verdade que a guerra santa, guerra de extermínio como a das cruzadas, duraria ainda; que centenas de milhares de soldados teriam perecido; que, talvez, tivéssemos sido forçados a abandoná-la. Mas que é isto quando se trata do triunfo da fé! Ora, eis aqui um outro flagelo – o Espiritismo – que, em nome do Evangelho vem proclamar a fraternidade entre os diferentes cultos e cimentar a união, inscrevendo em sua bandeira: Fora da caridade não há salvação. “Mas considerações diversas, senhor cura, nos detiveram até hoje. A princípio hesitávamos em revelar esta vergonha nova, que se vem somar a tantas misérias, exploradas com amarga ironia pelos inimigos de nossa cara e nobre Argélia. Por outro lado, sabemos que o Espiritismo quase não penetrou entre nós senão em certas cidades, onde os desocupados se contam em maior número; onde a curiosidade, incessantemente excitada, se repasta avidamente de tudo quanto se apresenta com caráter de novidade; onde a necessidade de brilhar e de se distinguir da multidão nem sempre é estranha, mesmo a inteligências de maior ou menor alcance, ao passo que o maior número de nossas pequenas cidades e do nosso campo o ignoram e, por certo, nada têm a perder com isto, até o nome bizarro e pretensioso de Espiritismo. Enfim, pensamos que tais práticas jamais são destinadas a uma vida longa, porque a desilusão logo vem para os escândalos da imaginação, que morrem quase sempre de sua própria vergonha. Assim aconteceu com as trapalhices de Cagliostro e de Mesmer; assim se acalmou o furor das mesas girantes, sem deixar na retaguarda senão o ridículo de seus arrastamentos e de suas lembranças.” Se o próprio nome do Espiritismo é desconhecido na maioria das pequenas cidades e nos campos da Argélia, a carta-circular do Sr. bispo de Argel, espalhada em profusão, é um excelente meio de torná-lo conhecido, excitando a curiosidade que, por certo, não será detida pelo temor do diabo. Tal foi o efeito, bem comprovado, de todos os sermões pregados contra o Espiritismo que, de notória publicidade, contribuíram poderosamente para multiplicar os adeptos. A circular do Sr. bispo de Argel terá efeito contrário? é mais que duvidoso. Lembramo-nos sempre desta palavra profética, tão bem realizada, de um Espírito a quem perguntávamos, há dois anos, por que meio o Espiritismo penetraria nos campos; ele nos respondeu: “Pelos padres. – Voluntária ou involuntariamente? – A princípio involuntariamente; mais tarde, voluntariamente.” Lembramos ainda, quando da nossa primeira viagem a Lyon, em 1860, que os espíritas ali eram apenas algumas centenas. Naquele mesmo ano um sermão virulento foi pregado contra eles e nos escreveram: “Mais dois ou três sermões como este e logo seremos decuplicados.” Ora, como todos sabem, os sermões não têm faltado naquela cidade; e o que todos sabem, também, é que no ano seguinte havia cinco ou seis mil espíritas, contando-se mais de trinta mil deles dois anos mais tarde. Pobre cidade de Lyon! O que se sabe ainda é que a maioria dos adeptos se encontra entre os operários, que hauriram nesta doutrina a força para suportar pacientemente as rudes provas que atravessavam, sem buscar na violência e na espoliação o necessário que lhes faltava; é que hoje oram e crêem na justiça de Deus, já que não crêem na dos homens; é que compreendem a palavra de Jesus: “Meu reino não é deste mundo.” Dizei por que, com a vossa doutrina das penas eternas, que preconizais como um freio indispensável, jamais contivestes qualquer excesso, ao passo que a máxima “Fora da caridade não há salvação” é onipotente! Queira Deus que jamais tenhais necessidade de vos colocardes sob sua égide! Mas se Deus ainda vos reservar dias nefastos, lembrai-vos de que aqueles mesmos a quem recusastes o pão da esmola, porque eram espíritas, serão os primeiros a partir convosco o seu pedaço de pão, porque compreendem esta palavra: “Perdoai aos vossos inimigos e fazei o bem aos que vos perseguem.” Mas, então, que tem o Espiritismo de tão temível, uma vez que só se ocupa dos desocupados de algumas cidades? Desde que tais práticas jamais estão destinadas a uma vida muito longa? já que deve ter a sorte das trapalhices de Cagliostro, de Mesmer e das mesas girantes? Pelo que respeita a Cagliostro, é preciso deixá-lo fora da questão, considerando-se que o Espiritismo sempre lhe recusou qualquer solidariedade, mau grado a persistência de alguns adversários para vincular o seu ao nome do Espiritismo, como fazem com todos os charlatães e prestidigitadores. Quanto a Mesmer, é preciso estar muito pouco informado do que se passa para ignorar que o magnetismo está mais espalhado do que nunca, e que é hoje professado por notabilidades científicas. É verdade que agora pouco se ocupam das mesas girantes, mas é preciso convir que fizeram um belo caminho, pois foram o ponto de partida desta terrível doutrina, que causa tanta insônia a esses senhores. Elas foram o á-bê-cê do Espiritismo; se, pois, delas não mais se ocupam, é que não se precisa soletrar quando se sabe ler. Elas cresceram de tal maneira que não mais as reconhecereis. Depois de ter falado de sua viagem à França, que alcançou pleno sucesso, acrescenta o Sr. bispo de Argel: “Nossa primeira e incessante ocupação ao voltar era publicar uma instrução pastoral contra a superstição em geral e, em particular, contra a do Espiritismo, pois o Evangelho segundo Renan só nos entreteve durante oito dias.” Convenhamos que se trata de singular confissão. A obra do Sr. Renan, que mina o edifício por sua base, e que teve tão grande repercussão, não preocupou Sua Eminência senão durante oito dias, ao passo que o Espiritismo absorve toda a sua atenção. Diz ele: “Chego a toda pressa e, embora acabrunhado das fadigas de uma longa viagem sem repouso, estou sempre pronto para o combate. Temos um novo e rude adversário no Sr. Renan, mas este pouco nos inquieta; marchemos direto contra o Espiritismo, pois é assunto mais urgente.” É uma grande honra para o Espiritismo, pois é reconhecer que é muito mais temível e não o pode ser senão com a condição de ser lógico. Se não tivesse nenhuma base séria, como o pretende o Sr. bispo, para que serviria esse aparato de forças? Já se viu dar tiros de canhão numa mosca que voa? Quanto mais violentos os meios de ataque, tanto mais exaltada é a sua importância. Eis por que não nos lastimamos. “Soubemos, e não duvidamos, que verdadeiros cristãos, católicos sinceros imaginam poder associar Jesus-Cristo e Belial, os mandamentos da Igreja com os processos do Espiritismo.” É um pouco tarde para vos aperceberdes, pois há três anos que o Espiritismo foi implantado e prospera na Argélia, onde não vai mal. Aliás, a brochura do Sr. Leblanc de Prébois, publicada em nome e para a defesa da Igreja, deve ter-vos informado que, segundo seus cálculos, hoje há na França vinte milhões de espíritas, isto é, a metade da população, e que em pouco tempo a outra metade será ganha. Ora, a Argélia faz parte da França36. Diz a circular, dirigindo-se aos curas da diocese: “Caso se encontrem espíritas em suas paróquias, indepen-dentemente da condição de cada um, geralmente incrédulos, mulheres vaidosas, cabeças vazias, formando sempre o grosso dos cortejos supersticiosos, que o padre não vacile em lhes declarar que não há nenhuma transação possível entre o catolicismo e o Espiritismo; que, em suas experiências, não pode haver senão uma destas três coisas: astúcia da parte de uns, alucinação da parte de outros ou, o que é pior, uma intervenção diabólica.” Se não há transação possível, pior para o catolicismo do que para o Espiritismo, porque este ganha terreno diariamente, façam o que fizerem para o deter; e o que fará o catolicismo quando se realizar a previsão do Sr. Leblanc de Prébois ? Se ele põe todos os espíritas à porta da Igreja, quem ficará lá dentro? Mas esta não é questão para o momento, que virá a seu tempo e lugar. O último trecho da frase tem grande alcance da parte de um homem como o bispo de Argel, que deve pesar o sentido de todas as suas palavras. Segundo ele, não há no Espiritismo senão uma destas três coisas: astúcia, alucinação ou, o que é pior, intervenção diabólica.
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(36) N. do T.: A Argélia deixou de ser colônia francesa em 1961.
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(37) N. do T.: O auto-de-fé de Barcelona ocorreu em 9 de outubro de 1861.
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