Livros Espíritas
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A consciência, o “eu”, é o centro do ser, a própria essência da personalidade. Ser pessoa é ter uma consciência, um “eu” que reflete, examina-se, recorda-se. Poder-se-á, porém, conhecer, analisar e descrever o “eu”, os seus misteriosos recônditos, as suas forças latentes, os seus germens fecundos, as suas atividades silenciosas? As psicologias, as filosofias do passado debalde o tentaram. Os seus trabalhos não fizeram mais do que tocar de leve a superfície do ser consciente. As camadas internas e profundas continuaram obscuras, inacessíveis, até ao dia em que as experiências do Hipnotismo, do Espiritismo, da renovação da memória aí projetaram, afinal, alguma luz. Então se pôde ver que em nós se reflete, se repercute todo o universo na sua dupla imensidade, de espaço e de tempo. Dizemos de espaço, porque a alma, nas suas manifestações livres e plenas, não conhece as distâncias. Dizemos de tempo, porque um passado inteiro dorme nela ao lado do futuro que aí jaz no estado de embrião. As escolas antigas admitiam a unidade e a continuidade do “eu”, a permanência, a identidade perfeita da personalidade humana e a sua sobrevivência. Os seus estudos basearam-se no sentir íntimo, no que em nossos dias se chama introspecção. A nova psicologia experimental considera a personalidade como um agregado, um composto, uma “colônia”. Para ela é apenas aparente a unidade do ser, que pode decompor-se. O “eu” é uma coordenação passageira, disse Th. Ribot.(42) Essas afirmações baseiam-se em fatos de experiência, que não se podem deixar de parte, tais como vida intelectual inconsciente, alterações da personalidade, correlação entre as doenças da memória e as lesões do cérebro, etc. Como aproximar e conciliar teorias tão dessemelhantes e contudo baseadas, ambas, na ciência de observação? De maneira simples. Pela própria observação, mais atenta, mais rigorosa. Myers disse-o por estes termos:(43) “Uma investigação mais profunda, mais audaz, exatamente na direção que os psicólogos (materialistas) preconizam, mostra que eles se enganaram afirmando que a análise não provava a existência de nenhuma faculdade acima das que a vida terrestre, assim como eles a concebem, é capaz de produzir e o meio terrestre de utilizar. Porque, na realidade, a análise revela os vestígios de uma faculdade que a vida material ou planetária nunca poderia ter gerado e cujas manifestações implicam e fazem necessariamente supor a existência de um mundo espiritual. Por outro lado, e em favor dos partidários da unidade do “eu”, pode-se dizer que os dados novos são de natureza a fornecer às suas pretensões uma base muito mais sólida e uma prova presuntiva que se avantaja em força a todas as que eles poderiam ter imaginado, a prova, especialmente, de que o “eu” pode sobreviver, e sobrevive realmente, não só às desintegrações secundárias, que o afetam no curso da sua vida terrestre, mas também à desintegração derradeira que resulta da morte corporal. Muito falta ao “eu” consciente de cada um de nós para poder compreender a totalidade da nossa consciência e das nossas faculdades. Existem uma consciência mais vasta e faculdades mais profundas, cuja maior parte se conserva virtual em relação à vida terrestre, das quais se desprenderam, por via de seleção, a consciência e as faculdades da vida terrestre; tais, consciência mais alta e faculdades mais profundas, de novo se afirmam em toda a plenitude depois da morte. Tenho sido, há cerca de catorze anos, levado lentamente a essa conclusão, que revestiu para mim a sua forma atual, em conseqüência de uma longa série de reflexões baseadas em provas, cujo número ia aumentando progressivamente.” Em certos casos vê-se aparecer em nós um ser muito diferente do ser normal, possuindo não só conhecimentos e aptidões mais extensas que as da personalidade comum, mas, além disso, dotado de modos de percepção mais poderosos e variados. Às vezes, até mesmo nos fenômenos de “segunda personalidade” o caráter se modifica e difere por tal forma do caráter habitual que alguns observadores se julgaram na presença de um outro indivíduo. Cumpre fazer bem a distinção entre esses casos e os fenômenos de incorporações de Espíritos. Os médiuns, no estado de desdobramento, de sonambulismo, emprestam às vezes o seu organismo a entidades do Além, Espíritos desencarnados que dele se servem para comunicar com os homens; mas, então, os nomes, as particularidades, as provas de identidade fornecidas pelos manifestantes não permitem confusão alguma. A individualidade que se manifesta difere radicalmente da do paciente. Os casos de G. Pelham,(44) de Robert Hyslop, de Fourcade, etc. nos demonstram que as substituições de Espíritos não podem ser confundidas com os casos de personalidade dupla. Sem embargo, o erro era possível. Com efeito, do mesmo modo que as incorporações de Espíritos, a intervenção de personalidades secundárias é precedida de um sono curto. Estas surgem, as mais das vezes, num acesso de sonambulismo ou mesmo após uma comoção. O período de manifestação, a princípio de breve duração, prolonga-se pouco a pouco, repete-se e vai-se destacando, cada vez com maior precisão, até adquirir e constituir uma cadeia de recordações particulares que se distinguem do conjunto das recordações registradas na consciência normal. Esse fenômeno pode ser facilitado ou provocado pela sugestão hipnótica. É mesmo provável que nos casos espontâneos, em que nenhuma vontade humana intervém, o fenômeno seja devido à sugestão de agentes invisíveis, guias e protetores do sujet. Exercem eles nesses casos, como veremos, a sua ação para um fim curativo, terapêutico. No caso, célebre, de Félida, estudado pelo Doutor Azam,(45) os dois estados de consciência, ou variações da personalidade, são nitidamente estabelecidos: “Quase todos os dias, sem causa conhecida ou sob o domínio de uma comoção, ela é tomada pelo que chama ‘a sua crise’. De fato, entra no seu segundo estado. Acha-se sentada com um trabalho de costura na mão; de repente, sem que nada o possa fazer prever e depois de uma dor nas fontes, mais violenta que de costume, a cabeça cai-lhe sobre o peito, as mãos ficam inativas e descem inertes ao longo do corpo. Dorme ou parece dormir um sono especial, porque nenhum barulho, nenhuma excitação, beliscadura ou picada a podem acordar. Ademais, essa espécie de sono sobrevém subitamente e dura dois ou três minutos. Antes durava muito mais. Depois, Félida acorda: mas o seu estado intelectual não é o mesmo que era antes de adormecer. Tudo parece diferente. Ergue a cabeça e, abrindo os olhos, cumprimenta sorrindo as pessoas que a cercam, como se tivesse chegado nessa ocasião; a fisionomia, triste e silenciosa antes, ilumina-se e respira alegria. A sua palavra é breve. Cantarolando, continua a obra de agulha que, no estado precedente, havia começado. Levanta-se. O seu andar é ágil e quase não se queixa das mil dores que, momentos antes, a faziam sofrer. Cuida dos arranjos domésticos, anda pela rua, etc. O seu gênio mudou completamente; de triste fez-se alegre. A sua imaginação está mais exaltada; o motivo mais insignificante a entristece ou alegra; de indiferente passou a uma sensibilidade excessiva. Nesse estado, lembra-se perfeitamente de tudo o que se passou nos outros estados semelhantes anteriores e também durante a sua vida normal. Nessa vida, como na outra, as suas faculdades intelectuais e morais, posto que diferentes, acham-se incontestavelmente na sua integridade: nenhuma idéia delirante, nenhuma falsa apreciação, nenhuma alucinação. Félida é outra, nada mais. Pode-se até mesmo dizer que nesse segundo estado, nessa segunda condição, como lhe chama M. Azam, todas as suas faculdades parecem mais desenvolvidas e completas. Essa segunda vida, em que a dor física não se faz sentir, é muito superior à outra, principalmente pelo fato notável de, enquanto ela dura, Félida lembrar-se não só do que se passou durante os precedentes acessos, mas também de toda a sua vida normal; ao passo que, durante a vida normal, nenhuma lembrança tem do que se passou durante os acessos.” Vê-se que aí não estão em jogo várias personalidades, mas simplesmente vários estados da mesma consciência. A relação subsiste entre esses diversos aspectos do ser psíquico. Pelo menos, o segundo estado, o mais completo, nada ignora do que fez o primeiro; ao passo que este não conhece o outro senão por ouvir dizer. O modo de existência n° 2 trata o n° 1 com algum desdém. Félida, no segundo estado, fala da “rapariga estúpida”, do mesmo modo que nós mesmos o faríamos falando do menino desajeitado, do bebe trapalhão, que fomos em outro tempo. No caso de Louis Vivé,(46) achamo-nos na presença de um fenômeno de “regressão da memória”. O sujet, sob a influência da sugestão hipnótica, revive todas as cenas da sua vida, como diz Myers, “com a rapidez e a facilidade de imagens cinematográficas. Não só os estados mentais passados e esquecidos voltam à memória ao mesmo tempo que as impressões físicas dessas variações, mas também quando um estado mental passado e esquecido é sugerido ao paciente, como sendo o seu estado atual, ele recebe imediatamente as impressões físicas correspondentes”. Veremos mais adiante que, graças a experiências da mesma ordem, se tem podido reconstituir as excitações anteriores de certos pacientes com a mesma nitidez, o mesmo poder de impressões e sensações, o que nos levará a reconhecer que a ciência profunda do ser nos reserva muitas surpresas. Em Mary Reynolds (47) assistimos a uma transformação completa do caráter, que apresenta três fases distintas: uma caracterizada pelo desleixo e outra com disposições para a tristeza, tendendo a fundir-se num terceiro estado superior aos dois precedentes. Outro caso fornecer-nos-á indicações preciosas sobre a natureza do segundo estado nas variações da personalidade. É o da Srta. R. L..., observado pelo Dr. Dufay e publicado na Revue Scientifique, de 5 de julho de 1876.
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(42) Th. Ribot - Les Maladies de la Personnalité, páginas 170 e 172.
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(43) F. Myers - La Personnalité Humaine, pág. 19. Essa obra representa o mais grandioso esforço tentado pelo pensamento para resolver os problemas do ser. O Professor Flournoy, da Universidade de Genebra, escrevia a respeito desse livro: “O nome de Myers será inscrito no livro de ouro dos grandes iniciadores, a par dos de Copérnico e Darwin, para completar a tríade dos gênios que mais profundamente revolucionaram as noções científicas na ordem da Cosmologia, da Biologia e da Psicologia.”
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(44) Ver nossa obra No Invisível, cap. XIX (passim), e G. Delanne, A Alma é Imortal.
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Nota 4:
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(45) Dr. Binet - Altérations de la Personnalité, F. Alcan, Paris, pág. 6 e 20.
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Nota 5:
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(46) F. Myers - La Personnalité Humaine, pág. 60. Ver também Camuset, Annales Médico-Psychologiques, 1882, página 15.
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Nota 6:
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(47) W, James - Principies of Psychology.
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