Livros Espíritas
Sugerir Edição de Documento
Editar documento
Título:
Autor:
Espiritos:
Capítulo:
Conteúdo:
20000
caracteres restantes
Uma questão sobre a qual havíamos guardado um silêncio facilmente compreensível, acaba de ter um desfecho que a põe no domínio público. Tendo sido publicada por vários jornais das localidades vizinhas, desde então julgamos oportuno dela falar, a fim de prevenir as falsas interpretações da malevolência em relação à Doutrina Espírita, e provar que essa doutrina não encobre com seu manto nada que seja repreensível. Aliás, como nosso nome está envolvido no assunto, não é inútil que se conheça a nossa maneira de ver. Esse assunto diz respeito ao médium Hillaire, de Sonnac (Charente- Inférieure), com o qual já tivemos ocasião de entreter os nossos leitores. Hillaire é um homem moço, casado e pai de família, simples trabalhador, quase analfabeto. A Providência o dotou de notável faculdade mediúnica, muito ampla, cujos detalhes podem ser lidos na obra do Sr. Bez, intitulada: Os milagres de nossos dias, e que tem várias analogias com a do Sr. Home. Naturalmente, essa faculdade despertou a atenção para ele; ela lhe havia conquistado uma celebridade local e, ao mesmo tempo, lhe valido a simpatia de uns e a aversão de outros. Os elogios um tanto exagerados de que era objeto nele produziram sua má influência habitual. Os sucessos do Sr. Home subiram-lhe um pouco à cabeça, como o atestam as cartas que nos escreveu. Sonhava com um teatro maior do que o seu vilarejo. Contudo, apesar de suas instâncias para que o fizéssemos vir a Paris, jamais lhe quisemos dar a mão. Certamente, se nessa providência tivéssemos visto uma utilidade qualquer, tê-lo-íamos favorecido; mas estávamos convencidos, de acordo com as idéias e o caráter que lhe conhecíamos, de que ele não era capaz de representar um papel preponderante, e isso em seu próprio interesse. Aliás, muito recentemente tivéramos um triste exemplo dessas ambições que empurram para a capital e acabam em cruéis decepções. Elevando-o sobre um pedestal, prestaram-lhe um mau serviço. Sua missão era local; num raio limitado, sobre uma certa população, podia prestar grandes serviços à causa do Espiritismo, com o auxílio dos notáveis fenômenos que se produziam sob sua influência; ele os prestou propagando as idéias espíritas na região, mas os poderia prestar ainda maiores se se tivesse limitado à sua modesta esfera, sem abandonar o trabalho de que vivia e se, com mais prudência, o tivesse podido conciliar com o exercício da mediunidade. Infelizmente para ele, a importância que se atribuía o tornava pouco acessível aos conselhos da experiência; como muita gente, os teria aceitado de bom grado se fossem concordes com as suas idéias, das quais suas cartas nos davam provas! Vários indícios nos fizeram prever sua queda, mas estávamos longe de suspeitar por que causa se daria. Apenas nossos guias espirituais nos advertiram algumas vezes para agir com ele com grande circunspeção e resguardar a nossa autoridade, evitando, sobretudo, fazê-lo vir a Paris. Por muita presunção de um lado e muita fraqueza do outro, ele aniquilou sua missão no momento em que ela poderia ganhar o seu maior brilho. Cedendo a deploráveis arrastamentos e, talvez, como somos levados a crer, a pérfidas insinuações, manejadas com habilidade, ele cometeu uma falta, em razão da qual deixou a região e da qual, mais tarde, teve de prestar contas à justiça. O Espiritismo, longe de sofrer com isto, como se vangloriavam os nossos adversários, saiu são e salvo desta prova, como logo se verá. Nem é preciso dizer que se empenhavam em fazer passar todas as manifestações do infeliz Hillaire como insignes trapaças. Nesta triste questão, o lesado, um dos que mais o tinham aclamado ao tempo de sua glória passageira e o tinha acobertado com o seu patrocínio, escreveu-nos após a fuga dos culpados, para nos dar conta detalhada dos fatos e pedir o nosso e o concurso de nossos correspondentes, a fim de que os prendessem. Ele termina dizendo: “É preciso tirar-lhes todos os recursos, a fim de os obrigar a voltar à França e os mandar castigar pela justiça dos homens, esperando que a desse Deus de misericórdia os castigue também, pois causam um grande prejuízo ao Espiritismo. Esperando uma resposta de vossa mão, vou pedir a Deus para que sejam descobertos. Sou todo vosso, vosso irmão em Deus, etc.” Eis a resposta que lhe demos, sem suspeitar que ela se tornaria uma das peças do processo: Senhor, Retornando de longa viagem que acabo de fazer, encontrei a carta que me escrevestes a propósito de Hillaire. Deploro tanto quanto qualquer outro esta triste história, da qual, entretanto, o Espiritismo não pode receber nenhum ataque, já que não poderia ser responsabilizado pelos atos dos que o compreendem mal. Quanto a vós, o mais prejudicado nesta circunstância, compreendo vossa indignação e o primeiro momento de exaltação que vos deve ter agitado, mas espero que a reflexão tenha dado mais calma ao vosso espírito. Se fordes realmente espírita, deveis saber que devemos aceitar com resignação todas as provas que a Deus aprouver enviar-nos e que são, elas mesmas, expiações que merecemos por nossas faltas passadas. Não é orando a Deus, como fazeis, para nos vingar daqueles de quem temos de nos queixar, que adquirimos o mérito das provas que Ele nos manda; muito ao contrário, perdemos os seus frutos e atraímos outras ainda maiores. Não é uma contradição de vossa parte dizer que orais ao Deus de misericórdia para que os culpados sejam presos, a fim de serem entregues à justiça dos homens? Dirigir-Lhe semelhantes preces é uma ofensa, quando necessitamos, em maior ou menor grau, de sua misericórdia para nós mesmos, esquecendo que ele disse: Sereis perdoados como tiverdes perdoado aos outros. Tal linguagem não é cristã, nem espírita, porquanto, a exemplo do Cristo, o Espiritismo nos ensina a indulgência e o perdão das ofensas. É uma bela ocasião para mostrardes grandeza e magnanimidade e provardes que estais acima das misérias humanas. Desejo que não a deixeis escapar. Pensais que esta questão prejudicará o Espiritismo. Repito que ele nada sofrerá com isto, em que pese o ardor dos adversários em explorar esta circunstância em seu proveito. Se o devesse prejudicar, seria apenas um efeito local e momentâneo e nisso tereis vossa parte de responsabilidade, pelo ardor com que o divulgastes. Tanto por caridade, quanto pelo interesse que dizeis ter pela doutrina, deveríeis ter feito todo o possível para evitar o escândalo, ao passo que, pela repercussão que lhe destes, fornecestes armas aos inimigos. Os espíritas sinceros vos teriam sido gratos por vossa moderação, e Deus vos teria levado em conta esse bom sentimento. Lamento que tenhais podido pensar que eu servisse, fosse no que fosse, aos vossos desejos vindicativos, tomando providências para entregar os culpados à justiça. Era enganar-vos singularmente quanto ao meu papel, ao meu caráter e à minha compreensão dos verdadeiros interesses do Espiritismo. Se, como dizeis, sois realmente meu irmão em Deus, crede-me, implorai sua clemência e não a sua cólera, porque aquele que chama a cólera sobre outrem corre o risco a fazê-la cair sobre si mesmo. Tenho a honra de vos saudar cordialmente, com a esperança de vos ver voltar a idéias mais dignas de um espírita sincero. A. K. Eis, agora, o relato que nos foi enviado: “Iniciado sexta-feira, o caso Hillaire terminou sábado à meia-noite. Retirando Vitet sua queixa no momento em que ia ser pronunciado o julgamento, sua esposa foi inocentada. Só Hillaire ficava sob a clava da justiça. O ministério público concluiu pela culpabilidade e exigiu a aplicação dos artigos 336, 337, 338, etc., do Código Penal. O Tribunal, declinando de sua competência no que respeita à apreciação de todos os transportes e outros fatos mediúnicos, fazendo aplicação do artigo 463, condenou Hillaire a um ano de prisão e pagamento das custas processuais. Aos nossos olhos, esse julgamento é uma justa aplicação da lei escrita, embora tenha sido considerado um tanto severo por pessoas que absolutamente não são espíritas. “Se fomos testemunhas do desenrolar de tristes torpezas a que podem conduzir as fraquezas humanas, por outro lado assistimos a um belo espetáculo, quando ouvimos ser proclamada solenemente a ortodoxia da moral espírita; quando, durante a suspensão e à saída das audiências, ouvimos estas palavras, repetidas em público: ‘Devemos invejar a felicidade daqueles cuja fé os põe constantemente em presença daqueles a quem amaram, e dos quais o próprio túmulo não os pode mais separar.’ “Com efeito, vede esta multidão, que logo este pretório não poderá conter. Aí se comprimem membros de todas as posições sociais, desde a mais ínfima até a mais elevada. Pensais que esses homens vêm simplesmente assistir aos vulgares debates de uma torpe questão na polícia correcional? Ao vexame de dois infelizes que confessaram e narraram todas os detalhes de sua falta? Oh! não. O caso em questão tem um alcance muito alto. O Espiritismo está em jogo; vêm ouvir as revelações que um inquérito de três meses terá trazido contra a nova doutrina; vêm gozar o ridículo que não deixará de cair sobre esses pobres alucinados; mas suas esperanças pouco caridosas foram ludibriadas pela sabedoria do tribunal. “O presidente começa por proclamar a mais absoluta liberdade de consciência; recomenda a todos o respeito pela crença religiosa de cada um; ele próprio marcha até o fim nesse caminho.
Mais opções
TAG
Valor
Mensagem para o avaliador (caso precise explicar suas sugestões):
3000
caracteres restantes
Criado por (coloque telefone ou e-mail caso seja necessário entrar em contato):
Cancelar
Salvar
Aguarde um momento...
×
Deseja sair do sistema?
×
Confirma a operação?
×