Livros Espíritas
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"Quando pequena, às vezes, sonhava que estava brincando de índio com outras crianças. Exibia um vistoso cocar na cabeça, como os que os chefes de tribos americanas usam nos filmes. Mas filmes eu só veria mais tarde, adulta, quando reconheci cocares iguais àqueles com os quais eu me via nos sonhos. Teria eu sido também uma indiazinha americana? "Certa vez sonhei que morava em uma fazenda que fora atacada pelos índios. Não sei como acabou a luta. Lembro-me, contudo, de que era um dia chuvoso e havia muita lama no lado de fora. "Em vários desses sonhos eu me via em ambiente geográfico que mais tarde identificaria como sendo os Estados Unidos, mais precisamente New England. Usualmente, eu estava sendo perseguida por soldados, porém muitas imagens eram fragmentárias ou não se fixavam melhor na memória de vigília, por isso não posso falar sobre seus 'enredos'. Havia situações angustiantes, quase desesperadoras. Quando visitei aquele país, levada por uma bolsa de estudos, reconheci alguns dos locais com os quais costumava sonhar." O relato seguinte é de um dos sonhos mais explícitos. "Encontro-me em fuga num trem. Meu pai é homem muito importante na política. A situação era de conflito armado e os soldados que me perseguem querem na realidade alcançar meu pai, aprisionando-me. Viajo escondida num vagão de carga em que haviam adaptado um fundo falso com um compartimento onde me escondera. É ainda noite, já quase madrugada. Vejo o escuro acinzentado dos primeiros e vagos clarões do distante amanhecer, quando o trem pára e alguém entra no vagão, abre a tampa do fundo falso e me tira de lá. Sou informada de que o inimigo havia tomado conhecimento de que eu viajava naquele trem e estava à minha espera na estação seguinte. O trem parara num lugar à beira de um barranco muito alto, com umas cavidades semelhantes a nichos, cujas entradas ficavam cobertas de vegetação. Sem saber ao certo o que fazer, resolveram tirar-me do trem e esconder-me em uma daquelas cavidades do barranco. Ali fiquei, vendo o trem partir. Algum tempo depois, com o trem já desaparecido ao longe, saí da cavidade e consegui pular para o solo, embaixo, pois a altura era grande. À minha frente havia um declive coberto de grama muito verde. Desci por ele sem saber onde estava e o que iria encontrar pela frente. Não sentia medo, pois a grande preocupação era não servir de 'isca' para que aprisionassem meu pai." Neste ponto termina o sonho e Regina ficou sem saber, naquele momento, o que teria acontecido em seguida. Mais tarde viria a saber por outro sonho. Novamente, passamos-lhe a palavra: "Mesmo ambiente geográfico. Encontro-me refugiada em uma de nossas propriedades, localizada em um vale, em região que me parece ser o sul dos Estados Unidos. (O que indica que ela deve ter conseguido chegar a seu destino depois da aventura do trem). É noite e nos preparamos para dormir: eu e duas criadas. Apenas nós estamos na propriedade. Estou muito nervosa e pergunto se elas fecharam bem a casa, o que elas confirmam. Mesmo assim, não confio e vou eu mesma verificar se todas as portas e jaanelas estão bem fechadas. Estou ainda nessa verificação quando, ao chegar a uma janela que estava entreaberta, estremeço. À frente da casa, estendia-se uma estrada que subia por uma colina para depois descer pelo outro lado. Havia chovido, muito barro se acumulara e o solo estava sulcado, aqui e ali, pelas enxurradas. "Observo, então, no topo da elevação, uma coluna de soldados que vêm descendo, todos armados. Sei que vêm à minha procura. Sou dominada por intenso medo e me pergunto quem teria me traído, pois só por traição poderiam ter-me descoberto ali, já que a propriedade era local considerado muito seguro. Olho, então, as duas criadas, nas quais reconheço, ali no sonho, que são minha mãe e uma das irmãs da presente encarnação, no Brasil. Pelo olhar, percebo que foi uma delas que me traiu: a que hoje é uma das minhas irmãs! - Você! - grito eu. - Foi você que me traiu. "Assustada, ela procura fugir. Eu pego um chicote e castigo-a com toda a minha fúria. Estranho, porém: tenho consciência de que aquilo não está acontecendo no presente e, sim, que se trata de uma cena do meu passado que estou vivendo no sonho. E começo a argumentar comigo mesma: 'Não devo mais fazer isto! (Chicoteá-la.) Agora sou espírita, conheço a doutrina e não devo ter esse ódio e agir assim! Entretanto continuo a espancá-la compulsivamente. (Ver observação sobre anacronismo em A memória e o tempo). De repente dou-me conta de que os soldados (yankees) estão se aproximando e a criada, aproveitando um momento de hesitação, consegue desvencilhar-se de mim e sai correndo. Só então penso em fugir, embora sabendo que não tenho a menor chance de escapar. Saio pela porta dos fundos, correndo pelas aléias abertas por entre o gramado muito verde, à margem dos quais vejo sycamores e creio que dogwoods (típicas árvores americanas). Os soldados, a essa altura, já invadiram a propriedade e um deles dispara um tiro contra mim e me atinge pelas costas, na nuca. Caio de bruços, no chão molhado pela chuva, sem soltar um ai. Era final de outono. Ainda sinto (e vejo) as folhas vermelho-amarronzadas, misturadas com terra, em minha boca. Levanto-me, mas vejo meu corpo ali, deitado no chão, o sangue a escorrer. Sei que morri, mas isso não me causa nenhuma emoção especial." Assim termina o sonho. E a vida ... B) O PRIMO ANTIPÁTICO Em uma dessas existências, o vídeo-teipe da memória exibe uma tragédia que acabou bem. Regina é uma jovem órfã e rica herdeira de um castelo à beira-mar, onde vive apenas com os criados. Um primo incumbiu-se de gerir os seus bens, na qualidade de tutor, provavelmente em cumprimento à decisão testamentária dos pais mortos. Era um homenzinho baixo, antipático, ao qual ela sempre teve especial aversão. Propôs casar- se com Regina, mas além de não gostar dele, ela sabia que o casamento era apenas um recurso para ele entrar na posse das riquezas dela, em vez de apenas administrá- las. Chegara ele à petulância de dar-lhe um prazo fatal para a decisão, armando uma situação que não lhe concedia espaço para alternativas. O sonho a leva de volta àquele dia fatal em que se esgotava o prazo. Regina se sente nervosa e tensa. Vê o primo chegar a cavalo, apear, amarrar o animal, dirigindo-se em seguida à entrada do castelo. Regina se sente desesperada, pois não há mesmo saída. Um criado fiel estava disposto a tudo para defendê-la, mas a atitude era quixotesca. O primo trouxera com ele outros homens. Regina saiu a correr, na esperança de chegar a tempo de montar um dos cavalos e desaparecer, fosse para onde fosse. Um dos asseclas do primo, contudo, barrou-lhe o caminho. Sentindo-se apanhada em uma armadilha - estava certa de que iriam dominá-la -, optou pela morte voluntária. Subiu rápida a torre circular do castelo, que terminava em um patamar projetado sobre o mar, a grande altura. Segurando com uma das mãos as amplas saias, ela corria desesperada à frente do homem que a perseguia, tentando agarrá-la. Conseguiu chegar primeiro ao patamar. Olhou rapidamente para baixo e teve um segundo de hesitação e medo ao contemplar a espuma das águas chocando-se contra as rochas. Era atirar-se ou ser agarrada pelo homem que rapidamente se aproximava. Fechou os olhos e deixou cair o corpo no espaço. Mas não morreu, porque se vê, em seguida, sendo tirada das águas e colocada em uma padiola, sob consternação geral. Chegam outras pessoas. Ela está presente e consciente, ainda que seu corpo esteja inerte. Ouve até o que dizem à sua volta, a se lamentarem do ocorrido. Vê-se, depois, estendida em um local, onde cuidam de doentes, algo como um hospital, a casa de saúde da época. Tem a impressão de haver passado um tempo mais ou menos longo sem sentidos. Ao despertar, vê um homem ao lado de sua cama, a cuidar dela. Tem uma expressão doce e bondosa e lhe fala com carinho. Ainda exausta, ela volta a adormecer ou desmaiar. Quando acorda outra vez, sente-se melhor e aos poucos começa a reconstituir sua tragédia. As emoções se confundem porque, embora se sentindo melhor, preocupa-se ante a perspectiva de ficar boa e recomeçar a viver aquela insuportável agonia, lá estariam o castelo, os bens, a solidão e o primo ambicioso e sem escrúpulos. Embora o médico pareça perceber o artifício, ela finge que ela ainda está mal, para adiar o reencontro com a detestada e temida realidade. Em um dia daqueles soube que seu parente havia estado lá para reclamar a posse da sua tutelada. Certamente, teria documentos em que se apoiava para isso. Em pânico, resolve contar todo seu drama ao médico, que a ouve pacientemente e a tranqüiliza, prometendo tomar certas providências. Regina assegura-lhe que prefere morrer do que voltar para casa e enfrentar o primo. Ao que ela depreende (ou se lembra, no sonho), o local onde estava sendo tratada pertencia à igreja, que o administrava. O médico recorre ao sacerdote que dispunha ali de muita autoridade e este homem vem visitá-la. Regina repete a história contada ao médico. Ao que parece, ela pertencia a uma família não apenas muito rica e titulada, mas de grande prestígio na região, que ela não localiza no tempo nem no espaço geográfico. Tanto o sacerdote como o médico tratam-na com respeito e deferência. O clérigo perguntou-lhe, por último, para definir bem a situação, se ela queria ou não voltar para casa, e ela foi enfática: - Não! Antes a morte! O sacerdote mandou chamar o primo e ela sabe que eles tiveram uma entrevista no gabinete de trabalho do religioso. É informada de que o clérigo lhe comunicou que ela não iria voltar para casa e que, tendo pedido a proteção da Igreja, fora acolhida. Se algo lhe acontecesse, o primo seria publicamente responsabilizado. E mais: a partir daquele momento, o primo perdia sobre ela o direito de tutoria, que passava à Igreja. Isto vale dizer que seus bens passavam a ser administrados pela Igreja.
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