Livros Espíritas
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Durante cerca de um ano, tudo correu bem. Os textos psicografados traziam segura orientação, quase sempre ampliando o tema do estudo da noite ou destacando-lhe aspectos especiais para comentar. Particularmente, o espírito lhe transmitia outros informes e orientava seus estudos, recomendando permanente consulta às obras de Kardec e ao Evangelho, incentivando- a no aperfeiçoamento de sua cultura doutrinária e na prática da meditação. Decorrido aquele primeiro ano, contudo, as coisas começaram a mudar; de modo imperceptível, a princípio, e depois de forma mais óbvia. A mediunidade de Regina desdobrava-se em vários aspectos e manifestações. Ocorriam fenômenos de vidência, clarividência, premonição, telepatia, desdobramentos conscientes e efeitos físicos, além da psicografia. Ela considerava tudo isso com naturalidade, mesmo porque estava habituada àquela riqueza fenomenológica. Nada via de extraordinário naquilo. Queria servir no que fosse mais útil e da maneira mais correta. Não sonhava projetar- se com o exercício da mediunidade, por entendê-la, acertadamente, como simples instrumento de trabalho. Estava convicta de que não lhe teriam sido proporcionados tais recursos sem um objetivo determinado; não, por certo, para sua satisfação particular ou para exibir fenômenos insólitos perante uma platéia fascinada. O senhor seu amigo, contudo, começou a ficar cada vez mais empolgado com aquela inesperada variedade de faculdades mediúnicas. Acabara de descobrir uma médium de notáveis possibilidades e não iria perder a oportunidade de trabalhar com ela a fim de desenvolver suas faculdades segundo sua metodologia pessoal. Cada vez mais entusiasmado, assumiu o comando das atividades, cumulando-a de elogios e expressões de admiração. Começou a exigir dela certas atitudes e exercícios. Fazia experiências, planejava reuniões especiais, trazia amigos para as assistir, colocando a médium em evidência, empolgado pelas comunicações que vinham por intermédio dela. Ao que tudo indica, tinha em mente desenvolver em torno dela um grupo de maiores proporções com o qual pudesse conduzir seu trabalho à sua maneira. Não que isso fosse, em si mesmo, censurável, mas é preciso reconhecer que sua atitude implicava riscos e dificuldades imprevisíveis. Para Regina, foi uma encruzilhada. Se também se deixasse envolver pela empolgação do amigo, certamente teria enveredado pelo caminho que ele traçara para ela, e não sabe o que poderia ter acontecido, por melhores que fossem as intenções, logo, porém, os espíritos amigos demonstraram de maneira inequívoca que não aprovavam os planos traçados com tanto entusiasmo. Os fenômenos passaram a escassear e desapareceram de modo misterioso e inexplicável (para ele). O amigo espiritual deixou de se comunicar. Às vezes era visto por Regina, ao seu lado, na reunião. Ela sabia que ele ali estava, mas nada dizia; ele também não se pronunciava. Era só uma presença vigilante, preocupada talvez, e amorosa. O homem começou a ficar impaciente e a exigir dela concentração e mais concentração, desejando, quase impondo, que ela produzisse os fenômenos de antes de qualquer maneira. Irritava-se com o silêncio dos espíritos e a culpava severamente. Não conseguia esconder seu desapontamento e sua frustração. Novo risco estava implícito nessa atitude. Regina poderia muito bem ter forçado a produção de fenômenos fraudulentos, consciente ou inconscientemente, apenas para atendê-lo ou cedendo à sua pressão. Felizmente, manteve-se firme. Não podia evitar, porém, a aflitiva sensação de fracasso. Mas resistia, chegando mesmo a dizer-lhe, com franqueza, que não poderia inventar uma comunicação ou um fenômeno apenas para contentá-lo. Ele argumentava que havia qualquer coisa errada no seu procedimento e isso estaria afastando as entidades. Tais atitudes foram desastrosas por todos os motivos. A mais grave foi a de que criaram no espírito de Regina as primeiras dúvidas a respeito da sua mediunidade, o que a levou a uma posição de insegurança e de hesitações que iria prejudicá-la seriamente no futuro e da qual custaria muito a livrar-se. Nas horas de meditação, procedia a minuciosos exames de consciência e nada via em seus atos, que pudesse ter contribuído para o abandono que, segundo de, merecera de seus mentores espirituais. E as comunicações não vinham mesmo, nem os fenômenos de antes ocorriam mais. Isso servia para demonstrar que o homem estava prioritariamente interessado no fenômeno e não no estudo e na prece, que foram os objetivos para quais ela decidira iniciar o seu culto doméstico. Também não estava preparado para guiar os passos dela na difícil e delicada tarefa de maturação da mediunidade, num período inicial de treinamento e ajuste onde se definem atitudes e práticas consolidam-se procedimentos e armam-se dispositivos de segurança. Tudo isso para que o médium se familiarize com os mecanismos operacionais de suas faculdades e até defina, ele próprio, suas prioridades e preferências. Por exemplo, em que modalidade se sente melhor, mais seguro, mais eficiente? psicografia? psicofonia? Passes? Vidência? A assistência de uma pessoa qualificada, competente e experimentada é da maior importância nessa fase delicada. Que critique, sem demolir e sem desestimular; que estimule, sem incensar vaidades; que corrija, sem arbitrariedades, o que lhe pareça errado; que tenha respostas precisas e adequadas ante as dúvidas suscitadas, sem colocar-se como um guru infalível e onisciente; que tenha a segura convicção do que sabe e descontraída humildade de procurar saber o que ignora. Do contrário, desenvolve-se uma mediunidade viciada e até perigosa; ou inibida, artificial sem espontaneidade. O objetivo, ao que se depreende, era o de convertê-la em uma 'grande médium', em torno da qual se desenvolvesse um trabalho de vulto, que acabaria por projetá-la em indesejável foco de publicidade. A boa mediunidade, em geral, não vai às manchetes. Só excepcionalmente isso acontece e, sem dúvida alguma, não por desejo do médium responsável e discreto. Perguntado, certa vez, por que não se oferecia ao Dr. J. B, Rhine para as pesquisas do eminente parapsicólogo, Gerard Croiset declarou: Os testes estatísticos do Dr. Rhine somente provariam que sou dotado de faculdades paragnásticas, Disto eu já sei! Estou muito ocupado para brincar de adivinhar cartas de baralho como uma criança! As experiências qualitativas do Dr. Tenhaeff são muito mais profundas do que as quantitativas do Dr. Rhine. O que eles deveriam fazer é demonstrar o valor daquilo que estão tentando realizar, ou seja, como ajudar as pessoas. Isso é mais importante para mim do que descobrir quantas cartas possa adivinhar. (Pollack. Jack R, 1965). Eis aí um sensitivo que sabe o que quer e não se deixa envolver pelo fascínio da publicidade ou pela pesquisa destinada a provar o óbvio. Percebendo tudo isso, Regina tomou uma decisão drástica, convidando os participantes do grupo, delicadamente mas com inabalável firmeza, a porem um fim às reuniões. Nada impedia, declarou ela, que continuassem seus trabalhos em outro local, com outras pessoas, mas ali, na sua casa, não havia mais condições de fazê-lo. Terminou dessa maneira desagradável uma tarefa que ela havia idealizado com amor, simplicidade e boa vontade. Sua decepção foi grande. O risco, agora, estava em cruzar os braços e abandonar para sempre as tentativas da prática mediúnica, que lhe trazia tantos problemas e tensões. Nessa altura, contudo, ela estava por demais convicta da realidade espiritual e confiante na cobertura de seus amigos desencarnados. Além do mais, não a abandonara a certeza de que tinha tarefas a realizar e de que, logicamente, precisava preparar-se para elas. Voltava, portanto, às mesmas perguntas de sempre: a quem recorrer? O que fazer? Por onde começar? 10. PEREGRINAÇÃO PELOS CENTROS Era evidente para ela que não podia desempenhar suas tarefas sozinha. Sabia o suficiente para estar consciente de que a mediunidade não deve ser exercida senão com a sustentação de um grupo amigo e afim, harmonioso e equilibrado. Mas, onde estavam essas pessoas em condições de ajudá-la? Enquanto isso, deu prosseguimento sozinha ao culto do lar, sem trabalho mediúnico. Sabia, contudo, que a solução era provisória; era apenas uma pausa, pois estava convicta de que tinha de descobrir um grupo que aceitasse sua contribuição de trabalho. Não era possível que após toda a programação espiritual, que obviamente aceitara ao reencarnar-se, não conseguisse encontrar quem lhe desse condições de realizar suas tarefas. Começou sua peregrinação por diversos grupos, descobertos segundo orientação de um ou outro amigo. A rotina era sempre a mesma. Mal chegava, procurando uma acomodação, um cantinho para trabalhar, para oferecer sua quota de colaboração, as coisas começavam a complicar-se. Não porque nada tivesse a fazer ou que precisasse ainda 'desenvolver' sua mediunidade, mas precisamente porque já a tinha pronta e acabada e multiplicada em manifestações que fascinavam uns tantos e geravam especulações ociosas e até ciúmes em outros. Como acolher em grupos já formados na tradição de uma prática cristalizada o médium que chega, diferente, fora dos padrões locais? Ela via tudo isso de modo diferente. Considerava a mediunidade uma atividade natural e espontânea. Não se sentia mais importante ou diferente dos outros. Acostumara-se, desde cedo, com os fenômenos com os quais convivera toda a sua vida consciente. Só desejava trabalhar sob orientação confiável junto a quem pudesse ajudá-la para que ela, por sua vez, também pudesse servir. Nada mais. Os dirigentes, contudo, queriam dela a atitude padrão a que estavam habituados. Médium que não se enquadrasse nas condições julgadas ideais não servia; era considerado indisciplinado, personalista, sujeito a influências negativas ou dominado por fenomenologia anímica, o terrível fantasma que assombra tanta gente boa.
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