Livros Espíritas
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Reparando a estranha atitude dos infelizes desencarnados que o seguiam, pretendia indagar algo relativamente a eles, quando Calderaro veio ao encontro de meus desejos, continuando: — Também os míseros perseguidores são duendes do ódio e da vingança, como o nosso enfermo é um remanescente do crime. São náufragos na derradeira fase de salvação, após enorme hecatombe no mar da vida, onde se perderam por muitos anos, por incapazes de usar a bússola do perdão e do bem. Aproximam-se, porém, do porto socorrista. Voltarão ao Sol da existência terrestre, por intermédio de um coração de mulher que compreendeu com Jesus o valor do sacrifício. Em breve, André, consoante o programa redentor já delineado, ingressarão neste mesmo lar na qualidade de irmãos do antigo adversário. E quando entrelaçarem as mãos sobre ele, consumindo energias por ajudá-lo, assistidos pela ternura de abnegada mãe, amorosa e justa, beijarão o velho inimigo com imenso afeto. Transmudar-se-ão as negras algemas do ódio em alvinitentes liames de luz, nos quais refulgirá o amor eterno. Chegado esse tempo, a força do perdão restituirá nosso doente à liberdade, largará ele, qual pássaro feliz, este mirrado corpo físico, sufocante cárcere do crime e suas consequências, onde se debateu por quase dois séculos. Até lá, importa zelar com empenho pela valorosa mulher que é essa, vestalina senhora deste lar, em quem as Forças Divinas respeitam a vocação para o martírio, por iluminar a vida e enriquecer a obra de Deus. Mal terminava Calderaro as elucidações, quando um dos verdugos desencarnados se moveu e tocou com a destra o cérebro do doentinho, recomendando-me o Assistente examinasse os efeitos desse contato. Extrema palidez e enorme angústia transpareceram no semblante do paralítico. Notei que a infeliz entidade emitia, através das mãos, estrias negras de substância semelhante ao piche, as quais atingiam o encéfalo do pequenino, acentuando-lhe as impressões de pavor. Dirigi ao Assistente um olhar interrogativo, e Calderaro informou: — Se o amor emite raios de luz, o ódio arremessa estiletes de treva. Nos lobos frontais recebemos os “estímulos do futuro”, no córtex abrigamos as “sugestões do presente”, e no sistema nervoso, propriamente dito, arquivamos as “lembranças do passado”. Nosso pobre amigo está sendo “bombardeado” por energias destrutivas do ódio na região de “serviços do presente”, isto é, em suas capacidades de crescimento, de realização e de trabalho nos dias que correm. Tal situação, derivante da culpa, compele-o a descer mentalmente para a zona de “reminiscências do passado”, onde o seu comportamento é inferior, raiando pela semi-inconsciência dos estados evolucionários primitivos. Esmagadora maioria dos fenômenos de alienação psíquica procedem da mente desequilibrada. Repara o cosmo orgânico. O doentinho, da aflição, em que se mergulhara, passou às contorções, evidenciando todos os característicos da idiotia clássica. Os órgãos revelavam agora estranhos deslocamentos. O sistema endócrino patenteava indefiníveis perturbações. Compadecido, inclinou-se o instrutor sobre o doente, e esclareceu: — Os raios destrutivos alcançam-lhe a zona motora, provocando a paralisação dos centros da fala, dos movimentos, da audição, da visão e do governo de todos os departamentos glandulares. Na verdade, essa dolorosa situação cronicificou-se, pela repetição desta ocorrência milhares de vezes, em quase duas centenas de anos. Fez intervalo significativo e tornou: — Examina a conduta do enfermo. Fixando a mente na extrema “região dos impulsos automáticos”, seu padrão de comportamento é efetivamente subumano. Volta a viver estados primários, dos quais a individualidade já emergiu há muitos séculos. Em outros casos menos graves, a medicina atual vem utilizando a terapêutica do choque, à maneira do experimentador que investiga nas sombras, examinando efeitos e ignorando as causas. Cumpre-nos, no entanto, reconhecer que o belo esforço da psiquiatria moderna merece o maior carinho de nossas autoridades espirituais, que patrocinam os médicos diligentes e devotados, orientando-os para o bem comum, simultaneamente em diversos centros culturais; por enquanto, não podem aceitar a verdade como seria de desejar, em virtude da necessidade de guardar-se a medicina terrena em campo conservador, menos aberto aos aventureiros; todavia, mais tarde os sacerdotes da saúde humana compreenderão que o choque elétrico, ou a hipoglicemia, provocada pela invasão da insulina, constituem apelos vivos aos centros do organismo perispirítico, convocando-os ao reajustamento e compelindo os neurônios a se readaptarem para o serviço da mente em processo regenerador. A bem dizer, é de notar que esse recurso às reservas profundas do cosmo psíquico não é novo. Outrora, as vítimas da loucura eram conduzidas a poços de víboras, a fim de que a horrível comoção operasse a transformação súbita da mente desequilibrada; é que, desde remota antiguidade, compreendeu o homem, intuitivamente, que a maioria dos casos de alienação mental decorrem da ausência voluntária ou involuntária da alma à realidade. E, em nosso campo de observação mais clara, podemos adir que todo desequilíbrio promana do afastamento da Lei. Silenciou Calderaro por alguns instantes e, em seguida, indicou o pequeno, acentuando: — Neste caso, porém, o choque aplicado pela ciência dos homens não surtiria vantagem alguma. Estamos perante o eclipse total da mente, pela total ausência da Lei com que se conduziu o interessado no socorro. A retificação, aqui, reclama tempo. As águas pantanosas do mal, longamente represadas no coração, não se escoam facilmente. O plano mental de cada um de nós não é vaso de conteúdo imaginário: é repositório de forças vivas, qual o veículo físico de manifestação, que nos é próprio, enquanto peregrinamos na Crosta Planetária. — Não estamos, porém, cientificamente falando, — indaguei, — diante de um caso típico de mongolismo? O Assistente respondeu sem se embaraçar: — Acompanhamos um fenômeno de desequilíbrio espiritual absoluto. Em situações raríssimas, teremos perturbações dessa natureza com causas substancialmente fisiológicas. Impossível é desconhecer, na Esfera carnal, o paralelismo psicofísico. Quem vive na Crosta Terrestre terá sempre a defrontar com a forma perecível, em primeiro lugar. Daí, não podermos excluir da patologia da alma o envoltório denso, nem menosprezar a colaboração dos fisiologistas abnegados, que atentos se dedicam às investigações da fauna microscópica, do reajustamento das formas, do quadro dos efeitos. Não nos esqueça, contudo, que analisamos agora o domínio das causas… O desvelado amigo parecia disposto a prosseguir, dilatando-me os conhecimentos a respeito do assunto, quando ouvimos passos de alguém que se aproximava. Certo, a dona da casa vinha ao aposento da criança, à procura do socorro da oração. Concluiu Calderaro, apressadamente: — Nossos companheiros da medicina humana batizam as moléstias mentais como lhes apraz, detendo-se nas questões da periferia, por distraídos dos problemas fundamentais do espírito. Relativamente aos assuntos científicos, conversaremos amanhã, quando prestaremos assistência a jovem amigo. Nesse momento, a mãezinha, que ainda não contava trinta anos, acercou-se do enfermo, sem se dar conta de nossa presença espiritual. Estacou, tristonha, de pé junto ao berço, afagando-lhe a fronte aljofrada de suor, ao termo das contorções finais. Afastou a colcha rendada, levantou-o, cuidadosa, e abraçou-o, ungindo-o com o mais terno dos carinhos. O menino aquietou-se. Logo após, a genitora entrou a orar, banhada em lágrimas, afigurando-se-me um cisne da região espiritual a desferir maravilhoso cântico. Enquanto Calderaro operava, reparando-lhe as forças nervosas em verdadeira transfusão de fluidos sadios que o dedicado colaborador transferia de si próprio, eu, de minha parte, acompanhava com vivo interesse a prece maternal. A jovem senhora entremeava de ponderações humanas a cordial rogativa. Por que não a ouvia o Senhor, nos Altos Céus, permitindo um milagre que restituísse o filhinho ao equilíbrio tão necessário? Casara-se, há nove anos, sonhando um jardim doméstico, repleto de rebentos felizes; entretanto, a primeira flor de suas aspirações femininas ali se encontrava ironicamente aberta, numa fácies horrível de monstruosidade e de sofrimento… Por que, interrogava súplice, nasciam crianças na Terra com a destinação de tamanha angústia? Por que o martirológio dos seres pequeninos? Em vão percorrera gabinetes médicos e ouvira especialistas. Sempre as mesmas decepções, os mesmos desenganos. O filhinho parecia inacessível a qualquer tratamento. Sentia-se frágil e extenuada… E chorava, implorando a bênção divina, para que as energias lhe não faltassem na luta. Calderaro, finda a tarefa que lhe competia, acercou-se de mim, perguntando: — Desejas responder à rogativa, em nome da Inspiração Superior? Oh! Não! Declinei de tal convite alegando que isso me era de todo impraticável, depois de haver ouvido Irmã Cipriana renovando corações com o verbo inflamado de amor. Objetou o orientador num gesto bondoso: — Aqui, porém, não falaremos a corações que odeiam, e sim a torturado espírito materno, que reclama estímulo fraternal. O conhecimento e a boa vontade podem fazer muito. Sorriu, benevolente, e acrescentou: — Ao demais, é necessário diplomar-nos também na ciência do amor. Para isso, comecemos a ser irmãos uns dos outros, com sinceridade e fiel disposição de servir.
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