Livros Espíritas
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Era considerável o número de amigos encarnados, provisoriamente libertos do corpo físico através do sono, que se congregavam no vasto salão. Em primeiro lugar, junto da mesa diretora, onde Alexandre assumiu a chefia, instalaram-se os alunos diretos e permanentes do generoso e sábio instrutor. Distribuíam-se os demais em turmas sucessivas de segundo plano. Calculei a assistência de companheiros nessas condições em pouco mais de cem pessoas, aproximadamente, exceção dos desencarnados que acorriam até ali em mais vasta expressão. Além do grupo do Irmão Francisco, que trouxera os tutelados, outras associações da mesma natureza compareciam com os seus pupilos, interessados em novas instruções. Observei, porém, uma particularidade: somente os aprendizes comprometidos com Alexandre podiam relacionar suas dúvidas, pedidos e indagações, não em sentido verbal, mas através de consultas que eram previamente transmitidas a ele, antes de iniciar a dissertação. Atendendo-me a curiosidade, Sertório, que se mantinha ao meu lado, explicou, atencioso: — Há muitas escolas deste gênero para os encarnados que se dispõem a aproveitar os momentos de sono físico. É natural que aos discípulos permanentes, desse ou daquele setor, caiba o direito de interrogar. Como vemos, não há particularismo. Trata-se de uma questão de ordem dos serviços, mesmo porque os aprendizes de comparecimento eventual terão direitos outros, por sua vez, nos núcleos a que pertencem. Satisfeito, em face do esclarecimento, indaguei: — Qual o tema da noite? Há programa preestabelecido? — Há sempre plano organizado para o trabalho, — respondeu. — Contudo, os temas são improvisados por Alexandre, depois de receber as indagações e consultas dos frequentadores habituais. O orientador examina, atentamente, as questões suscitadas pela maioria e fornece instruções de modo a satisfazer igualmente aos assuntos com minoria de interessados. — E poderá informar quanto ao tema provocado pela maioria dos aprendizes, nesta noite? — Creio que se refere à mediunidade e fenômeno, em geral. Em seguida, o companheiro, por especial gentileza, convidou-me a integrar, na assembleia, a equipe dos auxiliares do devotado instrutor que tomara a tribuna, iniciando os serviços educativos. Mais do que em outras ocasiões, realçava-se-lhe a figura veneranda e imponente. Irradiando a luz que lhe era própria, Alexandre dominava a reunião de trabalhadores e estudantes, não pelo magnetismo absorvente dos oradores apaixonados, mas pela bondade simples e pela superioridade sem afetação. Todas as atenções centralizadas nele, começou a explanação com uma rogativa ao Senhor, suplicando-lhe o dom de compreender o auditório e de ser por ele compreendido. Era tocante e nova para mim semelhante oração, inteiramente espiritual e sem o mínimo laivo de personalismo. Todavia, quanto mais procurava impessoalizar-se, afirmando-se mero instrumento da Vontade Divina, mais destacado se tornava o orientador aos meus olhos, como verdadeiro expoente de sabedoria, humildade, prudência, fidelidade, confiança e luz. Finda a oração comovedora, começou a falar, dirigindo-se aos ouvintes com palavras firmes e diretas: — Irmãos, prosseguindo em nossos trabalhos, comentaremos hoje vossos pedidos de orientação mediúnica, em face das dificuldades que se vos apresentam na luta de cada dia e que classificais como impedimentos de natureza psíquico-fisiológica. Desejais realizações generosas nos domínios da revelação superior, sonhais conquistas gloriosas e edificações sublimes; entretanto, há que corrigir vossas atitudes mentais diante da vida humana. Como intentar construções sem bases legítimas, atingir os fins sem atender aos princípios? Não se reduz a fé a simples amontoado de promessas brilhantes, e o conjunto de ansiedades angustiosas que vos possui os corações, de modo algum, poderia significar a realização espiritual propriamente dita. A edificação do reino interior com a luz divina reclama trabalho persistente e sereno. Não será tão somente ao preço de palavras que erguereis os templos da fé viva. Como acontece a comezinhos serviços de natureza terrestre, é imprescindível a escolha de material, esforços de aquisição, planos deliberados previamente, aplicação necessária, experimentação de solidez, demonstrações de equilíbrio, firmeza de linhas, harmonia de conjunto e primores de acabamento. Alexandre fez ligeira pausa, fixou atentamente a assembleia, como se estivesse a transmitir-lhe ondas vigorosas de magnetismo criador, e prosseguiu: — Reúnem-se aqui muitos irmãos que pretendem desenvolver as percepções mediúnicas; entretanto, aguardam simples expressões fenomênicas, supondo erroneamente que as forças espirituais permanecem circunscritas a puro mecanismo de forças cegas e fatais, sem qualquer ascendente de preparação, disciplina e construtividade. Requerem a clarividência, a clariaudiência, o serviço completo de intercâmbio com os Planos mais elevados; no entanto, terão aprendido a ver, a ouvir e, sobretudo, a servir, na esfera de trabalho cotidiano? Terão dominado todos os impulsos inferiores, para se colocarem no rumo das regiões superiores? Poderá o feto caminhar e falar no Plano físico? Deveríamos conferir à criança de cinco anos direitos cabíveis ao adulto de meio século? Se as leis humanas, ainda transitórias e imperfeitas, traçam linhas de controle aos incapazes, estariam as leis divinas, imutáveis e eternas, à mercê dos desordenados desejos da criatura? Ó meus amigos, sem dúvida, há muitos gêneros e processos mediúnicos em função no mundo das formas em que viveis! Urge, porém, estimar o trabalho antes do repouso, aceitar o dever sem exigências, desenvolver as tarefas aparentemente pequeninas, antes de vos inquietardes pelas grandes obras, e colocar os desígnios do Senhor acima de todas as preocupações individuais! Urge fugir da apropriação indébita no comércio com as forças invisíveis, furtar-se ao encantamento temporário e à obsessão sutil e perversa! Coletivamente, não somos duas raças antagônicas ou dois grandes exércitos, rigorosamente separados através das linhas da vida e da morte, e, sim, a grande e infinita comunidade dos vivos, tão somente diferenciados uns dos outros pelos impositivos da vibração, mas quase sempre unidos para a mesma tarefa de redenção final! Não julgueis que a morte da forma santifique o ser que a habitou! Se o raio de sol não se contamina ao contato do pântano, também o doente rebelde é o mesmo enfermo se apenas troca de residência. O corpo físico representa apenas o vaso em uso, durante algum tempo, e o vaso quebrado não significa redenção ou elevação do seu temporário possuidor. Recorremos a semelhante imagem para dizer-vos que o habitante da Esfera, atualmente invisível aos vossos olhos, é um irmão nem sempre superior a vós outros, nos círculos evolutivos. Desencarnação não expressa santificação. Os companheiros que vos antecedem no Plano espiritual não permanecem reunidos em aprendizagem muito diferente. Os elétrons e fótons que vos constituem a vestimenta física integram, igualmente, os nossos veículos de manifestação, em outras características vibratórias. É necessário, portanto, atentardes para as vossas possibilidades interiores, para as maravilhas de vossa divindade potencial. Em vossos desejos insopitáveis de intercâmbio com o Invisível, naturalmente anelais a aproximação da sociedade celeste. Esperais a revelação da verdade divina, a par de elementos insofismáveis de certeza tranquila; entretanto, para isso, é indispensável organizar e desenvolver vossos valores celestes, como criaturas celestiais que verdadeiramente sois. Todo um exército de trabalhadores do Cristo funciona em cada núcleo de vossas atividades relativas à espiritualização, convocando-vos ao sentimento iluminado, à virtude ativa, ao departamento superior da vida íntima; todavia, é ainda muito forte a vossa tendência de materializar todas as expressões do Espírito, esquecidos de espiritualizar a matéria. Solicitais a luz, quase sempre perseverando nas sombras; reclamais felicidade, semeando sofrimentos; pedis amor, incentivando a separação; buscais a fé, duvidando até de vós mesmos. A possibilidade de comerciar emoções com as Esferas invisíveis que vos rodeiam não representa, de modo algum, a realização espiritual imprescindível à edificação divina de cada um de nós, porque o problema da glória mediúnica não permanece em ser instrumento de determinadas Inteligências, mas em ser instrumento fiel da Divindade. Para que a alma encarnada efetue semelhante conquista é indispensável desenvolva os seus próprios princípios divinos. A bolota é o carvalho potencial. O punhado de sementes minúsculas é o trigal de amanhã. O gérmen insignificante será, em breves dias, a ave poderosa cortando amplidões. Alexandre estava cada vez mais empolgante e mais belo. Do alto, jorravam-lhe sobre a fronte fios irisados de brilhante luz. — Mediunidade, — prosseguiu ele, arrebatando-nos os corações, — constitui “meio de comunicação”, e o próprio Jesus nos afirma: “eu sou a porta… se alguém entrar por mim será salvo e entrará, sairá e achará pastagens”! () Por que audácia incompreensível imaginais a realização sublime sem vos afeiçoardes ao Espírito de Verdade, que é o próprio Senhor? Ouvi-me, irmãos meus!… Se vos dispondes ao serviço divino, não há outro caminho senão Ele, que detém a infinita luz da verdade e a fonte inesgotável da vida!
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Nota: No original, a partir do próximo parágrafo até o término da preleção de Alexandre, os parágrafos estão “entre aspas”.
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