Livros Espíritas
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Todavia, embora soubesse que não nos encontrávamos, ainda, diante da tormenta de forças caóticas desencadeadas sem rumo, confesso que sentia enorme dificuldade para desincumbir-me das obrigações assumidas, em virtude da absoluta despreocupação do acontecimento exterior ao ambiente de serviço. Desde aquele segundo estampido atordoante do firmamento, a Casa Transitória de Fabiano entrou em fase anormal de trabalho. Servidores, embora sob impecável articulação, iam e vinham, apressados. Lá dentro, cogitava-se das derradeiras medidas, com valioso aproveitamento dos minutos. Aparelhos de comunicação funcionavam em ritmo acelerado, anunciando o fato, em direções várias, avisando peregrinos da Espiritualidade superior, a fim de não se aproximarem da zona sob regime de limpeza. Três quartas partes dos colaboradores efetivos de Zenóbia cuidavam das providências alusivas ao voo próximo ou organizavam acomodações para os necessitados que chegariam em bando. Com efeito, justificavam-se as medidas, porque ouvíamos agora ensurdecedora algazarra de multidões que se aproximavam. Sucederam-se outros ribombos ameaçadores, despejando fogo na superfície e energias revolventes no interior do solo que pisávamos. Ondas maciças de sofredores aterrados começaram a alcançar as defesas. Era dolorosa a contemplação da turba amedrontada e expectante. Aproximamo-nos dela, quanto era possível. — Socorro! Socorro! — Conclamavam infelizes em agrupamentos compactos. Ameaçavam-nos outros: — Fujam daqui! Atravessaremos a barreira de qualquer modo! O abrigo nos pertence! Vamos à força! E não se limitavam às palavras. Avançavam, em massa, sobre as faixas horizontais, para recuarem, espavoridos. — Ajudai-nos, por amor de Deus! — Suplicavam os menos atrevidos, — recolhei-nos, por caridade! Seremos perseguidos pelo fogo devorador!… Entretanto, com maior ou menor intensidade, todos os sofredores exibiam escuros círculos de treva em torno de si. Um deles atingiu-nos o círculo de atividade e identifiquei-o. Não havia qualquer dúvida. Postou-se de joelhos, não muito longe de nós, e implorou: — Tende piedade de mim!… As fogueiras ameaçam-me! Penitencio-me! Penitencio-me! Fui pecador, mas espero contar com o vosso auxílio para reabilitar-me! As rogativas sensibilizariam qualquer cooperador menos avisado, mas, prevenidos quanto à senha luminosa, notávamos que o pedinte se cercava de verdadeiro manto de trevas. Dele se aproximou Luciana, quanto pôde. Fixou-o bem, fez significativo gesto e exclamou, espantada, embora discreta: — Oh! Como é horrível a atividade mental deste pobre irmão! Veem-se-lhe no halo vital deploráveis lembranças e propósitos destruidores. Está amedrontado, mas não convertido. Pretende alcançar a nossa margem de trabalho para se apropriar dos benefícios divinos, sem maior consideração. A aura dele é demasiadamente expressiva… Ia dizer mais alguma coisa. Bastou, entretanto, um olhar do Assistente que nos dirigia, para que se calasse, humilde, reintegrando-se no trabalho complexo que tínhamos em mão. Dilatavam-se fogueiras enormes em direções diversas e raios fulgurantes eram metodicamente despejados do céu. Vasta dose de paciência era despendida por todos nós, para conter a multidão furiosa. Impressionavam-nos as formas monstruosas e miseráveis a se arrastarem vestidas de sombra, quando começaram a chegar entidades aureoladas de luz. Trajavam farrapos e traziam comovedores sinais de sofrimento. Dando a perceber que desejavam isolar a mente das centenas de revoltados que ali se congregavam em ativo movimento de insurreição, contemplavam o alto e cantavam hinos de reverência ao Senhor, em regozijo da própria renovação, cânticos esses abafados pela algaravia dos rebeldes agitados. Reparava, pela expressão de quantos iluminados se aproximavam de nós, que se esforçavam por manter o pensamento alheio às objurgatórias dos maus, temendo talvez o interesse mental pelo que emitiam, circunstância criadora de novos laços magnéticos favoráveis à dominação dos verdugos. Intentavam, por isso, alimentar o máximo desprendimento dos apodos que lhes eram lançados pela turba malévola e impenitente. Formavam agrupamentos de formosura singular. Sublimes quadros de paraíso, no inferno de atrozes padecimentos! Vinham, de mãos entrelaçadas, como a permutar energias, a fim de que se lhes aumentasse a força para a salvação, no minuto supremo da batalha que mantinham, talvez, desde muito antes. E esse processo de troca instintiva dos valores magnéticos infundia-lhes prodigiosa renovação de poder, porquanto levitavam, sobrepondo-se ao desvairado ajuntamento. Emolduravam-lhes a fronte belos círculos de luz, com brilho mais ou menos uniforme. Enquanto os tipos de semblante sinistro lhes dirigiam insultos, elas cantavam hosanas ao Cristo, entoando louvores, que, de certo, lembravam os júbilos dos primeiros cristãos, perseguidos e flagelados nos circos, quando se retiravam sob os apupos de espectadores perversos. Todavia, para se acolherem ao asilo de Fabiano, necessitavam pousar, rente a nós, que lhes abríamos passagem prazerosamente. Entretanto, para alcançarem o átrio da instituição, eram compelidas à quebra da corrente de energias magnéticas recíprocas, mantendo-se de mãos separadas, e os recém-chegados, em sua maioria, desvencilhando-se, involuntariamente uns dos outros, tombavam enfraquecidos após prolongado esforço, logo aos primeiros passos na região interna da Casa Transitória. Semelhavam, assim, às aves esgotadas em laboriosa excursão, depois de atingirem o objetivo que as fizera afrontar distâncias e tormentas. Na qualidade de aprendiz incipiente, angustiava-me a observação. Tudo, no entanto, fora previsto pelas autoridades administrativas do instituto. Enfermeiros e macas, em grande número, estacionavam, não longe de nós, fomentando socorros imediatos. Pequenos e admiráveis cordões de entidades, transformadas interiormente pelos dolorosos banhos de pranto santificador, chegavam agora de todos os lados. E as hordas ferozes e irônicas, rodeadas de trevas, multiplicavam-se também, em turbas compactas, ferindo-nos a audição com blasfêmias e injúrias contundentes. Entre os ingratos e rebelados, havia, contudo, criaturas que se mostravam, aflitas e, genuflexas, tocavam-nos o coração fraterno com seus brados de socorro e amargurosas queixas, as quais, porém, não podíamos aliviar com qualquer benefício precipitado, em virtude da perigosa condição mental em que se mantinham, condição que lhes impunha sofrimentos reparadores. Quase quatro horas difíceis se escoaram, exigindo-nos delicada atenção na tarefa. E, agora, a paisagem era mais sufocante, mais terrível… Serpentes de fogo desenovelavam-se dos céus e penetravam o solo, que começou a tremer sob os nossos pés. O calor asfixiava. Sentindo os elementos vacilantes que nos ladeavam, recordei velha descrição do maremoto de Messina, () em que, sob o auge do pavor, diante da Natureza perturbada, não sabiam as vítimas como se colocarem a caminho do salvamento, porquanto, em torno, a terra, o mar e o céu se conjugavam num ciclópico e sincrônico arrasamento. A instituição, através de todos os administradores e auxiliares, operava com indescritível heroísmo. Com franqueza, de minha parte aguardava, ansioso, o sinal de regresso ao interior, tal a impressão desagradável de que me sentia possuído. Fitas inflamadas do firmamento caíam, caíam sempre, em meio de formidáveis explosões, oriundas da desintegração de princípios etéricos… Quando tudo fazia supor que não havia, nas vizinhanças, entidades em condições de serem socorridas, soou a clarinada equivalente ao toque de recolher. Enfim! Suspirei, aliviado. Consoante instruções recebidas, abandonamos os aparelhos electromagnéticos da defensiva, em funcionamento indiscriminado, e afastamo-nos apressadamente. Sorvedouros de chamas surgiam próximos e tamanha gritaria se verificava, em derredor, que tínhamos perante os olhos perfeita imagem de vasta floresta incendiada, a desalojar feras e monstros de furnas desconhecidas. Atravessamos o pórtico do asilo seguidos de todos os companheiros que ainda se conservavam no exterior. Escutávamos, agora, o ruído leve dos motores. Lá fora, espessos bandos de entidades perversas tentavam ainda romper os obstáculos, invadindo-nos o abrigo prestes a partir. Aflitiva inquietude empolgava-me. — Que seria de nós, se a multidão assaltasse o reduto? Por outro lado, a queda contínua de faíscas chamejantes, a meu ver, punha em perigo a organização. Porque não desferir voo imediatamente? Era forçoso considerar, todavia, que dentro do asilo reinava absoluta ordem, não obstante o ritmo apressado do trabalho. Acomodações simples, mas confortadoras, recebiam sofredores extenuados. E serena como sempre, como se estivesse habituada às perturbações externas, a Irmã Zenóbia controlava a situação, ultimando providências. Todas as portas de acesso fácil ao interior foram hermeticamente cerradas. Logo após, a orientadora chamou-nos à vasta sala consagrada à oração e esclareceu que a Casa Transitória, para movimentar-se com êxito, não necessitava apenas de forças elétricas, baseadas em simples fenômenos da matéria diferenciada e, sim, também, de nossas emissões magnético-mentais, que atuariam como reforço no impulso inicial de subida. Zenóbia fora breve, dadas as circunstâncias do momento.
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[Vide: ao uso de itens materiais no Mundo Invisível do Plano Espiritual, como edificações providas dos mais diversos objetos, aparelhos, veículos de transporte, etc.]
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Observação: Para que estes servidores pudessem aguardar no local exato a chegada da Instituição volante, que viajara por mais de três horas consecutivas pelo vastíssimo Umbral, é necessário o uso de algum tipo de Sistema de Posicionamento Global (GPS) para aquela região. Hoje sabemos que, para que um sistema como esse funcione, é preciso que haja a triangulação dos sinais enviados aos satélites de posicionamento global orbitando o planeta. Pois bem! É impossível a existência de uma Instituição como a Casa Transitória e dos mais variados equipamentos utilizados na Espiritualidade sem que exista fábricas para fabricá-los, com os respectivos fornecedores de todo tipo de suprimentos necessários à produção. Esse é um exemplo de como podemos, por uma série de raciocínios lógicos encadeados extrair, de passagens aparentemente insignificantes, importantíssimas informações a respeito da vida no mundo espiritual. — (Nota do Compilador.)
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