Livros Espíritas
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Tamanha humildade assomava-lhe ao ser, naquela hora de grande abatimento, que não se magoaria em receber-lhe a visita junto do “outro”. Porque odiar? Porventura, não lhe ensinava a lição de Jesus que a fraternidade constitui sempre a bênção do Altíssimo? Quem seria mais culpado? Ele, que mantinha dobrada indiferença para com as exigências afetivas da companheira, pelo arraigado devotamento à fé, ou aquele homem, despreocupado de qualquer responsabilidade, que a recolhera, talvez em desesperação? Se pugnara sempre pela prática da caridade, por que motivo ele, Cavalcante, faltara com a necessária demonstração, portas a dentro do próprio lar? Em verdade, as sugestões sublimes da fé religiosa inflamaram-lhe o espírito de amor universal. Não tolerava a sufocação do idealismo ardente. Ninguém poderia reprová-lo. Mas, se era esse o caminho escolhido, que razões o levaram a desposar pobre criatura, incapaz de apreender-lhe a fome de luz? Por que fizera firmes promessas a um coração feminino, ciente de que ele não poderia atendê-las? A dor desenha a tela da lógica no fundo da consciência, com muito mais nitidez que todos os compêndios do mundo. A morte próxima enchia aquela alma formosa de sublimes reflexões. Entretanto, o medo alojara-se dentro dela como sicário invisível. Cavalcante, que via tão bem na paisagem dos sentimentos humanos, permanecia cego para o “outro lado da vida”, de onde tentávamos auxiliá-lo, em vão. Jerônimo poderia aplicar-lhe recursos extremos, mas absteve-se. Inquirido por mim acerca de seus infindos cuidados, explicou, muito calmo: — Ninguém corte, onde possa desatar… A resposta calou-me fundo. Debalde, porém, procurou-se prodigalizar ao doente a trégua do sono preparatório e reconfortador. Cavalcante reagia, insistente. Sentindo-nos a aproximação e interferência, de leve, fazia apressados movimentos labiais, recitando orações em que implorava a graça de ver a companheira, antes de morrer. — Desventurado irmão! — Comentou Bonifácio, comovido, — não sabe que a consorte desencarnou há mais de ano, num catre, vítima de uma infecção luética. Jerônimo não se moveu, mas lutei contra mim para não disparar interrogações, a torto e a direito, em busca de pormenores. Coibi-me, felizmente. A hora não comportava perguntas inúteis. Meu Assistente, como se houvera recebido a mais natural das informações, dirigiu a palavra ao companheiro, recomendando: — Bonifácio, nosso amigo não pode suportar por mais tempo a existência do corpo carnal. A máquina rendeu-se. Dentro de algumas horas, a necrose ganhará terreno e precisamos libertá-lo. Teima em agarrar-se à carne apodrecida e pede, comovedoramente, a presença da esposa. Já tentamos auxiliá-lo a desprender-se, afrouxando os laços da encarnação no plexo solar, mas ele reage com espantoso poder. Resolvi, em vista disso, abrir pequenos vasos do intestino para que a hemorragia se faça ininterrupta, até à noite, quando efetuaremos a liberação. Peço a você trazer-lhe a companheira desencarnada, por instante, até aqui. O enfraquecimento físico acentuar-se-á vertiginosamente, de ora em diante, e, com espaço de algumas horas, as percepções espirituais de Cavalcante se farão sentir. Verá, desse modo, a esposa, antes do decesso que se aproxima e dormirá menos inquieto. Bonifácio pôs-se pronto para cumprir a ordem e assegurou integral cooperação. Logo após, o Assistente operou, cauteloso, sobre a região intestinal, rompendo certas veias de menor importância, atenuando-lhe a capacidade de resistência. Ausentar-nos-íamos, por breves horas, considerando que o relógio assinalava poucos minutos além do meio-dia. Antes, porém, de nos afastarmos, observando o quadro emocionante da enfermaria gratuita, a que o moribundo se recolhera, perguntei a Jerônimo, admirado: — Já que o nosso tutelado se enfraquecerá, a ponto de fazer observações no Plano invisível aos olhos mortais, chegará a ver também as paisagens de vampirismo que me impressionam no recinto? — Sim. — Informou o orientador com espontaneidade. — Oh! Mas terá energia suficiente para tudo ver sem perturbar-se? — Não posso garantir, — respondeu, sorrindo. — Naturalmente qualquer Espírito encarnado, diante de um quadro desses, poderia ser vítima de loucura e, possivelmente, atravessaria algumas poucas horas em franco desequilíbrio, dada a novidade do espetáculo. Quando a luz aparece, em determinado Plano, onde a criatura esteja “apta para ver”, tanto se enxerga o pântano como o céu. Questão de claridade e sintonia, simplesmente. A notícia pôs-me frêmitos de piedade. A enfermaria estava repleta de cenas deploráveis. Entidades inferiores, retidas pelos próprios enfermos, em grande viciação da mente, postavam-se em leitos diversos, infligindo-lhes padecimentos atrozes, sugando-lhes vampirescamente preciosas forças, bem como atormentando-os e perseguindo-os. Desde o serviço inicial do tratamento de Cavalcante, desagradaram-me tais demonstrações naquele departamento de assistência caridosa e cheguei mesmo a consultar o Assistente quanto à possibilidade de melhorar a situação, mas Jerônimo informou, sem estranheza, que era inútil qualquer esforço extraordinário, pois os próprios enfermos, em face da ausência de educação mental, se incumbiriam de chamar novamente os verdugos, atraindo-os para as suas mazelas orgânicas; só nos competindo irradiar boa vontade e praticar o bem, tanto quanto fosse possível, sem, contudo, violar as posições de cada um. Confesso que experimentava enorme dificuldade para desempenhar os deveres que ali me retinham, porquanto as interpelações de infelizes desencarnados atingiam-me insistentemente. Pediam toda a sorte de benefícios, reclamavam melhoras, explodiam em lamúrias sem fim. Sereno e forte, o meu orientador conseguia trabalhar de mente centralizada na tarefa, inacessível às perturbações exteriores. Quanto a mim, entretanto, não alcançara ainda semelhante poder. Os pedidos, os lamentos, os impropérios, feriam-me a observação, impedindo-me de conservar a paz íntima. Por isso mesmo, ao me retirar, pensei na surpresa amargurosa do moribundo, ao se lhe abrir a cortina que lhe velava a visão espiritual. Aguardei, curioso, o cair da noite, quando, em companhia do orientador, atravessei, de volta, o pórtico do hospital. Cavalcante avizinhava-se do coma. O sangue alagava lençóis, que eram substituídos repetidamente. O enfraquecimento geral progredia, rápido. O agonizante inspirava dó. Abriram-se-lhe certos centros psíquicos, no avançado abatimento do corpo, e o infeliz passou a enxergar os desencarnados que ali se encontravam, não longe dele, na mesma esfera evolutiva. Não nos identificava, ainda, a presença, como seria de desejar, mas observava, estarrecido, a paisagem interior. Outros enfermos encaravam-no, agora, amedrontados. Para todos eles, o colega de sofrimento delirava, inconsciente. — Estarei no inferno ou vivemos em casa de loucos? — Bradava sob horrível tormento moral. — Oh! Os demônios! Os demônios!… Vejam o “espírito mau” roendo chagas!… E, de facies contraída, apontava mísero ancião de pernas varicosas. — Oh! Que diz ele? — Prosseguia com visível espanto, — diz que não é o diabo, afirma que o doente lhe deve… Ouvidos à escuta, silenciava, ansioso por registrar as palavras impensadas e criminosas do algoz desencarnado, mas, não conseguindo, desabafava-se em gritos lamentosos, infundindo compaixão. Não fora a fraqueza invencível, ter-se-ia levantado com impulsos de louco. Doentes e enfermeiros, alarmados, optavam pela remoção do moribundo. Tinham medo. Cavalcante desvairava. Consolavam-se, todavia, na expectativa de que a hemorragia abundante prenunciasse termo próximo. Jerônimo ministrou-lhe, então, piedosamente, recursos de reconforto, e o agonizante aquietou-se, devagarinho… Não se passou muito tempo e Bonifácio entrou conduzindo verdadeiro fantasma. A ex-consorte, convocada à cena, semelhava-se, em tudo, a sombra espectral. Não via o nosso cooperador, mas obedecia-lhe à ordem. Penetrou o recinto, arrastando-se, quase. Satisfazendo o guia, automaticamente, veio ter ao leito de Cavalcante, fitou-o com intraduzível impressão de horror e gritou, longamente, perturbando-lhe a hora de alívio. O moribundo voltou-se e viu-a. Alegre sorriso estampou-se-lhe no escaveirado rosto. — Pois és tu, Bela? Graças a Deus, não morrerei sem pedir-te desculpas!… A ternura com que se dirigia a tão miserável figura causava compaixão. A esposa abeirou-se do leito, tentando ajoelhar-se. Ouvindo-o, assombrada, retrucou, aflita: — Joaquim, perdoa-me, perdoa-me!… — Perdoar-te de quê? — Replicou ele, buscando inutilmente afagá-la. Eu, sim, fui injusto contigo, abandonando-te ao léu da sorte… Por favor, não me queiras mal. Não te pude compreender noutro tempo e facilitei-te o passo em falso, colaborando, impensadamente, para que te precipitasses em escuro despenhadeiro. Não entendi o problema doméstico tanto quanto devia… Hoje, porém, que a morte me busca, desejo a paz da consciência. Confesso minha culpa e rogo-te perdão… Desculpa-me… Falava vencendo enormes obstáculos. No entanto, notava-se que aquele entendimento lhe fazia imenso bem. A mente apaziguara-se-lhe. Contemplava a esposa, reconhecido, quase feliz. — Ó Joaquim! — Suplicou a mísera, — perdoa-me! Nada tenho contra ti. O tempo ensinou-me a verdade. Sempre foste meu leal amigo e dedicado irmão! O moribundo escutou-a, esboçando expressão fisionômica de intensa alegria. Fitou-a, em êxtase, totalmente modificado e murmurou: — Agora, estou satisfeito, graças a Deus!…
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