Livros Espíritas
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E possivelmente convicta da necessidade de argumentação mais firme para demover-nos, acrescentou: — Que seria do Cristianismo se Jesus abandonasse o madeiro do testemunho, a meio caminho, a fim de entrar em pugilato com a multidão? Permanecemos aqui em tarefa consoladora e educativa, não o esqueçamos. O serviço de punição dos culpados virá de Mais Alto. A referência despertou-nos, de pronto, para o caráter elevado da investidura. As almas efetivamente superiores possuem o dom de projetar-nos o espírito em zonas sagradas da vida, reintegrando-nos na corrente inspiracional das Forças Divinas que sustentam o Universo. A hora não comportava qualquer dissertação mais longa, a respeito das obrigações que nos competiam desempenhar. Sem perda de tempo, a diretora da Casa Transitória entrou em combinação com os auxiliares que havia trazido, desenrolando extenso material socorrista. Iam as providências em meio, quando variados grupos de infelizes tentaram vencer o obstáculo, ansiosos por se reunirem a nós outros; mas os verdugos, agindo, solertes, golpeavam-nos cruelmente, empenhando-se em luta para precipitá-los ao fundo do fosso tenebroso, do qual fugiam as vítimas, tomadas de visível terror. Ativa, delicada, Zenóbia determinou que fossem lançadas faixas luminosas de salvação ao outro lado, no propósito de retirarmos o número possível de sofredores de tão amargurosa situação; todavia, a ordem seguiu-se de odiosa represália. Os gênios diabólicos fizeram-se mais duros. Acorreram míseras almas, aos magotes, buscando agarrar-se às extremidades resplandecentes, descidas na margem oposta, como bordos de acolhedora ponte de luz; no entanto, multiplicaram-se golpes e pancadas. Entidades perversas, em grande número, continham os aflitos prisioneiros, impedindo-lhes o salvamento, com manifesto recrudescimento de maldade. Nosso esforço persistiu por longos minutos, ao fim dos quais, observando que redundavam inúteis, apenas favorecendo a dilatação da agressividade dos algozes, a Irmã Zenóbia, mantendo-se em grande serenidade, determinou fosse recolhido o material utilizado para os trabalhos de salvação. Às rogativas chorosas das vítimas, casavam-se as frases injuriosas dos verdugos, confrangendo-nos o coração. Após a recomposição do material, improficuamente utilizado, a devotada orientadora acenou para um servidor que lhe trouxe pequenino aparelho, destinado à ampliação da voz, e falou, pausadamente, na direção do abismo: — Irmãos em humanidade, reine conosco a Paz Divina! Sua palavra adquirira impressionante poder de repercussão. Ecoava, longe, como se fosse endereçada às almas que, porventura, se mantivessem dormindo a consideráveis distâncias. Sem qualquer demonstração de impaciência ou desagrado, continuou: — Regozijai-vos, ó corações de boa vontade! E confiai, sobretudo, na proteção de Nosso Senhor Jesus. Dilaceram-nos vossas dores, tocam-nos, de perto, as incompreensões e sofrimentos a que vos entregastes, apartados da Lei Divina, e se não atravessamos o fosso negro, na tentativa suprema de salvar-vos temporariamente do mal, é que somos igualmente companheiros de luta, sem imunidades angélicas, detentoras de possibilidades limitadas no amparo aos semelhantes! Alegrai-vos, porém, e aguardai, confiantes, porque se manifestará, em nosso benefício, o fogo consumidor, nesta região menos feliz, onde tantas inteligências perversas tripudiam sobre os mandamentos do Pai e menosprezam-Lhe as bênçãos de luz. Amanhã mesmo, demonstrar-se-á o Supremo Poder. Fez pequena pausa e prosseguiu: — Faz mais de um lustro que a Casa Transitória de Fabiano persevera nestas zonas de treva e sofrimento, convocando almas perdidas ao aproveitamento da bendita oportunidade do recomeço, através do trabalho dignificador, em cujas bênçãos há sempre recursos de apagar as manchas do pretérito, regenerando-se caminhos, à frente do porvir. Há cerca de dois mil anos ensinamos o bem e a verdade, preparando corações para o futuro redentor. Se é inegável que muitos irmãos se valeram de nosso concurso humilde, aceitando o remédio para a restauração, a maioria de vós outros sempre nos fugiu à influência, desdenhando-nos o socorro, abjurando-nos a colaboração, desestimando-nos os serviços, favorecendo a discórdia e a perseguição e oferecendo-nos obstáculos de toda sorte. Entretanto, meus amigos, o pouso de Fabiano ainda se coloca ao vosso dispor, até amanhã, durante as primeiras horas. Ante a grave inflexão daquela voz e considerando talvez o teor do aviso, calaram-se as bocas pervertidas e desequilibradas. Os mais perversos passaram a contemplar-nos, entre o receio e a interrogação. Depois de curto intervalo, Zenóbia prosseguiu, fundamente emocionada: — Não lutamos corpo a corpo com a ignorância audaciosa e infeliz, porque a delegação que o Mestre nos confiou traça-nos deveres de amor e não de porfia. Fomos designados para ministrar o bem e lamentamos que irmãos horrivelmente desventurados nos ofereçam resistência, mergulhando-se no pântano da revolta pessoal. Não temos, porém, qualquer palavra condenatória. Os que tentam escapar às Leis Eternas são bastante infortunados por si mesmos. Amarga ser-lhes-á a colheita da triste semeadura. Gastarão longo tempo extraindo espinhos envenenados, introduzidos por eles próprios no coração. Por que combatê-los se estão vencidos, desde o primeiro repto à Divindade? Por que torturá-los, se permanecem perseguidos pelos fantasmas criados pela própria rebeldia e insensatez? O Poderoso Senhor, porém, que ama os justos e retifica os injustos, fará com que amanhã surja neste céu a tempestade renovadora. O asilo de Fabiano receberá criaturas de boa vontade, dentro das horas próximas; todavia, será inútil procurar-lhe o socorro sem modificação substancial para o bem. Sofredor algum será recolhido tão só porque implore abrigo com os lábios. Nossa casa de paz cristã é igualmente templo de trabalho cristão e a hipocrisia não lhe pode alterar o ministério santificador. Nossas defesas magnéticas funcionarão rigorosas e apenas os corações sinceramente interessados na renovação própria, em Cristo Jesus, serão portadores de senha indispensável ao ingresso. Debalde, rogarão socorro as entidades endurecidas no crime e na indiferença. Os algozes fixavam as vítimas com expressão odiosa. A Irmã Zenóbia, contudo, prosseguiu, intrépida, dirigindo-se especialmente aos infortunados: — Suportai os verdugos cruéis por mais algumas horas e valei-vos da oração para que não vos faltem energias interiores. Não temos necessidade da luta corporal, nem da defensiva destruidora e, sim, da resistência que o Divino Mestre exemplificou. Tolerai os inimigos gratuitos do bem, desesperados e infelizes, que nos perseguem e maltratam, orando por eles, porque o Poder Renovador se manifestará, convidando, por intermédio do sofrimento, a que se arrependam e se convertam. Em seguida, expressando otimismo e felicidade nos olhos lúcidos, a orientadora ergueu comovente súplica pelos habitantes do abismo, a qual acompanhamos com lágrimas de emoção. Semblantes angustiados seguiam-nos, atentos, na outra margem, enquanto os impenitentes adversários da luz guardavam silêncio. Entrementes, os encarcerados na dor continuaram implorando auxílio, mas, atendendo as determinações da Irmã Zenóbia, apagamos as luzes, pondo-nos de volta. De outras vezes, ao término dos incidentes que me surpreendiam, conservava uma imensidade de indagações no cérebro ágil e curioso. Agora, todavia, regressava tristemente. A extensão da luta compungia-me o ser. Os padecimentos da ignorância, de fato, não tinham limites e todo abuso do livre arbítrio individual encontrava punição espontânea nas leis universais. Certo, em diferentes lugares, outros abismos como aquele estariam repletos de vítimas e verdugos. Ah! Também eu guardava no vaso do coração todos os ressaibos das vicissitudes humanas! Também eu sofrera muito e havia feito sofrer! Reminiscências vigorosas da existência carnal jaziam vivas em mim. De alma voltada em silêncio para o Cristo de Deus, meditei-lhe a grandeza do sacrifício sublime e, pensando nos cruéis perseguidores e nos pobres perseguidos do vale escuro, perguntava ao Senhor, na intimidade do coração frágil e oprimido, por quem deveria eu chorar mais intensamente.
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