Livros Espíritas
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Recolhi-me à intimidade doméstica, de que me ausentava tão somente para as estações de entretenimento e repouso, então, mais que nunca, chafurdado na sovinice, porquanto acompanhei o inventário de minha mãe, com vigilância tão rigorosa que as minhas estranhas atitudes chegaram a surpreender meu próprio pai, egoísta e displicente, mas nunca avarento quanto eu. Compreendi que a fortuna herdada me situava, para meu infortúnio moral, a cavaleiro de qualquer necessidade da vida física, por largos anos, desde que não me confiasse à dissipação… Ainda assim, quando vi meu genitor inclinado às segundas núpcias, quase aos sessenta de idade, fiz quanto pude, indiretamente, para dissuadi-lo, afastando-o de tal intento. Ele, todavia, era um homem resoluto nas decisões e desposou Aída, uma jovem da minha idade, que mal se avizinhava dos trinta anos… Recebi a madrasta como intrusa em nosso campo doméstico, e, tomando-a por aventureira comum, à caça de fortuna fácil, jurei vingar-me. Apesar das carinhosas requisições do casal e não obstante o tratamento gentil que a pobre moça me dispensava, exibia sempre um pretexto para fugir-lhe à convivência. O novo matrimônio, no entanto, passou a exigir do esposo mais dilatados sacrifícios no mundo social de que Aída não pretendia afastar-se, e foi assim que, ao término de alguns meses, meu genitor era obrigado a procurar o socorro médico, recolhendo-se, então, a necessário repouso. Acompanhava-lhe a decadência orgânica, tomado de vivas apreensões. Não era a saúde paterna que me feria a imaginação, mas sim a extensa reserva financeira de nossa casa. Na hipótese do súbito falecimento do homem que me trouxera à existência, de modo algum me resignaria a partilhar a herança com a mulher que, aos meus olhos, indebitamente ocupava o espaço de minha mãe. O Assistente fez longa pausa, enquanto lhe fixávamos o semblante melancólico. De mim mesmo, atônito, diante do que me era dado ouvir, indagava, no íntimo, se tudo aquilo de fato se passara… Fora Silas realmente o homem a quem se reportava ou compunha ele aquela história para alterar o ânimo dos perseguidores? Contudo, não me foi possível desfechar qualquer interrogação, porquanto o nosso amigo, como que desejoso de castigar-se com a dolorosa confissão, prosseguiu, pormenorizando: — Passei a arquitetar planos delituosos, quanto à melhor maneira de alijar Aída de qualquer possibilidade de ingresso futuro ao nosso patrimônio, sem melindrar meu pai doente… E nos projetos criminosos que me visitavam a cabeça, a própria morte da madrasta comparecia como solução. Entretanto, como suprimi-la sem causar maior sofrimento ao enfermo que eu desejava conservar?… Não seria aconselhável desmoralizá-la, antes de tudo, aos olhos dele, para que não padecesse qualquer saudade da mulher, condenada por mim à desvalia? Tramava no silêncio e na sombra, quando a ocasião esperada veio ao meu encontro… Convidado a comparecer com a esposa numa festividade pública, meu pai chamou-me e insistiu para que eu acompanhasse Aída, representando-lhe a autoridade… Pela primeira vez, acedi com prazer… Pretendia conhecer-lhe agora, de mais perto, as afeições… Funestos propósitos nasciam-me no crânio… Desse modo, durante alegre ágape, tomei contato com Armando, primo de minha madrasta e que a cortejara em solteira. Armando era um rapaz pouco mais velho que eu, perdulário e fanfarrão, que dividia o tempo entre mulheres e taças espumantes, a quem contrariamente aos meus hábitos, ofereci premeditada comunhão afetiva… Tanto quanto possível, dominando moralmente o ânimo de meu pai, desde então o associei ao nosso campo doméstico, favorecendo-lhe o mais amplo retorno à intimidade com a criatura de quem se havia enamorado, anos antes. A praia, o teatro, a ópera, bem como passeios de variados matizes, eram agora os pontos costumeiros de nossa presença, nos quais intencionalmente eu atirava os dois primos nos braços um do outro… Aída não me percebeu a manobra e, embora resistisse, por mais de um ano, à galanteria do companheiro, acabou por ceder à constante ofensiva dele… Fingi desconhecer-lhes as relações até que eu pudesse conduzir meu pai ao testemunho direto dos acontecimentos… Inventava jogos e distrações para reter o sedutor em nossa casa… Captei-lhe a confiança absoluta, de modo a usá-lo como peça importante em meu criminoso ardil e, certa noite, em que, cauteloso, aparentei completa ausência de nosso templo familiar, sabendo os amantes segregados em determinado aposento contíguo ao meu, procurei meu pai em sua dependência de enfermo e, mascarando-me com intensa dignidade ofendida, chamei-o a brios, numa exposição sintética dos fatos… Lívido e trêmulo, o doente exigiu provas e nada mais fiz que conduzi-lo, cambaleante, até à porta do quarto, cujo fecho eu próprio deixara enfraquecido… Bastou um empurrão mais forte e meu genitor, desolado, encontrou o flagrante que eu desejava… Armando, cínico, não obstante o desapontamento, afastou-se, lépido, ciente de que não poderia esperar qualquer golpe grave de um sexagenário abatido… Minha madrasta, porém, profundamente ferida em seu amor próprio, dirigiu ao velho esposo acusações humilhantes, procurando os seus aposentos particulares, numa explosão de amargura. Completando a obra terrível a que me devotara, mostrei-me mais carinhoso para com o enfermo, intimamente aniquilado… Duas semanas arrastaram-se pesadas para a nossa equipe familiar… Enquanto Aída ocupava o leito, assistida por dois médicos de nossa confiança, que nem de longe nos conheciam a tragédia oculta, afagava meu pai com lamentações e sugestões indiretas para que os bens de nossa casa fossem, na maioria, guardados em meu nome, já que o segundo matrimônio não poderia desfazer-se, perante as autoridades legais. Prosseguia em minha faina delituosa, quando minha madrasta apareceu morta… Os clínicos de nossa amizade positivaram um envenenamento fulminante e, constrangidos, notificaram a meu pai tratar-se de um suicídio, decerto motivado pela insofreável neurastenia de que a doente se via objeto. Meu genitor estava mais sombrio nos aparatosos funerais, contudo, em meus destruidores propósitos, regozijei-me… Agora, sim… a fortuna total de nossa casa passaria a pertencer-me… Minha satânica alegria, porém, durou muito pouco… Desde a morte da segunda mulher, meu pai acamou-se para não mais se erguer… Debalde, médicos e padres amigos procuraram oferecer-lhe melhoras e consolações… Ao fim de dois meses, meu pai, que nunca mais sorriu, entrou em dolorosa agonia, na qual, através de confidência entrecortada de lágrimas, me confessou haver envenenado Aída, administrando-lhe violento tóxico no calmante habitual. Isso, no entanto — assegurava-me vencido — impunha-lhe também a morte, de vez que não conseguia perdoar a si mesmo, passando a carregar consigo um fardo de remorso constante e intolerável… Pela primeira vez, minha consciência doeu, fundo. O apego aos bens da carne arrasava-me a vida… O velho querido morreu nos meus braços, crendo que os meus soluços de arrependimento fossem pranto de amor. Deixando-lhe o corpo fatigado na terra fria, tornei a nossa casa solarenga, sentindo-me o mais infortunado dos seres… O ouro integral do mundo não me garantiria agora o mais leve consolo. Achava-me sozinho, sozinho e… infinitamente desgraçado. Todos os recantos e pertences de nossa habitação falavam-me de crime e remorso… Muitas vezes, a sombra noturna pareceu-me povoada de fantasmas horripilantes a escarnecerem de minha dor, e, em meio da malta de insensíveis demônios, a investirem contra mim, tinha a ideia de escutar a voz inconfundível de meu pai, clamando para minhalma: — “Meu filho! Meu filho! Recua enquanto é tempo”. Fiz-me arredio, desconfiado… Em pavorosa crise moral, demandei à Europa, em longa viagem de recreio, mas o encanto das grandes cidades do Velho Mundo não conseguiu aliviar-me as chagas interiores. Em toda a parte, a refeição mais nobre amargava-me na boca e os mais belos espetáculos artísticos deixavam-me apenas ansiedade e desolação. Regressei ao Brasil, mas não tive coragem de retomar a intimidade com a nossa antiga residência. Amparado pela afeição de velho amigo de meu genitor, aceitei-lhe o acolhimento, por alguns dias, até que minha saúde orgânica me permitisse pensar numa transformação radical da existência… Embalado pelo carinho familiar daquele amigo, deixei que longos meses passassem, tentando imerecida fuga mental… Até que, numa noite inolvidável para mim, na qual minha gastralgia se transformara num azorrague de dor, tomei de um frasco de arsênico na adega de meu anfitrião, acreditando usar o bicarbonato de sódio que ali deixara na véspera, e o veneno expulsou-me do corpo, impondo-me sofrimentos terríveis… Qual acontecera à minha madrasta, que desencarnara em padecimentos atrozes, eu também passei pela morte em condições análogas… E os amigos que me asilavam no templo doméstico, desconhecendo o equívoco de que eu fora vítima, admitiram, sem qualquer sombra de dúvida, que eu buscara no suicídio a extinção das penas morais que me castigavam a alma de “moço rico e entediado da vida”, segundo a versão a que deram curso. Silas relanceou o olhar tristonho sobre nós, como quem procurava o efeito de suas palavras, e prosseguiu: — Isso, porém, não bastou para ressarcir minhas tremendas culpas…
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[No rodapé da página 114, da 1ª edição desse livro, há uma (Nota da Editora). Ela foi redigida por nós com algumas correções: “Silas, citando o , para ser mais facilmente compreendido por aqueles Espíritos cheios de ódio, aos quais repugnaria o verbo “amar”, substituiu-o por “Ajudar”. Eles se rebelariam diante do texto completo. Seria inabilidade falar em “amar” naquele momento; mas “ajudar” a pagar foi bem aceito, porque eles queriam receber.”]
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