Livros Espíritas
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Fazer reparos a Barnabé seria ingratidão e indisciplina; concordar com o sorriso dos compatrícios perseverantes nos erros do fingimento fari saico seria negar fidelidade ao Evangelho. Procurou resignar-se e esperou. A missão percorreu numerosas localidades, entre vibrações de largas simpatias. Em Amatonte, os men sageiros da Boa Nova demoraram mais de uma semana. A palavra de Barnabé era profundamente contempori zadora. Caracterizava-se, em tudo, pelo grande cuidado, de não ofender os melindres judaicos. Depois de grandes esforços, chegaram a Nea -Pafos, onde residia o Procônsul. A sede do Governo provincial era uma formosa cidade cheia de encantos naturais e que se assinalava por sólidas expressões de cultura. O discípulo de Pedro, porém, estava exausto. Nunca tivera labores apostólicos tão intensos. Conhecendo a deficiên cia do verbo de Saulo nos serviços da igreja de Antioquia, temia confiar ao ex -rabino as responsabilidades dire tas do ensinamento. Não obstante sentir-se cansadíssimo, fez a pregação na sinagoga, no sábado imediato à che gada. Nesse dia, entretanto, ele estava divinamente ins pirado. A apresentação do Evangelho foi feita com raro brilhantismo. O próprio Saulo comoveu-se profundamente. O êxito foi inexcedível. A segunda assembléia reuniu os elementos mais finos; judeus e romanos aglo meravam-se ansiosos. O ex-levita fez nova apologia do Cristo, bordando conceitos de maravilhosa beleza espi ritual. O ex-doutor da Lei, com os trabalhos informativos da missão, atendia prazerosamente a todas as consultas, pedidos, informações. Nenhuma cidade manifestara ta manho interesse, quanto aquela; os romanos, em grande número, iam solicitar esclarecimentos quanto aos obje tivos dos mensageiros, recebiam notícias do Cristo, reve lando júbilos e esperanças; desfaziam -se em gestos de espontânea bondade. Entusiasmados com o êxito, Saulo e Barnabé organizaram reuniões em casas particulares, especialmente cedidas para esse fim pelos simp atizantes da doutrina de Jesus, onde encetaram formoso movimento de curas. Com alegria infinita, o tecelão de Tarso viu chegar a extensa fileira dos “filhos do Calvário”. Eram mães atormentadas, doentes desiludidos, anciães sem ne nhuma esperança, órfãos sofredores, que agora procura vam a missão. A notícia das curas julgadas impossíveis encheu Nea -Pafos de grande assombro. Os missionários impunham as mãos, fazendo preces fervorosas ao Mes sias Nazareno; de outras vezes, distribuiam água pura, em seu nome. Extremamente cansado e achando que o novo auditório não requeria maior erudição, Barnabé encarregou o companheiro das pregações da Boa Nova; mas, com grande surpresa, verificou que Saulo se modi ficara radicalmente. Seu verbo parecia inflamado de nova luz; tirava do Evangelho ilações tão profundas que o ex levita o escutava agora sem dissimular o próprio espanto. Notava, particularmente, o carinho do ex -doutor no apresentar os ensinamentos do Cristo aos mendigos e sofredores. Falava como alguém que houvesse convivido com o Senhor, por largos anos. Referia -se a certos lances das lições do Mestre com um manancial de lágri mas nos olhos. Prodigiosas consolações derramavam-se no espírito das turbas. Dia e noite, havia operários e estudiosos copiando as anotaçõe s de Levi. Os acontecimentos abalaram a opinião da cidade em peso. Os resultados eram os mais confortadores. Foi quando enorme surpresa chegou ao Espírito dos missionários. A manhã ia alta. Saulo atendia a numerosos neces sitados quando um legionário romano se fez anunciar. Barnabé e o companheiro deixaram os serviços en tregues a João Marcos e foram atender. — O Procônsul Sérgio Paulo — disse o mensageiro, solene — manda convidar-vos a visitá-lo em palácio. A mensagem era muito mais uma ordem que sim ples convite. O discípulo de Simão compreendeu de pronto e respondeu: — Agradecemos de coração e iremos ainda hoje. O ex-rabino estava confuso. Não só o conteúdo político do fato surpreendia o, sobremaneira. Em vão, procurava recordar -se de alguma coisa. Sérgi o Paulo? Não conheceria alguém com esse nome? Buscou relem brar os jovens de origem romana, do seu conhecimento. Afinal, veio -lhe à memória a palestra de Pedro sobre a personalidade de Estevão e concluiu que o Procônsul não podia ser outro senão o salvador do irmão de Abigail. Sem comunicar as íntimas impressões a Barnabé, examinou a situação em sua companhia. Quais os obje tivos da delicada íntimação? Segundo a voz pública, o chefe político vinha sofrendo pertinaz enfermidade. De sejaria curarse ou, quem sabe, provocar um meio de expulsá -los da ilha, induzido pelos judeus? A situação, entretanto, não se resolveria por conjeturas. Incumbindo João Marcos de atender a quantos se interessassem pela doutrina, no referente a informes necessários, os dois amigos puseram-se a caminho, resolutamente. Conduzidos através de galerias extensas, foram dar com um homem relativamente moço, deitado em largo divã e deixando perceber extremo abatimento. Magro, pálido, revelando singular desencanto da vida, o Procônsul entremostrava, todavia, uma bondade imensa na suave irradiação do olhar humilde e melancólico. Recebeu os missionários com muita simpatia, apre sentando-lhes um mago judeu de nome Barjesus, que de longa data o vinha tratando. Sérgio Paulo, prudentemente, mandou que os guardas e servos se retirassem. Apenas os quatro se viram a sós, em círculo muito íntimo, falou o enfermo com amarga serenidade: — Senhores, diversos amigos me deram notícia dos vossos êxitos nesta cidade de Nea-Pafos. Tendes curado moléstias perig osas, devolvido a fé a inúmeros descrentes, consolado míseros sofredores... Há mais de um ano venho cuidando de minha saúde arruinada. Nestas con dições, estou quase inutilizado para a vida pública. Apontando Barjesus que, por sua vez, fixava o olhar malic ioso nos visitantes, o chefe romano pros seguiu: — Há muito contratei os serviços deste vosso con terrâneo, ansioso e confiante na ciência de nossa época, mas os resultados têm sido insignificantes. Mandei cha mar-vos, desejoso de experimentar os vossos conhecimentos. Não estranheis minha atitude. Se pudesse, teria ido procurar vos em pessoa, pois conheço o limite de minhas prerrogativas; como vedes, porém, sou antes de tudo um necessitado. Saulo ouviu aquelas declarações, profundamente co movido pela bondade natural do ilustre enfermo. Bar nabé estava atônito, sem saber o que dizer. O ex-doutor da Lei, entretanto, senhor da situação e quase certo de que a personagem era a mesma que figurava na exis tência do mártir vitorioso, tomou a palavra e disse convictamente: — Nobre Procônsul, temos conosco, de fato, o poder de um grande médico. Podemos curar, quando os enfer mos estejam dispostos a compreendê-lo e segui-lo. — Mas quem é ele? — perguntou o enfermo. — Chama-se Cristo Jesus. Sua fórmula é sagrada — continuava o tecelão, com ênfase — e destina-se a medicar, antes de tudo, a causa de todos os males. Como sabemos, todos os corpos da Terra terão de morrer. Assim, por força de leis naturais inelutàveis, jamais teremos, neste mundo, absoluta saúde física. Nosso organismo sofre a ação de todos os processos ambientes. O calor incomoda, o frio nos faz tremer, a alimentação nos modifica, os atos da vida determinam a mudança dos hábitos. Mas o Salvador nos ensina a procurar uma saúde mais real e preciosa, que é a d o espírito. Possuindo-a, teremos transformado as causas de preocupação de nossa vida, e habilitamo -nos a gozar a relativa saúde física que o mundo pode oferecer nas suas expressões transitórias. Enquanto Barjesus, irônico e sorridente, escutava o Intróito , Sérgio Paulo acompanhava a palavra do ex -rabino, atento e comovido: — Contudo, como encontrar esse médico? — perguntou o Procônsul, mais preocupado com a cura do que com o elevado sentido metafísico das observações ouvidas. — Ele é a bondade perfeita — esclareceu Saulo de Tarso — e sua ação consoladora está em toda parte. Antes mesmo que o compreendamos, cerca nos com a expressão do seu amor infinito!... Observando o entusiasmo com que o missionário tarsense falava, o chefe político de Nea-Pafos buscou a aprovação de Barjesus com olhar indagador. O mago judeu, evidenciando profundo desprezo, ex clamou: — Julgávamos que estivésseis aparelhados de algu ma ciência nova... Não quero acreditar no que ouço. Acaso me supondes um ignorante, relativamente ao falso profeta de Nazaré? Ousais franquear o palácio de um governador, em nome de um miserável carpinteiro? Saulo mediu toda a extensão daquelas ironias, res pondendo sem se intimidar: — Amigo, quando eu afivelava a máscara farisaica, também assim pensava; mas, agora, conheço a gloriosa luz do Mestre, o Filho do Deus Vivo!... Essas palavras eram ditas num tom de convicção tão ardente que o próprio charlatão israelita se fizera lívido. Barnabé também empalidecera, enquanto o nobre patrício observava o ardoroso pr egador com visível inte resse. Depois de angustiosa expectativa, Sérgio Paulo voltou a dizer: — Não tenho o direito de duvidar de ninguém, en quanto as provas concludentes não me levem a fazê -lo. E procurando fixar a fisionomia de Saulo, que lhe enfrentava o olhar perquiridor, serenamente continuou: — Falais desse Cristo Jesus, enchendo -me de assombro. Alegais que sua bondade nos assiste antes mesmo de o conhecermos. Como obter uma prova concreta de vossa afirmativa? Se não entendo o Messias de que sois me nsageiros, como saber se sua assistência me influenciou algum dia? Saulo lembrou repentinamente as palestras de Simão Pedro, ao lhe narrar os antecedentes do mártir do Cris tianismo. Num instante alinhou os mínimos episódios. E valendo-se de todas as oportunidades para destacar o amor infinito de Jesus, como aconteceu nos menores fatos da sua carreira apostólica, sentenciou com singular entono: — Procônsul, ouvi-me! Para revelar-vos, ou melhor, a fim de lembrar-vos a misericórdia de Jesus de Nazaré, o nosso Salvador, chamarei vossa atenção para um acon tecimento importante.
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