Livros Espíritas
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Só se tratam em seus escritos de leis mecânicas, princípios mecânicos, Astronomia, Física, etc. Não que eles não sintam maravilhosamente que as teorias materiais absolutamente não contentam a inteligência, porque se algo existe de evidente para o espírito humano não preocupado, é que os movimentos do Universo não podem ser explicados apenas pelas leis mecânicas; mas é precisamente porque o sentem que, por assim dizer, põem palavras em guarda contra a verdade. Não querem confessá-lo, mas não se é mais detido senão pelo compromisso ou pelo respeito humano. Os sábios europeus são neste momento espécies de conjurados ou de iniciados, como quiserdes chamar, que fizeram da Ciência uma espécie de monopólio e que não querem absolutamente que se saiba mais que eles ou de modo diferente. Mas essa Ciência será incessantemente odiada por uma posteridade iluminada, que acusará justamente os adeptos de hoje por não terem sabido tirar das verdades que Deus lhes havia entregado as mais preciosas conseqüências para o homem. Então toda a Ciência mudará de face; o espírito, longamente destronado, retomará o seu lugar. “Será demonstrado que todas as tradições antigas são verdadeiras; que o paganismo inteiro não passa de um sistema de verdades corrompidas e deslocadas; que, por assim dizer, basta limpá-las e repô-las em seu lugar, para as ver brilhar por todos os seus raios. Numa palavra, todas as idéias mudarão; e porque de todos os lados uma multidão de eleitos exclamam concordes: ‘Vinde, Senhor, vinde!’ por que censuraríeis esses homens que se lançam nesse futuro majestoso e se glorificam de o adivinhar? Como os poetas que, até nos nossos tempos de fraqueza e de decrepitude, ainda apresentam alguns pálidos clarões do espírito profético, os homens espirituais por vezes experimentam movimentos de entusiasmo e de inspiração que os transportam para o futuro e lhes permitem pressentir os acontecimentos que o tempo amadureceu ao longe. “Lembrai-vos, senhor conde, do cumprimento que me dirigistes sobre minha erudição a respeito do número três. Com efeito, este número se mostra de todos os lados, no mundo físico, como no mundo moral, e nas coisas divinas. Deus falou uma primeira vez aos homens no monte Sinai e esta revelação foi restringida, por razões que ignoramos, nos estreitos limites de um só povo e de um só país. Após quinze séculos, uma segunda revelação se dirigiu a todos os homens, sem distinção, e é a que desfrutamos. Mas a universalidade de sua ação devia ser ainda infinitamente restrita, pela circunstância de tempos e lugares. Quinze séculos a mais deviam escoar-se antes que a América visse a luz e suas vastas regiões ainda encerram uma porção de hordas selvagens tão estranhas ao grande benefício, que se seria levado a crer que elas deles são excluídas por natureza, em razão de algum anátema primitivo inexplicável. Só o Grande Lama tem mais súditos espirituais que o papa; Bengala tem sessenta milhões de habitantes, a China tem duzentos, o Japão vinte e cinco ou trinta. Contemplai esses arquipélagos do grande oceano, que hoje formam a quinta parte do mundo. Vossos missionários sem dúvida fizeram maravilhosos esforços para anunciar o Evangelho em algumas dessas regiões longínquas, mas vedes com que sucesso. Quantas miríades de homens que a Boa Nova jamais atingirá! A cimitarra do filho de Ismael não expulsou o Cristianismo inteiramente da África e da Ásia? E em nossa Europa, que espetáculo se oferece ao olho religioso!... “Contemplai esse quadro lúgubre; juntai a espera dos homens escolhidos e vereis se os iluminados estão errados ao encarar como mais ou menos próxima uma terceira explosão da onipotente bondade em favor do gênero humano. Eu não terminaria se quisesse juntar todas as provas que se reúnem para justificar esta grande espera. Ainda uma vez, não censureis as pessoas que disto se ocupam e que vêem na própria revelação as razões para prever uma revelação da revelação. Se quiserdes, chamai estes homens iluminados; estarei inteiramente de acordo convosco, desde que pronuncieis este nome seriamente. “Tudo anuncia, e vossas próprias observações o demonstram, não sei qual a grande unidade para a qual marchamos a grandes passos. Não podeis, pois, sem vos pôr em contradição convosco, condenar os que de longe saúdam esta unidade, e que tentam, conforme suas forças, penetrar mistérios tão terríveis, sem dúvida, mas ao mesmo tempo tão consoladores para nós. “E não dizeis que tudo está dito, que tudo está revelado e que não nos é permitido esperar nada de novo. Sem dúvida nada nos falta para a salvação; mas, do lado dos conhecimentos divinos, falta-nos muito; e quanto às manifestações futuras, como vedes, tenho mil razões para esperar, ao passo que não tendes nenhuma para me provar o contrário. O hebreu que cumpria a lei não estava em segurança de consciência? Eu vos citaria, se preciso fosse, não sei quantas passagens da Bíblia que prometem ao sacrífico judaico e ao trono de Davi uma duração igual à do Sol. O judeu, que se prendia à casca, tinha toda razão, até o acontecimento, de crer no reino temporal do Messias; todavia, enganava-se, como se viu depois. Mas sabemos o que nos aguarda a nós mesmos? Deus estará conosco até a consumação dos séculos; as portas do inferno não prevalecerão contra a Igreja, etc. Muito bem! Pergunto: disso resulta que Deus interdita toda manifestação nova e não lhe é mais permitido nada além do que sabemos? É preciso convir que seria um estranho argumento. “De agora em diante, uma nova efusão do Espírito Santo está no rol das coisas mais razoavelmente esperadas; daí por que é preciso que os pregadores desse novo dom possam citar as Santas Escrituras a todos os povos. Os apóstolos não são tradutores; têm muitas outras ocupações; mas a Sociedade Bíblica, instrumento cego da Providência, prepara suas diferentes versões, que os verdadeiros enviados explicarão um dia, em virtude de uma missão legítima, nova ou primitiva, não importa! que expulsará a dúvida da cidade de Deus; e é assim que os terríveis inimigos da unidade trabalham para a estabelecer.” Observação – Estas palavras são tanto mais notáveis porque emanam de um homem de mérito incontestável como escritor, e que é tido em grande estima no mundo religioso. Talvez não se tenha visto tudo quanto elas encerram, porquanto são um protesto evidente contra o absolutismo e o estreito exclusivismo de certas doutrinas. Elas denotam no autor uma amplidão de vistas que tocam de leve a independência filosófica. Muitas vezes a ortodoxia se escandaliza por menos. As passagens sublinhadas são bastante explícitas e é supérfluo comentá-las; sobretudo os espíritas compreenderão facilmente o seu alcance. Seria impossível aí não ver a previsão de coisas que hoje se passam e as que o futuro reserva à Humanidade, tamanha é a relação dessas palavras com o estado atual e com o que, por todos os lados, anunciam os Espíritos. COMUNICAÇÃO DE JOSEPH DE MAISTRE (Sociedade de Paris, 22 de março de 1867 – Médium: Sr. Desliens) Pergunta – Conforme os pensamentos contidos nos fragmentos cuja leitura acaba de ser feita, pareceis ter sido animado pelo espírito profético, do qual falais e descreveis tão bem. Apenas meio século nos separa da época em que escrevíeis estas linhas notáveis, e já vemos se realizarem as nossas previsões. Talvez não sejam do ponto de vista exclusivo em que então vos colocavam as vossas crenças, mas com certeza tudo nos mostra como iminente e em via de realizar-se, a grande revolução moral que pressentistes e que preparam as idéias novas. O que dizeis tem uma relação tão evidente com o Espiritismo, que podemos, com toda a razão, vos considerar como um dos profetas de seu advento. Sem dúvida a Providência vos tinha colocado no meio em que, pelo fato mesmo dos vossos princípios, vossas palavras deviam ter mais autoridade. Foram compreendidas por vosso partido? Este ainda as compreende agora? É lícito duvidar. Hoje que podeis encarar as coisas de maneira mais larga e abarcar mais vastos horizontes, ficaríamos satisfeitos em ter a vossa apreciação atual sobre o espírito profético e sobre a parte que deve ter o Espiritismo no movimento regenerador. Além disso, ficaríamos muito honrados se, doravante, pudéssemos contar convosco no número dos Espíritos bons que querem bem concorrer para a nossa instrução. Resposta – Senhores, embora não seja a primeira vez que me encontro entre vós, como me introduzi oficialmente hoje, pedirei que aceiteis os meus agradecimentos pelas palavras benevolentes que houvestes por bem pronunciar em minha intenção, e que recebais minhas felicitações pela sinceridade e pelo devotamento que presidem aos vossos trabalhos. O amor da verdade foi o meu único guia, e se em vida fui partidário de uma seita que se aprendeu a julgar com severidade, é que nela acreditava encontrar os elementos, a força de ação necessária para chegar ao conhecimento desta verdade que eu suspeitava. – Vi a terra prometida, mas não pude penetrá-la em vida. Mais feliz que eu, senhores, aproveitai o favor que vos é conferido por vossa boa vontade, melhorando o vosso coração e o vosso espírito, e fazendo partilhar de vossa felicidade a todos os vossos irmãos em Humanidade, que não oporão à vossa propaganda senão a reserva natural a cada homem posto em face do desconhecido.
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(11) N. do T.: Conforme a versão francesa de Lemaître de Sacy.
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