Livros Espíritas
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Durosoir contou uma de suas instruções. Dez anos de dores lancinantes, que jamais equivaleriam ao que senti no momento em que, saindo do quarto de Rosália, encontrei-me cara a cara com o juiz, que me fitava no rosto. Eu era de vidro; ele lia no fundo de meu peito. Num instante entrevi o patíbulo. Lembrai-vos do ditado: ‘Em casa de enforcado não se fala em corda’, e vinte outros detalhes do gênero. Era um suplício de todos os dias, de todas as horas, de todos os segundos. O que quer que fosse, fazia-se no meu espírito uma horrorosa devastação. “O estado de Rosália era ainda muito mais doloroso: vivia realmente nas chamas. A presença da criança na casa acabou por tornar a estada intolerável. Incessantemente, dia e noite, vivemos em meio às cenas mais cruéis. O menino me gelava de horror. Vinte vezes quase que o sufoquei. Além disso, Rosália, que se sentia morrer, que acreditava na vida futura, nos castigos, aspirava a se reconciliar com Deus. Zombava dela, insultava-a, ameaçava batê-la. Entrava em furores para assassiná-la. Ela morreu a tempo para me preservar de um segundo crime. Que agonia! Ela jamais me sairá da memória. “Depois não vivi. Vangloriava-me de não ter mais consciência: esses remorsos cresceram ao meu lado, em carne e osso, sob a forma de meu filho. Esta criança, que consinto em ser seu guarda e o escravo, a despeito de sua imbecilidade não deixa de me torturar por seu ar, seu olhar estranho, pelo ódio instintivo que me vota. Não importa aonde eu vá, segue-me passo a passo, marcha ou se senta em minha sombra. À noite, após um dia de fadiga, sinto-o ao meu lado e basta seu contato para tirar-me o sono ou, pelo menos, perturbar-me com pesadelos. Receio que de repente a razão lhe venha, sua língua se solte e que ele fale e me acuse. “A Inquisição, em seu gênio de torturas, o próprio Dante, na sua Suppliciomanie, jamais imaginaram algo de tão espantoso. Isto me torna monomaníaco. Surpreendo-me desenhando à pena o quarto onde cometi o crime; escrevo em baixo esta legenda: Neste quarto envenenei o agente de câmbio Thillard-Ducornet, e assino. É assim que, nas minhas horas de febre, detalhei em meu jornal mais ou menos palavra por palavra tudo que vos contei. “Mas não é tudo. Consegui subtrair-me ao suplício com que os homens castigam o assassino, e eis que este suplício se renova para mim quase todas as noites. “Sinto uma mão em meu ombro e ouço uma voz que me murmura ao ouvido: ‘Assassino!’ Sou levado diante das togas vermelhas; um rosto pálido se ergue à minha frente e grita: ‘Ei-lo!’ É meu filho. Nego. Meu desenho e minhas próprias memórias me são apresentados com minha assinatura. Como vedes, a realidade se mistura ao sonho e aumenta o meu pavor. Enfim, assisto a todas as peripécias de um processo criminal. Ouço a minha condenação: ‘Sim, ele é culpado.’ Conduzem-me a uma sala escura, onde se vêm juntar a mim o carrasco e seus ajudantes. Quero fugir, laços de ferro me detêm e uma voz me grita: ‘Não há mais misericórdia para ti!’ Experimento até a sensação do frio das lâminas em meu pescoço. Um padre ora ao meu lado e por vezes me convida ao arrependimento. “Repilo-o com mil blasfêmias. Semimorto, padeço os solavancos de uma carroça na via pública; ouço os murmúrios da multidão, comparáveis aos das vagas do mar e, no alto, imprecações de mil vozes. Chego à vista do cadafalso. Subo os degraus. Entretanto, o sonho é interrompido. Desperto justamente no momento em que a lâmina desliza entre as ranhuras, quando ia ser arrastado em presença daquele que quis negar, do próprio Deus, para aí ter os olhos queimados pela luz, mergulhar no abismo de minhas iniqüidades e ser supliciado pelo sentimento de minha própria infâmia. Sufoco, o suor me inunda, o horror enche-me a alma. Não sei mais quantas vezes já sofri este suplício.” A idéia de fazer reviver a vítima no próprio filho do assassino, e que aí representa a imagem viva de seu crime, ligada aos seus passos é, ao mesmo tempo, engenhosa e muito moral. Quis o autor mostrar que o criminoso, se sabe escapar às perseguições dos homens, não poderá subtrair-se às da Providência. Há aqui mais que remorso: é a vítima que se ergue sem cessar à sua frente, não sob a aparência de um fantasma ou de uma aparição, que poderia ser considerada como efeito da imaginação ferida, mas sob os traços de seu filho; é o pensamento que esta criança pode ser a própria vítima, pensamento corroborado pela instintiva aversão do menino, embora idiota, por seu pai; é a luta da ternura paternal contra esse pensamento que o tortura, luta horrível, que não permite ao culpado gozar sossegadamente o fruto de seu crime, como disso se tinha gabado. Esse quadro tem o mérito de ser verdadeiro, ou melhor, perfeitamente verossímil, isto é, nada se afasta das leis naturais que, sabemos hoje, regem as relações dos seres humanos entre si. Aqui, nada de fantástico nem de maravilhoso; tudo é possível e justificado pelos numerosos exemplos que temos de indivíduos renascendo no meio onde já viveram, em contato com os mesmos indivíduos, para repararem seus erros ou cumprirem deveres de reconhecimento. Admiremos aqui a sabedoria da Providência que, durante a vida, lança um véu sobre o passado, sem o qual os ódios se perpetuariam, ao passo que acabam por se apaziguar nesse novo contato e sob o império dos bons procedimentos recíprocos. É assim que, pouco a pouco, o sentimento da fraternidade acaba por substituir o da hostilidade. No caso de que se trata, se o assassino tivesse tido certeza absoluta quanto à identidade de seu filho, teria podido buscar sua segurança num novo crime; a dúvida o deixaria em luta com a voz da Natureza, que nele falava pela voz da paternidade. Mas a dúvida era um suplício cruel, uma ansiedade perpétua, pelo temor que esta fatal semelhança levasse à descoberta do crime. Por outro lado, o agente de câmbio, ele próprio culpado, tinha, se não como encarnado, mas como Espírito, a consciência de sua posição. Se servia de instrumento para o castigo de seu assassino, sua posição também lhe era um suplício. Assim, esses dois indivíduos, ambos culpados, se puniam reciprocamente, detidos em seus ressentimentos mútuos pelos deveres que lhes impunha a Natureza. Esta justiça distributiva, que castiga por meios naturais, pela conseqüência mesma da falta, mas que sempre deixa a porta aberta ao arrependimento e à reabilitação, não é mais digna da bondade de Deus que a condenação irremissível às chamas eternas? Porque o Espiritismo repele a idéia do inferno, tal qual o representam, pode dizer-se que tire todo freio às más paixões? Compreende-se esse gênero de punição; aceita-se-o, porque é lógico; ele impressiona tanto mais quanto se o sente eqüitativo e possível. Esta crença é um freio muito mais poderoso que a perspectiva de um inferno em que já não crêem, e do qual riem. Eis um exemplo real da influência desta doutrina, para um caso que, embora menos grave, não prova menos o poder de sua ação: Um senhor de nosso conhecimento pessoal, espírita fervoroso e esclarecido, vive com um parente muito próximo, que diversos indícios, tendo um grande caráter de probabilidade, lhe fazem crer tenha sido seu pai. Ora, esse parente nem sempre age para com ele como deveria. Sem tal pensamento aquele senhor, em muitas circunstâncias, por questões de interesse, teria usado de um rigor que estava em seu direito, e provocado uma ruptura. Mas a idéia de que poderia ser seu pai o reteve; mostrou-se paciente, moderado; suportou o que não teria tolerado da parte de uma pessoa que tivesse considerado como estranha. Não havia, em vida do pai, uma grande simpatia entre este e seu filho; mas a conduta deste, em tal circunstância, não era susceptível de aproximá-los espiritualmente e de destruir as prevenções que os afastavam um do outro? Se se reconhecessem de maneira certa, sua posição respectiva seria muito falsa e constrangedora; a dúvida em que está o filho basta para o impedir de agir mal, embora lhe deixe todo o seu livre-arbítrio. Que o parente tenha sido ou não o seu pai, o filho não tem menos o mérito do sentimento da piedade filial; se não lhe é nada, ser-lhe-á sempre levado em conta de seu bom procedimento, e o verdadeiro Espírito de seu pai lhe será grato. Vós que zombais do Espiritismo, porque não o conheceis, se soubésseis o que ele encerra de poder para a moralização, compreenderíeis tudo o que a sociedade ganhará com a sua propagação e sereis os primeiros a aplaudi-lo. Vê-la-íeis transformada sob o império das crenças que conduzem, pela própria força das coisas e das leis da Natureza, à fraternidade e à verdadeira igualdade; compreenderíeis que só ele pode triunfar dos preconceitos, que são a pedra de tropeço do progresso social e, em vez de ridicularizar os que o propagam, os encorajaríeis, porque sentiríeis que é do vosso próprio interesse, de vossa segurança. Mas, paciência! isto virá ou, melhor dizendo, isto já veio. Cada dia as prevenções se apaziguam, a idéia se propaga, infiltra-se sem ruído e começa-se a ver que existe aí algo de mais sério do que se pensava. Não está longe o tempo em que os moralistas, os apóstolos do progresso aí verão a mais poderosa alavanca que jamais tiveram nas mãos.
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