Livros Espíritas
Sugerir Edição de Documento
Editar documento
Título:
Autor:
Espiritos:
Capítulo:
Conteúdo:
20000
caracteres restantes
Um outro fato prova a que erros de interpretação podem conduzir a ignorância e o fanatismo. Em algum lugar do Alcorão diz Maomé: “Não abrimos teu coração e não tiramos o fardo de teus ombros?” Estas palavras, relacionadas com um acidente ocorrido a Maomé quando era criança, deram lugar à fábula, acreditada entre os crentes e ensinada pelos sacerdotes como um fato miraculoso, de que dois anjos abriram o ventre do menino e tiraram de seu coração uma mancha negra, sinal do pecado original. Deve-se acusar Maomé por esses absurdos, ou os que não o compreenderam? Dá-se o mesmo com uma imensidade de contos ridículos, sobre os quais o acusam de ter apoiado sua religião. Eis por que não vacilamos em dizer que um cristão esclarecido e imparcial está em melhores condições de dar uma sã interpretação do Alcorão do que um muçulmano fanático. Seja como for, Maomé foi profundamente perturbado em sua visão, que se apressou a contar à sua mulher. Tendo voltado ao monte Hira, presa da mais viva agitação, julgou-se possuído por Espíritos malignos e, para escapar ao mal que temia, ia precipitar-se do alto de um rochedo, quando uma voz, vinda do céu, se fez ouvir e lhe disse: “Ó Maomé! tu és o enviado de Deus; sou o anjo Gabriel.” Então, levantando os olhos, viu o anjo sob forma humana, desaparecendo, pouco a pouco, no horizonte. Esta nova visão não fez senão aumentar a sua perturbação; comunicou-a a Cadija, que se esforçou por o acalmar; mas, pouco segura de si mesma, foi procurar seu primo Varaka, ancião afamado por sua sabedoria e convertido ao Cristianismo, que lhe disse: “Se o que acabas de dizer-me é verdade, teu marido foi visitado pelo grande Nâmous, que outrora visitou Moisés; ele será o profeta deste povo. Anunciai a ele, e que se tranqüilize.” Algum tempo depois Varaka, tendo encontrado Maomé, fez que lhe contasse suas visões e lhe repetisse as palavras que havia dito à sua mulher, acrescentando: “Tratar-te-ão como impostor; expulsar-te-ão; combater-te-ão violentamente. Que eu possa viver até essa hora para te assistir nessa luta!” O que resulta deste e de muitos outros fatos é que a missão de Maomé não foi um cálculo premeditado de sua parte; estava confirmada por outros, mas ainda não o estava por ele; demorou muito tempo para persuadir-se disto; mas desde que o ficou, tomou-a muito a sério. Para ele próprio se convencer, desejava uma nova aparição do anjo que, segundo uns, demorou dois anos e, segundo outros, seis meses. É a esse intervalo de incerteza e de hesitação que os muçulmanos chamam o fitreh. Durante todo esse tempo seu espírito foi presa de perplexidades e dos mais vivos temores. Parecia-lhe que ia perder a razão, e era também a opinião de alguns que o cercavam. Era sujeito a desfalecimentos e síncopes, que os autores modernos atribuíram, sem outras provas além de sua opinião pessoal, a ataques de epilepsia, e que antes poderiam ser o efeito de um estado extático, cataléptico ou sonambúlico espontâneo. Nesses momentos de lucidez extracorpórea, muitas vezes se produziam, como se sabe, fenômenos estranhos, dos quais o Espiritismo se dá conta perfeitamente. Aos olhos de certa gente, ele devia passar por louco; outros viam nesses fenômenos, para eles singulares, algo de sobrenatural, que colocava o homem acima da Humanidade. “Quando se admite a ação da Providência nos negócios humanos, diz o Sr. Barthélemy Saint-Hilaire, não se pode deixar de a encontrar, também, nessas inteligências dominadoras que aparecem de longe em longe para esclarecer e conduzir o restante dos homens.” O Alcorão não é uma obra escrita por Maomé, com a cabeça fria e de maneira continuada, mas o resumo feito por seus amigos das palavras que pronunciava quando estava inspirado. Nesses momentos, dos quais não era senhor, ele caía num estado extraordinário e muito assustador; o suor corria-lhe da fronte; seus olhos tornavam-se vermelhos de sangue, soltava gemidos e, no mais das vezes, a crise terminava por uma síncope que durava mais ou menos tempo, o que por vezes lhe acontecia em meio à multidão, e mesmo quando montado em seu camelo, tanto quanto em casa. A inspiração era irregular e instantânea, e ele não podia prever o momento em que seria dominado. Segundo o que hoje conhecemos desse estado por uma multidão de exemplos análogos, é provável que, sobretudo no princípio, ele não tivesse consciência do que dizia, e que se suas palavras não tivessem sido recolhidas, teriam ficado perdidas; mais tarde, porém, quando tomou a sério seu papel de reformador, é evidente que falava mais com conhecimento de causa e misturasse às inspirações o produto de seus próprios pensamentos, conforme os lugares e as circunstâncias, as paixões ou os sentimentos que o agitavam, tendo em vista o objetivo que queria atingir, acreditando, talvez de boa-fé, falar em nome de Deus. Esses fragmentos isolados, recolhidos em diversas épocas, em número de 114, formam no Alcorão outros tantos capítulos chamados suratas; ficaram esparsos durante sua vida, e só depois de sua morte foram reunidos oficialmente num corpo de doutrina, pelos cuidados de Abu-Becr e de Omar. Dessas inspirações súbitas, recolhidas à medida que ocorriam, resultou uma falta absoluta de ordem e de método; os mais disparatados assuntos aí são tratados a esmo, muitas vezes na mesma surata, e apresentam tal confusão e tão numerosas repetições que uma leitura seguida é penosa e fastidiosa para quem quer que não seja um fiel. Segundo a crença vulgar, tornada artigo de fé, as páginas do Alcorão foram escritas no céu e trazidas prontas a Maomé pelo anjo Gabriel, porque numa passagem se diz: “Teu Senhor é poderoso e misericordioso, e o Alcorão é uma revelação do Senhor do Universo. O Espírito fiel (o anjo Gabriel) o trouxe do Alto e o depositou em teu coração, ó Maomé, para que fosses apóstolo.” Maomé se exprime da mesma maneira em relação ao livro de Moisés e ao Evangelho; diz (surata III, versículo 2): “Ele fez descer do Alto o Pentateuco e o Evangelho, para servir de direção aos homens”, querendo dizer por isso que esses dois livros tinham sido inspirados por Deus a Moisés e a Jesus, como lhe havia inspirado o Alcorão. Suas primeiras prédicas foram secretas durante dois anos, e nesse intervalo ele se ligou a uma centena de adeptos entre os membros de sua família e seus amigos. Os primeiros convertidos à nova fé foram Cadija, sua mulher; Ali, seu filho adotivo, de dez anos; Zeid, Varaka e Abu-Becr, seu mais íntimo amigo, que devia ser o seu sucessor. Tinha quarenta e dois anos quando começou a pregar publicamente e desde esse momento realizou-se a predição que lhe havia feito Varaka. Sua religião, fundada na unidade de Deus e na reforma de certos abusos, sendo a ruína da idolatria e dos que dela viviam, os coraicitas, guardas da Caaba e do culto nacional, levantaram-se contra ele. A princípio o trataram de louco; depois o acusaram de sacrilégio; amotinaram o povo; perseguiram-no e a perseguição tornou-se tão violenta que, por duas vezes, seus partidários tiveram de buscar refúgio na Abissínia. Entretanto, aos ultrajes ele sempre opunha a calma, o sangue-frio e a moderação. Sua seita crescia e seus adversários, vendo que não a podiam reduzir pela força, resolveram desacreditá-la pela calúnia. A zombaria e o ridículo não lhe foram poupados. Como se viu, os poetas eram numerosos entre os árabes; manejavam a sátira habilmente e seus versos eram lidos com avidez; era o meio empregado pela crítica mal-intencionada e não deixavam de a empregar contra ele. Como ele resistisse a tudo, seus inimigos, enfim, recorreram aos complôs para o matar e ele só escapou pela fuga ao perigo que o ameaçava. Foi então que se refugiou em Yathrib, depois chamada Medina (Medinet-en-Nabi, cidade do Profeta), no ano 622, e é dessa época que data a Hégira, ou era dos muçulmanos. Ele tinha mandado antecipadamente, a essa cidade, em pequenas tropas para não provocar suspeitas, todos os seus partidários de Meca, retirando-se por último, com Abu-Becr e Ali, seus discípulos mais devotados, quando soube que os outros estavam em segurança. Dessa época data também para Maomé uma nova fase em sua existência; de simples profeta que era, foi constrangido a fazer-se guerreiro. (Continua no próximo número)
Mais opções
Nota 1:
5000
caracteres restantes
(15) O Sr. Barthélemy Saint-Hilaire, do Instituto, resumiu esses trabalhos numa interessante obra, intitulada: Maomé e o Alcorão. 1 vol. In-12. – Preço: 3 fr. 50 c. Livraria Didier.
Formatar
Nova Nota
Nota 2:
5000
caracteres restantes
(16) O côvado equivale a cerca de 45 centímetros. É uma medida natural das mais antigas, que tinha por base a distância entre o cotovelo e a extremidade dos dedos.
Formatar
Nova Nota
TAG
Valor
Mensagem para o avaliador (caso precise explicar suas sugestões):
3000
caracteres restantes
Criado por (coloque telefone ou e-mail caso seja necessário entrar em contato):
Cancelar
Salvar
Aguarde um momento...
×
Deseja sair do sistema?
×
Confirma a operação?
×