Livros Espíritas
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A jovem não sabia como interpretar aquelas evocações, mas nossa diretora, cingindo-lhe os lobos frontais com as mãos, a envolvê-la em abundantes irradiações magnéticas, insistia, meiga, provocando a emersão da memória em seus mais importantes centros perispiríticos: — Revê o pretérito, minha amiga, para bem servirmos à Obra Divina. Notei, assombrado, que algo de anormal sucedera na mente da jovem, porque seus olhos, dantes doces e tranquilos, se tornaram dilatados e inquietos. Tentou recuar ante a súplice expressão de meu avô, mas a energia de Cipriana a conteve, evitando-lhe a expansão dos impulsos iniciais de medo e de revolta. — Agora, sim! Lembro-me… — gemeu, aterrada. Nossa instrutora, então, libertou-lhe a fronte e, indicando o enfermo, exclamou em tom comovedor: — E não tens piedade? Alguns segundos de expectativa rolaram pesadamente; contudo, o amor, sempre divino na mulher de aspirações elevadas, triunfou no olhar enternecido de Ismênia, que, plenamente modificada, se abraçou ao doente, exclamando: — Pois és tu, Cláudio? Que te aconteceu? Traçou o ancião largo comentário de suas penas, referiu-lhe as faltas passadas, e falou-lhe, mais lúcido e contente, do conforto que a reaproximação lhe conferia. Ela conservou-o muito tempo de encontro ao peito, fazendo-lhe sentir sua imensa ternura, sua dedicação e entendimento sem limites. Quando pareciam perfeitamente reconciliados, Cipriana abeirou-se dela e considerou: — Minha amiga, estimaríamos receber a tua promessa de auxiliar nosso irmão Cláudio, em futuro próximo. Cooperarás conosco em favor dele, recebendo-o nos braços abnegados de mãe, se a Lei Divina, autorizar teu matrimônio? Reverente, dando-me a conhecer os tesouros de uma existência singela e humilde na Terra, a visitante exclamou: — Se o Céu me conceder a felicidade de com algo contribuir em benefício de Cláudio, esse benefício será feito a mim mesma; e, se um dia eu receber a ventura conjugal, será nosso primeiro e bem-amado filhinho. De antemão, sei que Nicanor se regozijará com o meu compromisso. Contemplando, enlevada, o desditoso prisioneiro das sombras, prometia: — Partilhar-nos-á a vida pobre e honrada, conhecerá as alegrias do pão, filho do suor com a Proteção Divina, e olvidará, em nossa companhia, as ilusões que por tanto tempo nos separaram… Evidenciando deliciosa singeleza de coração, projetava em êxtase: — Será um pedreiro feliz, como Nicanor! Abençoará a luta digna que atualmente bendizemos!… Como chorasse, comovida, Cipriana abraçou-a, também tocada no coração e de olhos úmidos, assegurando: — Bem-aventurada sejas tu, querida filha, que compreendes conosco o celestial ministério da mulher nobre, sempre disposta à maternidade sublime. Mais alguns minutos decorreram em salutares entendimentos, e, quando o Sol engrinaldava o horizonte de tonalidades diamantinas, de novo estávamos no modesto aposento de Ismênia, ajudando-a a retomar o aparelho fisiológico e a olvidar a ocorrência que vivera, junto de nós, na Esfera do Espírito. Acordou no veículo pesado, experimentando ignoto júbilo. Tinha a mente refrescada de ideias felizes. Teve a nítida impressão de que tornava de maravilhosa romagem, cujas minúcias não conseguiria precisar. Sem saber como, guardava, naquele instante, absoluta certeza de que se casaria e de que Deus lhe reservava ditoso porvir. Quem poderia definir-nos o reconhecimento e a admiração daquela hora? Meus companheiros abençoaram-na, e eu, por minha vez, despedindo-me dela comovidamente, osculei-lhe a destra minúscula, num beijo silencioso de profunda amizade e de indizível gratidão.
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