Livros Espíritas
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Desde que estas qualidades podem substituir-se uma a outra sem se excluírem, e também porque os mesmos órgãos devem ser empregados tanto para a percepção quanto para a sensação, que se equivalem, pelo sentimento quanto pela razão, etc., resulta que cada Espírito raramente se serve das duas ordens de suas faculdades com a mesma facilidade. Desta observação, resulta para o autor que os indivíduos que funcionam mais facilmente, em virtude das faculdades ditas potenciais, terão estas mais desenvolvidas que os outros e delas se servirão mais à vontade, e reciprocamente. Deste ponto de vista e de uma observação relativa à maior ou menor força virtual de certas coleções de indivíduos, geralmente grupados sob um mesmo nome de raça, o autor chega à conclusão de que existem Espíritos que se podem chamar Espíritos franceses, ingleses, italianos, chineses, negros, etc. A despeito das dificuldades de explicação que resultariam de uma tal ordem de idéias, forçoso é convir que os estudos muito cuidadosos, feitos pelo Sr. Herrenschneider sobre os diversos povos, são muito notáveis e, em todo o caso, muito interessantes; mas gostaríamos que o autor tivesse indicado o seu pensamento com mais clareza, e que evidentemente é o seguinte: Os Espíritos se grupam, em geral, segundo as suas afinidades; é o que faz que Espíritos da mesma ordem e do mesmo grau de elevação tendam a encarnar num mesmo ponto do globo, daí resultando esse caráter nacional, fenômeno em aparência tão singular. Diremos, pois, que não há Espíritos franceses ou ingleses, mas que há Espíritos cujo estado, hábitos, tradições impelem uns a se encarnarem na França, outros na Inglaterra, como se os vêem, durante a vida, grupar-se segundo as suas simpatias, seu valor moral e seus caracteres. Quanto ao progresso individual, depende sempre da vontade, e não do valor já adquirido do perispírito que, a bem dizer, não serve senão como ponto de partida, destinado a permitir uma nova elevação do Espírito, novas conquistas e novos progressos. Deixaremos de lado a parte do livro que trata da ordem social e da necessidade de uma religião imposta, porque o autor, ainda imbuído dos princípios de autoridade que hauriu no são-simonismo, afasta-se muito, neste ponto, dos princípios de tolerância absoluta que o Espiritismo se gloria de professar. Achamos justo ensinar, mas temeríamos uma doutrina imposta e necessária, porquanto, mesmo que fosse justa para a geração atual, forçosamente se tornaria um entrave para as gerações seguintes, quando estas tivessem progredido. O Sr. Herrenschneider não compreende que a moral possa ser independente da religião. Em nossa opinião, a questão está malposta, e cada um a discute justamente do ponto de vista em que tem razão. Os moralistas independentes estão certos quando dizem que a moral é independente dos dogmas religiosos, no sentido de que, sem acreditar em nenhum dos dogmas existentes, muitos dos antigos foram moralizados, e entre os modernos os há e muitos que têm o direito de gabar-se de o ser. Mas o que é certo é que a moral e, sobretudo, a sua aplicação prática, é sempre dependente de nossas crenças individuais, sejam quais forem. Ora, ainda que fossem das mais filosóficas, uma crença constitui a religião daquele que a possui. Isto se demonstra facilmente pelos fatos diários da existência, e os moralistas, que se dizem independentes, têm, eles próprios, como crença, que é preciso respeitar-se e respeitar os outros, desenvolvendo o mais possível, em si e nos outros, os elementos do progresso. Sua moral dependerá, pois, de sua crença; suas ações forçosamente dela se ressentirão e essa moral não será independente senão das religiões, das crenças e dos dogmas nos quais não têm fé, o que achamos muito justo e racional, mas, também, muito elementar. O que se pode dizer é que, no estado atual da nossa sociedade, há princípios de moral que estão de acordo com todas as crenças individuais, sejam quais forem, porque os indivíduos modificaram suas crenças religiosas sobre certos pontos, em virtude dos progressos científicos e morais, dos quais os nossos ancestrais fizeram a feliz conquista. Terminaremos dizendo que o autor é, sob muitos pontos, discípulo de Jean Reynaud. Seu livro é o resumo de estudos e pensamentos sérios, expressos claramente, e com força; é feito com um cuidado digno de louvar e esse cuidado vai até a minúcia nos detalhes materiais da impressão, o que tem grande importância para a clareza de um livro tão sério. Malgrado o desacordo profundo que nos separa do Sr. Herrenschneider, tanto a respeito de sua maneira de ver para impor a religião, quanto sobre suas idéias relativas à autoridade, à família, que ele esqueceu muito, assim quanto à prece, à solidariedade benevolente dos Espíritos, que não soube apreciar, etc., idéias que o próprio Jean Reynaud já havia desaprovado, é impossível não ser tocado pelo mérito da obra e pelo valor do homem que soube achar pensamentos fortes, muitas vezes justos e sempre claramente expressos. O Espiritismo é aí afirmado sem rodeios, pelo menos nos seus princípios fundamentais, e levado em consideração nos elementos da ciência filosófica. Há, contudo, esta diferença: no ponto de partida o autor chega ao resultado por indução, enquanto o Espiritismo, procedendo por via experimental, fundou sua teoria na observação dos fatos. É um escritor sério demais, que lhe dá direito de cidadania. Emile Barrault, engenheiro Allan Kardec
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