Livros Espíritas
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Este livro é uma nova prova da fermentação das idéias espíritas, muito tempo antes que se cogitasse dos Espíritos. Mas aqui já não se trata de alguns pensamentos esparsos, mas de uma série de instruções que se diriam calcadas sobre a doutrina atual ou, pelo menos, hauridas na mesma fonte. Essa obra, atribuída a Félix de Wimpfen, guilhotinado em 1793, parece ter sido publicada por volta de 1788. A princípio só foram impressos sessenta exemplares para alguns amigos, conforme aviso colocado no início e, por conseguinte, era excessivamente raro. Eis o texto do prefácio, que traz a data de 1788 e cuja forma, bastante ambígua, bem poderia ser uma maneira de dissimular a personalidade do autor. “Se eu dissesse de que maneira me caiu nas mãos a obra que hoje entrego ao público, o extraordinário que encerra essa história não satisfaria mais o leitor do que pode inquietá-lo o meu silêncio e eu nada acrescentaria ao preço inestimável do presente que lhe faço. Surpresa e preocupada por esta singularidade, li com uma espécie de desconfiança; mas logo as conjecturas foram abafadas pela admiração. Encontrei o que nenhum filósofo jamais nos havia oferecido, um sistema completo. Senti meu espírito apoiar-se, fixar-se sobre uma base que lhe era em tudo correspondente; senti minha alma elevar-se e crescer; senti meu coração abrasar-se de um novo amor por meus semelhantes; minha imaginação foi ferida por um respeito mais profundo pelo autor de todas as coisas. Vi o porquê de tantos assuntos de murmúrios contra a sabedoria eterna. Encontrando-me melhor e mais feliz, pensei que não era por acaso que eu tinha sido escolhida, e que a Providência me havia determinado para ser o instrumento da publicação desse manual, apropriado a todos os cultos, que ele respeita, a todas as idades, que ele instrui, a todos os estados, que ele consola, do monarca ao mendigo. O sentimento e a razão me levaram a partilhar com meus irmãos as encorajadoras esperanças, as pacíficas resignações, os impulsos para a perfeição, de que me acho penetrada. Fortificada por uma felicidade que até então me era desconhecida, enfrento sem medo o ridículo a que me irão expor os espíritos fortes pela fraqueza e, de antemão, lhes perdôo os pesares com que talvez queiram pagar a felicidade à qual convido o leitor e que, mais cedo ou mais tarde, será sua partilha.” Um de nossos colegas da Sociedade Espírita de Paris, que mora em Gray, na Haute-Saône, há pouco tempo encontrou esta obra sobre sua mesa; jamais ficou sabendo como e por quem foi trazida, já que não conhece ninguém que o possa ter feito, nem compreendeu o motivo para que alguém se ocultasse. Entre as pessoas que ele freqüenta, nenhuma fez alusão a isto em conversa, nem pareceu ter conhecimento do livro, quando dele falou. Tocado pessoalmente pelas idéias que a obra encerra, ele no-lo comunicou em sua última viagem a Paris. Tendo sido publicada uma edição mais recente pela Livraria Hachette24, apressamo-nos em adquiri-lo. Seu título, que infelizmente nada diz, deve ter contribuído para o deixar ignorado pelo público. Cremos que os espíritas nos serão gratos de tirá-lo do esquecimento, chamando a sua atenção. Nada melhor podemos fazer do que citar algumas de suas passagens: “Partimos todos do mesmo ponto para chegar à mesma circunferência por raios diferentes; e é da diversidade dos tipos que temos usado que provém a diversidade das inclinações dos homens para o seu primeiro protótipo. Quanto às inclinações dos que já usaram vários, elas têm tantas causas diferentes e tantos matizes que, se as quiséssemos indicar, nós nos perderíamos no infinito. Contentar-me-ei, pois, em dizer que, enquanto girarmos apenas no círculo das vaidades, sempre nos assemelharemos; mas aquele que entrou em suas leis não poderá conceber como pôde cometer certas ações tão pouco semelhantes e tão contrárias ao que é atualmente.” (pág. 87). “O homem não passa de um protótipo disforme ou débil senão quando abusou criminosamente da força e da beleza daquele que acaba de deixar, porque depois que fazemos a sua experiência, somos privados das vantagens de que abusamos, para nos afastarmos da felicidade e da salvação, e recebermos o que delas nos pode aproximar novamente. Se, pois, foi a beleza, renasceremos feios, disformes; se a saúde, fracos, doentios; se as riquezas, pobres, desprezados; se as grandezas, escravos, humilhados; enfim, tais como o jogo das leis universais no-lo mostra, já na Terra, alguns exemplos constantes naqueles que, depois de haverem abusado dos bens passageiros ou de convenção, para ultrajar os seus irmãos, tornaram-se para estes objetos de desprezo e piedade.” (pág. 89). “Quando julgamos das penas que merecem um crime, podemos variar na medida das punições. Mas todos concordamos que o crime deve ser punido. Estaremos igualmente de acordo para concordar que os castigos, que de um mau sujeito fariam um cidadão, seriam preferíeis à barbárie de o supliciar eternamente e inutilmente, para si e para os outros, e que não podendo a Onipotência ser ameaçada, ofendida, perturbada, não pode querer vingar-se; que, assim, tudo quanto experimentamos é apenas para nos esclarecer e nos modificar; mas o preço inestimável que liga o homem a objetos de toda sorte não o faz pensar menos que só precisa de um poder infinito para proporcionar o castigo ao delito do qual se tornou culpado contra si. E em sua louca paixão, imagina que Deus não deixará de vingar-se, como ele se vingaria, se fosse Deus, ao passo que outros procuram persuadir-se de que o Céu não toma nenhum conhecimento de seus crimes; mas é assim que deve raciocinar a maioria dos delinqüentes, cada um tomando por base os seus diversos interesses.” (pág. 134). “Se não houvessem limitado o Universo ao nosso pequeno globo, a um Elíseo, a um Tártaro, todo cercado de velas, teriam sido mais justos para com Deus e para com os homens. “Não sabes o que fazer desse tirano de Roma que, depois de inumeráveis crimes, morreu lamentando não haver cometido todos aqueles que ainda se encontram na lista. Não podendo fazê-lo passar aos Elíseos, inventas Fúrias, o Tártaro e o precipitas num abismo de penas eternas. Mas quando souberes que aquele tirano, assassinado na flor da idade, não cessou de viver; que passou pelas condições mais abjetas; que foi punido pela lei de talião; que sofreu sozinho tudo quanto fez sofrerem os outros; quando souberes que, instruído pela desgraça, esse grande mestre do homem, modificado pelos sofrimentos, desenganado, esclarecido sobre tudo que o afastava do bom caminho; aquele coração no qual abundavam o erro e os vícios, e que vomitava os crimes que as leis universais fizeram servir para a modificação e salvação de uma grande quantidade de nossos irmãos; quando souberes, digo, que aquele mesmo coração é hoje asilo da verdade, das mais suaves e harmoniosas virtudes, quais serão teus sentimentos para com ele?” (pág. 131). “Quando os homens imaginaram um Deus vingativo, fizeram-no à sua imagem. O homem se vinga, ou porque se julga lesado ou para provar que não se deve brincar com ele, isto é, que só se vinga por avareza e por medo, crendo só se vingar por um sentimento de justiça. Ora, cada um sabe a que excessos podem levar-nos nossas paixões discordantes. Mas o Eterno, inacessível aos nossos ataques, o Eterno, tão bom quanto justo, só exerce sua justiça na mesma medida da sua bondade. Tendo a sua bondade nos criado para um destino feliz, ele ordenou justamente a natureza das coisas de maneira: 1o – que nenhum crime fique impune; 2o – que, mais cedo ou mais tarde, a punição se torne uma luz para o infrator e para vários outros; 3o – que não podemos alterar nem infringir nossas leis sem cair num mal proporcional à nossa infração e à luxação moral do grau atual de nossa modificação.” (pág. 132). “Quanto mais avançares, mais encantos encontrarás na prece do amor, porque é pelo amor que seremos felizes e porque, sendo o amor o laço dos seres, teu bom gênio reagirá sobre ti. Esse companheiro invisível é talvez o amigo que julgas ter perdido, ou esse outro tu mesmo, que pensas existir apenas em teu desejo; um momento ainda e estarás com ele e com todos os que terás amado bem, ou que terias amado preferentemente, se os tivesses conhecido.” (pág. 265). “Quando uma injustiça ou uma maldade despertar em ti o sentimento de indignação, antes de raciocinares sobre essa injustiça ou essa maldade, raciocina teu sentimento, a fim de que não se transmude em cólera. Diz a ti mesmo: é para suportar isto que necessito de sabedoria; não seria uma velha dívida que pago? Se me deixar perturbar, não tardarei a cair. Não estamos todos sob a mão do grande Obreiro e não sabe ele melhor que eu o instrumento de que deve servir-se? Que conselhos eu daria ao meu amigo se o visse na minha posição? Não lhe traria à memória a gradação dos seres? não lhe perguntaria se uma planta silvestre produz frutos tão bons quanto uma árvore enxertada? se gostaria de continuar tão atrasado quanto o perverso, a fim de poder assemelhar-se a ele? se o golpe que acaba de receber não cortou um elo que desconhecia ou que ele próprio não tinha força de romper? Não terminaria eu por fixar o seu olhar sobre esta felicidade eterna, preço do complemento de uma harmonia na qual só fazemos progressos à medida que nos esclarecemos e nos destacamos dos miseráveis interesses de onde nascem os choques contínuos e nos elevamos acima do finito?” (pág. 310).
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