Livros Espíritas
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Seria incompleto nosso estudo se não volvêssemos rápida vista para o papel que representou na História a crença nas vidas sucessivas. Essa doutrina domina toda a antiguidade. Vamos encontrá-la no âmago das grandes religiões do Oriente e nas obras filosóficas mais puras e elevadas. Guiou na sua marcha as civilizações do passado e perpetuou-se de idade em idade. Apesar das perseguições e dos eclipses temporários, reaparece e persiste através dos séculos em todos os países. Oriunda da Índia, espalhou-se pelo mundo. Muito antes de terem aparecido os grandes reveladores dos tempos históricos, era ela formulada nos Vedas e notadamente no “Bhagavad-Gitâ”. O Bramanismo e o Budismo nela se inspiraram e, hoje ainda, seiscentos milhões de asiáticos – o dobro do que representam todas as agremiações cristãs reunidas – crêem na pluralidade das existências. O Japão mostrou-nos, há pouco, o poder de tais crenças num povo. A coragem magnífica, o espírito de sacrifício que os japoneses mostram em frente da morte, a sua impassibilidade em presença da dor, todas essas qualidades dominadoras, que fizeram a admiração do mundo em circunstâncias memoráveis, não tiveram outra causa. Depois da batalha de Tsushima, diz-nos o Journal, numa cena de melancolia grandiosa, diante do Exército reunido no cemitério de Aoyama, em Tóquio, o Almirante Togo falou, em nome da Nação, e dirigiu-se aos mortos em termos patéticos. Pediu às almas desses heróis que “protegessem a marinha japonesa, freqüentassem os navios e reencarnassem em novas equipagens”.(172) Se, com o Prof. Izoulet, comentando no Colégio de França a obra do autor americano Alf. Mahan sobre o Extremo Oriente, admitirmos que a verdadeira civilização está no ideal espiritual e que, sem ele, os povos caem na corrupção e na decadência, o Japão, força será reconhecê-lo, está destinado a um grande futuro. Voltemos à antiguidade. O Egito e a Grécia adotaram a mesma doutrina. À sombra de um simbolismo mais ou menos obscuro, esconde-se por toda parte a universal palingenesia. A antiga crença dos egípcios é-nos revelada pelas inscrições dos monumentos e pelos livros de Hermes: “Tomada na origem, diz-nos o Sr. de Vogue, a doutrina egípcia apresenta-nos a viagem às terras divinas como uma série de provas, ao sair das quais se opera a ascensão na luz”; mas, o conhecimento das leis profundas do destino estava reservado só para os adeptos.(173) No seu recente livro, La Vie et la Mort, A. Dastre exprime-se assim:(174) “No Egito a doutrina das transmigrações era representada por imagens hieráticas surpreendentes. Cada ser tinha o seu duplo. Ao nascer, o egípcio é representado por duas figuras. Durante a vigília as duas individualidades se confundem numa só; mas, durante o sono, ao passo que uma descansa e restaura os órgãos, a outra se lança no país dos sonhos. Não é, entretanto, completa essa separação; só o será pela morte ou, antes, a separação completa é que será a própria morte. Mais tarde esse duplo ativo poderá vir vivificar outro corpo terrestre e ter, assim, uma nova existência semelhante.” Na Grécia vamos encontrar a doutrina das vidas sucessivas nos poemas órficos; era a crença de Pitágoras, Sócrates, Platão, Apolônio e Empédocles. Com o nome de metempsicose (175) falam dela muitas vezes nas suas obras em termos velados, porque, em grande parte, estavam ligados pelo juramento iniciático; contudo, ela é afirmada com clareza no último livro da República, em Fedra, em Timeu e em Fédon. “É certo que os vivos nascem dos mortos e que as almas dos mortos tornam a nascer.” (Fedra.) “A alma é mais velha que o corpo. As almas renascem incessantemente do Hades para tornarem à vida atual.” (Fédon.) A reencarnação era festejada pelos egípcios nos mistérios de Ísis e, pelos gregos, nos de Elêusis, com o nome de mistérios de Perséfone, em cujas cerimônias só os iniciados tomavam parte. O mito de Perséfone era a representação dramática dos renascimentos, a história da alma humana passada, presente e futura, sua descida à matéria, seu cativeiro em corpos de empréstimo, sua reascensão por graus sucessivos. As festas eleusianas duravam três dias e traduziam, em comovente trilogia, as alternações da vida dupla, terrestre e celeste. Ao cabo dessas iniciações solenes, os adeptos eram sagrados.(176) Quase todos os grandes homens da Grécia foram iniciados, adoradores fervorosos da grande deusa; foi em seus ensinamentos secretos que eles beberam a inspiração do gênio, as formas sublimes da arte e os preceitos da sabedoria divina. Quanto ao povo, eram-lhe apenas apresentados símbolos; mas, por baixo da transparência dos mitos, aparecia a verdade iniciática do mesmo modo que a seiva da vida transuda da casca da árvore. A grande doutrina era conhecida do mundo romano. Ovídio, Vergílio, Cícero, em suas obras imorredouras, a ela fazem alusões freqüentes. Vergílio, na Eneida,(177) assevera que a alma, mergulhando no Letes, perde a lembrança das suas existências passadas. A escola de Alexandria deu-lhe brilho vivíssimo com as obras de Filo, Plotino, Amônio denominado Sakas, Porfírio, Jâmblico, etc. Plotino, falando dos deuses, diz: “A cada um eles proporcionam o corpo que lhe convém e que está em harmonia com seus antecedentes, conforme suas existências sucessivas.” Os livros sagrados dos hebreus, o Zohar, a Cabala, o Talmude, afirmam igualmente a preexistência e, com o nome de ressurreição, a reencarnação era a crença dos fariseus e dos essênios.(178) Da mesma crença encontram-se também vestígios numerosos no Antigo e no Novo Testamento, por entre textos obscuros ou alterados, por exemplo, em certas passagens de Jeremias e de Job, depois no caso de João Batista, que foi Elias, no do cego de nascença e na conversação particular de Jesus com Nicodemos. Lê-se em Mateus:(179) “Em verdade vos digo que, dentre os filhos das mulheres, nenhum há maior que João Batista, e se quiserdes ouvir, é ele mesmo que é Elias que há de vir. Aquele que tem ouvidos para ouvir, ouça.” De outra vez interrogaram ao Cristo os seus discípulos, dizendo:(180) “Por que dizem então os escribas que é necessário que volte Elias primeiro?” Jesus respondeu-lhes: “É verdade que Elias há de vir primeiro e restabelecer todas as coisas; mas digo-vos que Elias já veio, mas eles não o reconheceram e fizeram-lhe o que quiseram.” Então os discípulos compreenderam que era de João Batista que ele falara. Um dia Jesus pergunta aos seus discípulos o que diz dele o povo. Eles respondem:(181) “Uns dizem que és João Batista, outros Elias, outros Jeremias, ou algum dos antigos profetas que voltou ao mundo.” Jesus, em vez de dissuadi-los, como se eles tivessem falado de coisas imaginárias, contenta-se com acrescentar: “E vós quem credes que sou eu?” Quando encontra o cego de nascença, os discípulos perguntam-lhe se esse homem nasceu cego por causa dos pecados dos pais ou dos pecados que cometeu antes de nascer. Acreditavam, pois, na possibilidade da reencarnação e na preexistência possível da alma. Sua linguagem fazia até acreditar que essa idéia estava divulgada e Jesus parece autorizá-la, em vez de combatê-la. Fala das numerosas moradas de que se compõe a casa do Pai e Orígenes, comentando essas palavras, acrescenta: “O Senhor alude às diferentes estações que as almas devem ocupar depois de terem sido privadas dos seus corpos atuais e de terem sido revestidas de outros.” Lemos no Evangelho de João:(182) “Havia entre os fariseus um homem chamado Nicodemos, um dos principais dentre os judeus. Esse homem veio de noite ter com Jesus e disse-lhe: “Mestre, sabemos que és um doutor vindo da parte de Deus, porque ninguém poderia fazer os milagres que fazes, se Deus não estivesse com ele.” Jesus respondeu-lhe: “Em verdade te digo que, se um homem não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus.” Nicodemos disse-lhe: “Como pode um homem nascer quando é velho? Pode tornar a entrar no ventre de sua mãe e nascer segunda vez?” Jesus responde: “Em verdade te digo que, se um homem não nascer de água e de espírito, não pode entrar no reino de Deus. O que é nascido da carne, é carne; o que é nascido do espírito, é espírito. Não te admires do que te disse: é necessário que nasças de novo. O vento sopra onde quer e tu lhe ouves o ruído, mas não sabes donde vem nem para onde vai. Sucede o mesmo com todo homem que é nascido do espírito.” A água representava entre os hebreus a essência da matéria, e quando Jesus afirma que o homem tem de renascer de água e de espírito, não é como se dissesse que tem de renascer de matéria e de espírito, isto é, em corpo e alma? Jesus acrescenta estas palavras: “Tu és mestre em Israel e ignoras estas coisas?” Não se tratava, pois, do batismo, que todos os judeus conheciam. As palavras de Jesus tinham um sentido mais profundo e sua admiração devia traduzir-se assim: “Tenho para a multidão ensinamentos ao seu alcance, e não lhe dou a verdade senão na medida em que ela a pode compreender. Mas contigo, que és mestre em Israel e que, nessa qualidade, deves ser iniciado em mistérios mais elevados, entendi poder ir mais além.” Essa interpretação parece tanto mais exata quanto mais está em relação com o Zohar, que, repetimos, ensina a pluralidade dos mundos e das existências. O Cristianismo primitivo possuía, pois, o verdadeiro sentido do destino. Mas, com as sutilezas da teologia bizantina, o sentido oculto desapareceu pouco a pouco; a virtude secreta dos ritos iniciáticos desvaneceu-se como um perfume sutil. A escolástica abafou a primeira revelação com o peso dos silogismos ou arruinou-a com sua argumentação especiosa. Entretanto, os primeiros padres da Igreja e, entre todos, Orígenes e São Clemente de Alexandria, pronunciaram-se em favor da transmigração das almas. São Jerônimo e Ruffinus (Carta a Anastácio) afirmam que ela era ensinada como verdade tradicional a um certo número de iniciados.
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(172) Ver o Journal de 12 de dezembro, artigo do Sr. Ludovic Nandeau, testemunha da cerimônia. Ver, principalmente, Iamato Damachi, ou a alma japonesa, e o livro do professor americano Hearn, matriculado em uma universidade japonesa: Hakoro, ou a idéia da preexistência.
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(173) Ver Depois da Morte - A doutrina secreta, o Egito, caps. I e III.
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(174) Citação de P. C. Revel, Le Hasard, sa Loi et ses Conséquences, pág. 193.
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(175) O vulgo não quer ver hoje na metempsicose mais do que a passagem da alma humana para o corpo de seres inferiores. Na Índia, no Egito e na Grécia era ela considerada, de um modo mais geral, como a transmigração das almas para outros corpos humanos. Tendemos a crer que a descida da alma à humanidade num corpo inferior não era, como a idéia do inferno no Catolicismo, mais do que um espantalho destinado, no pensamento dos antigos, a apavorar os maus. Qualquer retrogradação dessa espécie seria contrária à justiça, à verdade; além de que o desenvolvimento do organismo ou perispírito, vedando ao ser humano continuar a adaptar-se às condições da vida animal, torná-la-ia, aliás, impossível.
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Nota 5:
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(176) Ver Ed. Schuré, Sanctuaires d'Orient, págs. 254 e seguintes.
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Nota 6:
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(177) Eneida, VI, 713 e seg.
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Nota 7:
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(178) Lê-se no Zohar, II: “Todas as almas estão sujeitas à revolução (metempsicose, aleen b'gilgulah), mas os homens não conhecem as vias de Deus, o que é bom.” José (Antiq. XVIII, I, $ 3) diz que o virtuoso terá o poder de ressuscitar e viver de novo.
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Nota 8:
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(179) Mateus, XI, 9, 14, 15.
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Nota 9:
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(180) Mateus, XVII, 10 a 15.
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Nota 10:
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(181) Mateus, XVI, 13, 14; Marcos, VIII, 28.
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Nota 11:
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(182) João, III, 3 a 8.
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