Livros Espíritas
Sugerir Edição de Documento
Editar documento
Título:
Autor:
Espiritos:
Capítulo:
Conteúdo:
20000
caracteres restantes
“Contrariamente ao que se vê muitas vezes em casos análogos, nenhuma idéia erótica se mistura ou parece juntar-se à idéia demoníaca. Eu mesmo me surpreendi com essa particularidade, por ser comum a todas as doentes: nenhuma diz a mais leve palavra ou faz o menor gesto obsceno. Em seus mais desordenados movimentos, jamais se descobrem e se seus vestidos se levantam um pouco quando rolam por terra, é muito raro que não os recomponham imediatamente. “Não parece que haja aqui lesão da sensibilidade genital; assim, jamais se tratou de íncubos e súcubos, ou de cenas de feitiçaria. Todas as doentes pertencem, como demonomaníacas, ao segundo dos quatro grupos indicados pelo Sr. Macário; algumas escutam a voz dos diabos; muito mais geralmente falam por sua boca. “Depois da grande desordem, pouco a pouco os movimentos se tornam menos rápidos; alguns gases se escapam pela boca e a crise termina. A doente olha em redor com ar um pouco espantando, arruma os cabelos, apanha e coloca o seu gorro, bebe alguns goles de água e retoma o seu trabalho, caso fizesse algum quando a crise começara. Quase todas dizem não sentir cansaço, nem se lembram do que disseram ou fizeram. “Nem sempre esta última afirmação é sincera; surpreendi algumas que se lembravam muito bem; apenas acrescentavam: ‘Bem sei que ele (o diabo) disse ou fez tal coisa, mas não sou eu. Se minha boca falou, se minhas mãos bateram, era ELE que as fazia falar e bater; bem que eu queria ficar tranqüila, mas ELE é mais forte que eu.’ “Esta é a descrição do estado mais freqüente; mas entre os extremos existem vários graus, desde a doente que só tem crises de gastralgia, até a que chega ao último paroxismo do furor. Feito este reparo não encontrei, em nenhuma das doentes visitadas, diferenças dignas de nota, à exceção de umas poucas. “Uma, chamada Jeanne Br..., quarenta e oito anos, solteira, histérica de velha data, sente animais que não passam de diabos, que lhe correm pelo rosto e a mordem. “A mulher Nicolas B..., trinta e oito anos, doente há três anos, late durante as crises. Atribui sua doença a um copo de vinho que bebeu em companhia de um desses que fazem mal. “Jeanne G..., trinta e sete anos, não casada, é aquela cujas crises diferem mais. Não tem movimentos clônicos generalizados, que se vêem nas outras e quase nunca fala. Desde que sente vir a crise, vai sentar-se e se põe a balançar a cabeça para a frente e para trás; inicialmente lentos e pouco pronunciados, os movimentos vão se acelerando e acabam fazendo a cabeça descrever um círculo com incrível rapidez, cada vez mais amplo, até vir alternativa e regularmente bater o dorso e o peito. A intervalos o movimento cessa por um instante e os músculos contraídos mantêm a cabeça fixa na posição em que se encontrava ao parar, sem que seja possível, mesmo com esforços, reerguê-la ou flexioná-la. “Victoire V..., vinte anos, foi uma das primeiras a adoecer, aos dezesseis anos. Assim conta seu pai o que ela sofreu: “Jamais tinha sentido algo, quando um dia foi assaltada pelo mal na igreja. Durante os dois ou três primeiros dias apenas saltava um pouco. Um dia trouxe o meu jantar na paróquia, onde eu trabalhava; nesse momento o sino tocava, anunciando o Ângelus, quando, de repente, ela se pôs a saltar e se jogou no chão, gritando e gesticulando, jurando após o badalar do sino. Como casualmente lá se achasse o cura de Montriond, ela o injuriou, chamou-o s... ch... de Montriond. O cura de Morzine também veio para junto dela, no momento em que a crise terminava, mas logo ela recomeçou, porque ele fez o sinal da cruz em sua fronte. Tinham-na exorcizado várias vezes, mas vendo que nada a curava, nem exorcismos nem outra coisa, levei-a a Genebra, ao Sr. Lafontaine (magnetizador); ali permaneceu um mês e voltou completamente curada. Guardou equilíbrio por cerca de três anos. “Há seis semanas houve uma recidiva, mas ela já não tinha crise. Não queria ver ninguém e se trancava em casa; só comia quando eu tinha algo de bom para lhe dar, pois do contrário não podia engolir. Não se sustentava em pé e nem ao menos movia os braços. Várias vezes tentei pô-la de pé, mas ela não se sentia e logo caía, desde que eu não mais a sustentava. Então resolvi levá-la ao Sr. Lafontaine. Não sabia como conduzi-la; ela me disse: ‘Quando estiver na comuna de Montriond andarei bem.’ Auxiliado por um de meus vizinhos, nós a carregamos até Montriond. Mas logo do outro lado da ponte ela andou só e se queixava apenas de um gosto horrível na boca. Depois de duas sessões com o Sr. Lafontaine já estava melhor e agora está empregada como doméstica.’ “Foi geralmente notado, diz o Dr. Constant, que uma vez fora da comuna, só raramente as doentes têm crises. “Um dia, o prefeito, que me acompanhava, foi surpreendido por uma doente que, violentamente, lhe atirou uma pedra contra o rosto. Quase ao mesmo instante outra doente se precipitava sobre ele, armada com um grande pedaço de pau, para também lhe bater. Vendo esta vir, ele lhe mostrou a extremidade pontiaguda de sua bengala ferrada, ameaçando perfurar-lhe o corpo, caso avançasse. Ela parou, deixou cair o porrete e contentou-se em injuriá-lo. “Não obstante as corridas, os saltos e os movimentos violentos e desordenados das doentes; malgrado as pancadas a que se entregam, seus terrores e divagações, não se citam tentativas de suicídio nem acidentes graves com qualquer delas. Assim, não perdem inteiramente a consciência e ao menos subsiste o instinto de conservação. “Se, ao iniciar a crise, uma mulher segura o filho nos braços, acontece muitas vezes que um diabo menos mau que o que vai operá-la lhe diz: ‘Deixa esta criança; ele (outro diabo) lhe faria mal.’ Por vezes dá-se o mesmo quando têm uma faca ou outro instrumento susceptível de causar ferimentos. “Como as mulheres, os homens sofreram a influência da crença que a todos deprime em graus diversos, embora neles os efeitos tenham sido menores e bastante diferentes. Alguns sentem absolutamente as mesmas dores que as mulheres; como estas, eles sentem sufocações, experimentam uma sensação de estrangulamento e acusam a sensação da bola histérica, mas nenhum chegou às convulsões; e se houve alguns raros exemplos de acidentes convulsivos, quase sempre podem ser atribuídos a um estado mórbido anterior e diferente. O único representante do sexo masculino que pareceu ter tido crises da mesma natureza que as das moças foi o jovem T... São geralmente as moças de quinze a vinte e cinco anos que foram atingidas. Ao contrário, no sexo oposto, com exceção do jovem T..., são apenas homens maduros, como acabo de dizer, aos quais as vicissitudes da vida poderiam perfeitamente ter trazido outras preocupações pré-existentes, ou acrescentadas às causadas pela doença.” Depois de haver discutido a maioria dos fatos extraordinários narrados a respeito das doentes de Morzine, e tentado provar o estado de degradação física e moral dos habitantes em conseqüência de afecções hereditárias, acrescenta o Dr. Constant: “É, pois, necessário ter como certo que tudo quanto se diz em Morzine, uma vez restabelecida a verdade, acha-se consideravelmente reduzido. Cada um concebeu sua história e quis ultrapassar o outro. Tais exageros se encontram em todas os relatos de epidemias desse gênero. Ainda mesmo que alguns fatos fossem reais em todos os pontos e escapassem a toda interpretação, seria motivo para lhes buscar uma explicação fora das leis naturais? Corresponderia a dizer que todos os agentes, cujo modo de ação ainda não foram descobertos e escapam à nossa análise, são necessariamente sobrenaturais. “Tudo o que se viu em Morzine, sobretudo aquilo que se conta poderá, para certas pessoas, ser interpretado como sinal manifesto de uma possessão, mas é, também, muito certamente, o de uma moléstia complexa que recebeu o nome de histero-demonomania. “Em suma, acabamos de ver uma região cujo clima é rude e a temperatura muito variável, onde a histeria, em todos os tempos, foi considerada endêmica; uma população cuja alimentação, sempre a mesma para todos, mais pobres ou menos pobres, e sempre má, é composta de alimentos geralmente alterados, que podem provocar, e provocam, desarranjos das funções dos órgãos da nutrição e, por aí, nevroses particulares; uma população de constituição pouco robusta e especial, marcada muitas vezes por predisposições hereditárias; ignorantes e vivendo num isolamento quase completo; muito piedosa, mas de uma piedade que tem por base mais o medo que a esperança; muito supersticiosa e cuja superstição, essa chaga que São Tomé chamava um vício oposto à religião por excesso, tem sido mais alimentada que combatida; embalada por histórias de feitiçaria que são, fora das cerimônias da Igreja, a única distração que a severidade religiosa exagerada não pôde impedir; de uma imaginação viva, muito impressionável, que precisaria de algum alimento e que não o encontra senão nessas mesmas cerimônias.” Resta-nos examinar as relações que podem existir entre os fenômenos acima descritos e os que se produzem nos casos de obsessão e subjugação bem constatados, o que sem dúvida cada um já terá notado: o efeito dos meios curativos empregados, as causas da ineficácia do exorcismo e as condições nas quais podem ser úteis. É o que faremos no próximo e último artigo. Por ora diremos, como o Dr. Constant, que não há necessidade de buscar no sobrenatural a explicação dos efeitos desconhecidos; neste ponto concordamos perfeitamente com ele.
Mais opções
Nota 1:
5000
caracteres restantes
(10) Vide os números de dezembro de 1862, janeiro e fevereiro de 1863.
Formatar
Nova Nota
Nota 2:
5000
caracteres restantes
(11) Brochura in-8, Livraria de Adrien Delahaye, place de l’École-de- Médecine. Preço: 2 fr.
Formatar
Nova Nota
Nota 3:
5000
caracteres restantes
(12) N. do T.: A palavra paróquia (paroisse) não deve ser aqui entendida na sua acepção ordinária, de “circunscrição eclesiástica”, mas como “unidade administrativa rural do Antigo Regime (Ancien Régime) francês.”
Formatar
Nova Nota
Nota 4:
5000
caracteres restantes
(13) N. do T.: A grafia correta é Morzine, e não Morzines, como muitas vezes aparece no texto original.
Formatar
Nova Nota
TAG
Valor
Mensagem para o avaliador (caso precise explicar suas sugestões):
3000
caracteres restantes
Criado por (coloque telefone ou e-mail caso seja necessário entrar em contato):
Cancelar
Salvar
Aguarde um momento...
×
Deseja sair do sistema?
×
Confirma a operação?
×