Livros Espíritas
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Sou muito grato pela perspectiva do futuro glorioso que me fazeis entrever, o qual alcançarei quando estiver depurado. Sofro muito, mas parece que os sofrimentos diminuem. Não posso acreditar que, no mundo dos Espíritos, a dor diminua pouco a pouco à força do hábito. O que compreendo é que as vossas preces salutares me aumentaram as forças: embora minhas dores sejam as mesmas, sofro menos, visto que a força de que disponho é maior. Meu pensamento se reporta à minha última existência, sobre as faltas que poderia ter evitado se soubesse orar. Hoje compreendo a eficácia da prece; compreendo o valor dessas mulheres honestas e piedosas, fracas pela carne, porém fortes pela fé; compreendo, enfim, esse mistério ignorado pelos pretensos sábios da Terra. Prece! Palavra que por si só provoca o riso dos Espíritos fortes. Aqui os espero no mundo espiritual e, quando o véu que lhes encobre a verdade se romper para eles, então, por sua vez, se prosternarão aos pés do Eterno, a quem desprezaram, e serão felizes em se humilhar para que seus pecados e crimes sejam revelados! Só então haverão de compreender a virtude da prece. Orar é amar, e amar é orar! E eles amarão o Senhor e lhe dirigirão preces de reconhecimento e de amor, regenerados pelo sofrimento. E, visto que devem sofrer, pedirão como eu peço a força necessária ao sofrimento e à expiação. Quando deixarem de sofrer, hão de orar ainda para agradecer o perdão merecido por sua submissão e resignação. Oremos, irmão, para que mais me fortaleça... Oh! obrigado, irmão, à tua caridade, pois que estou perdoado. Deus me liberta do olhar das minhas vítimas. Oh! meu Deus! Bendito sejais vós por toda a eternidade, pela graça que me concedeis! Oh! meu Deus! Sinto a enormidade dos meus crimes e curvo-me ante a vossa onipotência. Senhor! Eu vos amo de todo o meu coração e vos suplico a graça de me permitirdes, quando for da vossa vontade, sofrer novas provações na Terra; voltar a ela como missionário da paz e da caridade, ensinando as crianças a pronunciar com respeito o vosso nome. Peço-vos que me seja possível ensinar que vos amem, a vós, que sois Pai de todas as criaturas. Oh! obrigado, meu Deus. Sou um Espírito arrependido, e o meu arrependimento é sincero. Eu vos amo, tanto quanto meu impuro coração pode comportá-lo, com esse pensamento que é pura emanação da vossa divindade. Oremos, irmão, pois meu coração transborda de reconhecimento. Estou livre, quebrei os grilhões, não sou mais um réprobo. Sou um Espírito sofredor, mas arrependido, e gostaria que o meu exemplo pudesse conter nos umbrais do crime todas as mãos criminosas que vejo prestes a se levantarem. Oh! para trás, irmãos, recuai, pois as torturas que preparais para vós mesmos são atrozes! Não acrediteis que o Senhor se deixará tão prontamente submeter à prece dos seus filhos. São séculos de torturas que vos esperam. O guia do médium – Dizes que não compreendes as palavras do Espírito. Procura ter uma ideia da sua emoção e do seu reconhecimento para com o Senhor, coisa que ele não acredita poder testemunhar melhor do que tentando demover todos esses criminosos por ele vistos, mas que tu não podes ver. Ele gostaria que as suas palavras chegassem aos ouvidos deles; mas o que ele não te disse, porque o ignora ainda, é que lhe será permitido iniciar missões reparadoras. Irá para junto dos que lhe foram cúmplices, procurando inspirar-lhes arrependimento, implantando em seus corações o germe do remorso. Frequentemente se veem na Terra pessoas tidas por honestas se lançarem aos pés de um sacerdote para se acusarem de um crime. É o remorso quem lhes dita a confissão da culpa. E se o véu que te encobre o mundo invisível se desfizesse, verias muitas vezes o Espírito cúmplice ou instigador de um crime, tal como o fará Jacques Latour, inspirando o remorso ao Espírito encarnado, na ânsia de reparar a própria falta. Teu guia protetor Mais tarde, o médium de Bruxelas, o mesmo que recebera o primeiro ditado, obteve o seguinte: “Nada mais receeis de mim. Estou mais tranquilo, embora ainda sofra. Vendo o meu arrependimento, Deus teve compaixão de mim. Agora sofro por causa desse arrependimento, a revelar a enormidade dos meus crimes. Bem aconselhado na vida, eu não teria jamais praticado todo esse mal, porém, sem repressão, sem nenhum freio a tolher-me, obedeci cegamente aos meus instintos. Se todos os homens pensassem mais em Deus, ou se ao menos nele acreditassem, tais faltas não seriam cometidas. A justiça dos homens, porém, é falha; por uma falta muitas vezes passageira o homem é lançado no cárcere, que não deixa de ser um foco de perdição e de perversão. Daí ele sai completamente corrompido pelos maus exemplos recebidos. Mesmo que a sua índole seja boa e forte para não se deixar corromper, ao sair da prisão vai encontrar fechadas todas as portas, retraídas todas as mãos, indiferentes todos os corações. Que lhe resta, pois? O desgosto, a miséria, o abandono e o desespero, se é que o assistem boas resoluções de se corrigir. Então a miséria o leva a extremos e ele passa também a desprezar os semelhantes, a odiá-los, já que perde a noção do bem e do mal, por se ver repelido, a despeito das boas intenções que o animam. Para angariar o necessário, rouba, às vezes mata, e depois... a guilhotina! “Meu Deus, ao ser presa novamente das minhas alucinações, sinto que a vossa mão se estende por sobre mim; sinto que a vossa bondade me envolve e protege. Obrigado, meu Deus! Na próxima existência empregarei toda a minha inteligência no socorro aos infelizes que sucumbiram, a fim de os preservar da queda. E obrigado a vós, que não desdenhais de comunicar comigo; nada receeis, pois bem vedes que não sou mau. Quando pensardes em mim, não figureis o meu retrato pelo que vistes de mim, mas o de uma alma angustiada que agradece a vossa indulgência. Adeus; evocai-me ainda e orai a Deus por mim.” Latour Estudo sobre o Espírito Jacques Latour – Não se pode desconhecer a profundeza e a alta significação de algumas das frases encerradas nesta comunicação. Além disso, ela oferece um dos aspectos do mundo dos Espíritos em castigo, pairando ainda assim sobre ele a Misericórdia divina. A alegoria mitológica das Eumênides não é tão ridícula como parece, e os demônios, carrascos oficiais do mundo invisível, que as substituem perante as modernas crenças, são menos racionais, com seus chifres e forcados, do que estas vítimas que servem elas próprias ao castigo do culpado. Admitindo-se a identidade deste Espírito, talvez se estranhe tão rápida mudança do seu moral. É o caso da ponderação já feita em outra ocasião, de que pode um Espírito brutalmente mau ter em si melhores predicados do que o dominado pelo orgulho, que oculta seus vícios sob o véu da hipocrisia. Esse pronto retorno a melhores sentimentos indica uma natureza mais selvagem do que perversa, à qual apenas faltava boa direção. Comparando a sua linguagem com a de outro criminoso, mencionado logo a seguir, sob a epígrafe castigo pela luz, é fácil concluir qual dos dois está mais adiantado moralmente, apesar da diferença de instrução e posição social; um obedece ao natural instinto de ferocidade, a uma espécie de superexcitação, ao passo que o outro imprime na perpetração dos seus crimes a calma e o sangue-frio peculiares às lentas e obstinadas combinações, afrontando ainda depois de morto o castigo, por orgulho. Este sofre e não o confessa, ao passo que aquele prontamente se submete. Também por aí podemos prever qual deles sofrerá por mais tempo. Diz o Espírito Latour: “Sofro por causa desse arrependimento, a revelar-me a enormidade dos meus crimes.” Aí está um pensamento profundo. O Espírito só compreende a gravidade dos seus malefícios depois que se arrepende. O arrependimento acarreta o pesar, o remorso, o sentimento doloroso, que é a transição do mal para o bem, da doença moral para a saúde moral. É para fugirem a isso que os Espíritos perversos se revoltam contra a voz da consciência, quais doentes a repelirem o remédio que os há de curar. E assim procuram iludir-se, aturdir-se e persistir no mal. Latour chegou a esse período em que o endurecimento acaba por ceder. Entra-lhe o remorso pelo coração, o arrependimento o assedia e compreende a extensão do mal que fez, vê a sua degradação e sofre dela. Eis por que ele diz: “Sofro por causa desse arrependimento.” Na precedente encarnação, ele devia ter sido pior que na última, visto que, se se tivesse arrependido como agora, a vida subsequente lhe teria sido melhor. As resoluções que agora toma influirão sobre a sua vida terrestre no futuro; e a encarnação que acaba de deixar, por mais criminosa que tenha sido, marcou para ele uma etapa de progresso. É mais que provável que antes de iniciá-la ele fosse, na erraticidade, um desses muitos Espíritos rebeldes, obstinados no mal. Muitas pessoas têm perguntado qual será o proveito dessas existências passadas, já que delas não nos lembramos e nem temos ideia do que fomos ou do que fizemos. Ora, esta questão já está resolvida; se o mal que cometemos fosse apagado da nossa memória, se não nos restasse nenhum traço dele no coração, tal lembrança seria inútil e com ele não nos devemos preocupar. Quanto aos vícios de que porventura não estejamos inteiramente despojados, nós os conhecemos pelas nossas tendências atuais, e para elas é que devemos voltar todas as atenções. Basta saber o que somos, sem que seja necessário saber o que fomos.
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