Livros Espíritas
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Certo, acreditando haver transmitido a nós outros os ensinamentos que podíamos receber, a nobre mensageira recomendou a Elói trouxesse Margarida àquele plenário amoroso, deixando perceber que pretendia consolidar-lhe o equilíbrio e fortalecer-lhe a resistência. Transcorridos alguns minutos, a esposa de Gabriel, que se convertera em objeto de nossas melhores atenções naqueles dias, desligada do envoltório denso, compareceu no cenáculo. Mostrava passo vacilante e estranho alheamento no olhar, revelando a semi-inconsciência em que se demorava. Ao que me pareceu, a luz reinante não lhe afetou o olhar. Caracterizava-se, naquela hora, pelos movimentos impulsivos, caminhando, em nosso meio, qual se fora sonâmbula vulgar. Maquinalmente se asilou nos braços maternos que Matilde lhe oferecia e, tão depressa se acolheu no regaço da benfeitora que a envolvia em doce ternura, reagiu, favoravelmente, contemplando-nos, então, assustadiça. Parecia acordar, pouco a pouco… A protetora, interessada em despertar-lhe alguns centros importantes da vida mental começou a aplicar-lhe passes ao longo do cérebro, operações que não pude compreender tão bem quanto desejava. Reparei, contudo, que Matilde lhe aplicava recursos magnéticos sobre os condutores nervosos do órgão de manifestação do pensamento, tanto quanto ao longo de toda a região do simpático, esclarecendo-me o Instrutor, mais tarde, que o estado natural da alma encarnada pode ser comparado, em maior ou menor grau, à hipnose profunda ou à anestesia temporária, a que desce a mente da criatura através de vibrações mais lentas, peculiares aos Planos inferiores, para fins de evolução, aprimoramento e redenção, no espaço e no tempo. Fenômenos de metabolismo, na organização perispirítica, fizeram-se patentes à nossa observação, porque Margarida expelia, através do tórax e das mãos, fluidos cinzento-escuros, em forma de vapor tenuíssimo, a desfazer-se no vasto oceano de oxigênio comum. Logo após semelhante “operação de limpeza”, as zonas do sistema endocrínico emitiam radiações diamantinas, figurando-se uma constelação de caprichosos contornos a brilhar nas sombras do perispírito, até ali opaco e vulgar. Do peito de Matilde ondas luminosas partiam ininterruptas e tudo nos fazia crer que a tutelada de Gúbio se achava, naquela hora, num banho autêntico de essências divinas. A certa altura do singular processo de despertamento, a jovem senhora abriu desmedidamente os olhos, qual criança espantada, e fixou-nos com expressão de assombro, ensaiando movimentos de recuo e pavor. Mas, em se voltando para o semblante doce e iluminado da benfeitora, aquietou-se, brandamente, como que magnetizada por indefinível amor. Matilde osculou-a, enternecida, e, ao contato daqueles lábios sublimes, Margarida, mostrando-se tocada nos recessos do ser, abraçou-lhe o busto, evidenciando ânsia suprema de integração espiritual. Parecendo desvairada de repentino júbilo, bradou, em lágrimas comoventes: — Mãe! Querida mãezinha! — Sim, minha filha, sou eu, — disse a interlocutora, afagando-a com extremado afeto; — o amor jamais desaparece! A união das almas vence o tempo e a morte. — Porque me abandonaste? — Inquiriu a esposa de Gabriel, colando-se-lhe ao coração, num transporte de inexprimível ventura. — Nunca te esqueci, — elucidou a benfeitora, acolhendo-a com mais intensa ternura. — O país da “neblina carnal” muitas vezes parece distanciar-nos uns dos outros; entretanto, sombra alguma conseguirá separar-nos. Nossas aspirações e esperanças se confundem, quais pontos de luz, nas trevas da separação, assim como as estrelas se assemelham a balizas brilhantes no nevoeiro noturno, recordando-nos o infinito e a eternidade. Ao som caricioso daquelas palavras, a ex-obsidiada parecia acordar cada vez mais largamente em nosso Plano. De olhos ansiosos, fixos na protetora, como que magnetizada por incomensurável afeto, ponderou, entre lágrimas: — Mãezinha querida, estou cansada e infeliz! — Quando a boa luta apenas começa? — Perguntou Matilde, sorrindo. — Sinto-me cercada de inimigos sem entranhas. Devo ser atormentada dia e noite. Noto invencível antagonismo entre meus sentimentos e a realidade humana. O próprio matrimônio, em que eu depositava os mais caros sonhos, não me foi senão escuro livro de desenganos cruéis. Trago meu coração extenuado e oprimido. Frustração e ruína espiritual seguem-me de perto… Por isto, sou um fardo pesado ao esposo dedicado e digno de melhor sorte… Soluços violentos impediram-na de continuar. A veneranda emissária enxugou-lhe o pranto e falou, bondosa: — Margarida, viver no corpo terrestre, entendendo os deveres divinos que nos cabem, não é tão fácil, ante a glória infinita que em companhia dele podemos recolher. Todos possuímos culposo pretérito a redimir. É imperioso reconhecer, todavia, que, se a experiência humana pode ser doloroso curso de renunciação pessoal, é também abençoada escola em que o Espírito de boa vontade pode alcançar culminâncias. Para isto, no entanto, é indispensável se abra o coração ao clima interior da bondade e do entendimento. Somos diamantes brutos, revestidos pelo duro cascalho de nossas milenárias imperfeições, localizados pela magnanimidade do Senhor na ourivesaria da Terra. A dor, o obstáculo e o conflito são bem-aventuradas ferramentas de melhoria, funcionando em nosso favor. Que dizer da pedra preciosa que fugisse às mãos do lapidário, do barro que repelisse a influência do oleiro? Modifica as mais íntimas disposições, com referência aos adversários. O inimigo nem sempre é uma consciência agindo deliberadamente no mal. Na maioria das vezes, atende à incompreensão quanto qualquer de nós; procede em determinada linha de pensamento, porque se acredita em roteiro infalível aos próprios olhos, nos lances do trabalho a que se empenhou nos círculos da vida; enfrenta, qual ocorre a nós mesmos, problemas de visão que só o tempo, aliado ao esforço pessoal na execução do bem, conseguirá decidir. O batráquio e a ave caracterizam-se por impulsos diferentes, não obstante filhos do mesmo mundo. É necessário, Margarida, sabermos utilizar o inimigo, nele situando nossa lição benfeitora. A rigor, em vista da nossa posição de inferioridade, seremos adversários naturais da obra dos Anjos, na Esfera menos elevada que atravessamos presentemente; todavia, as Potências Angélicas não nos punem a incapacidade temporária de compreensão ante os serviços divinos que lhes cabem na economia do Universo. Ao invés de condenar-nos, identificam-nos as deficiências compadecidamente e estendem-nos braços fraternos, através de mil recursos invisíveis e indiretos, a fim de que aprendamos a escalar o monte da sublimação, em marcha para os cumes celestes. Verificando-se pequena pausa nas observações maternais, a jovem senhora obtemperou, enlevada: — Amada mãezinha! Pudessem meus ouvidos guardar sempre a doce música de tuas palavras! Tristemente, antevejo o torvelinho das dificuldades terrenas a que devo retornar. Tudo agora é consolação e esperança; todavia, amanhã serei novamente prisioneira no cárcere físico e caminharei de memória anestesiada, em conflito incessante com os monstros que me assediam! — Este, filha, — acrescentou Matilde, afetuosa, — é o imperativo da tarefa que te compete realizar. Entretanto, não percas os tesouros do tempo em considerações inúteis. Enche as tuas horas de trabalho salutar com a possível harmonia, fonte de toda a beleza. A inteligência que, de algum modo, já se evadiu das limitações da animalidade, encontra-se no corpo de carne, à maneira do lidador num estádio de provas benfeitoras. Lá dentro, na arena das possibilidades sublimes que a região do nevoeiro oferece, há quem se encaminhe para cima e há quem se dirija para baixo. Não fujas ao óbice valioso na corrida de aperfeiçoamento, nem sorvas o mentiroso elixir da ilusão, apaixonadamente usado por todos os que se deixaram vencer pelas tentações do desânimo, incapazes de aceitar o desafio que o mundo lhes endereça. A vida, para toda alma que triunfa no carreiro áspero, é serviço, movimento, ascensão; e, à rajada de luta que te conduzirá ao píncaro luminoso, não te suponhas sozinha na jornada áspera, outras, aos milhares, suam e sangram, em silêncio. Passam na cena do mundo, sem o afeto de um esposo e sem a bênção de um lar. Não conhecem, como tu, a dádiva de um corpo normal, nem podem guardar os mínimos sonhos que arregimentas no coração feminil. São homens esquecidos e mulheres desamparadas que passam despercebidos e humilhados, do berço ao túmulo. Respiram em regime de tortura moral e seguem, estrada afora, desprotegidos e dilacerados, aos olhos do mundo, abafando os próprios soluços que, se ouvidos, lhes acarretariam implacável punição. Entretanto, apesar do espesso véu de lágrimas que lhes dificulta a marcha, continuam caminhando impávidos, contando com um amanhã, cada vez mais impreciso e distante, que parece ocultar-se, indefinido, nos horizontes sem fim. Margarida, que assinalava enternecidamente a argumentação, rogou, súplice: — Mãezinha querida, ensina-me a continuar. Desejo honrar a bendita oportunidade que recebi! — Não procures ser atendida em todos os teus desejos, — falou a benfeitora, suavemente, — mas procura servir, fraternalmente, a quantos te reclamem arrimo e braço forte. Ajuda, antes de procurares auxílio. Compreende, sem exigir compreensão imediata. Desculpa os outros, sem desculpar a ti mesma. Ampara, sem a intenção de ser amparada. Dá, sem o propósito de receber.
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