Livros Espíritas
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Decorridos alguns momentos, prosseguiu, acentuando: — Estejam certos de que serão meus credores para sempre. Tendo-se em conta a elevada posição da diretora da Casa Transitória, comovia-nos semelhante demonstração de humildade. Constrangidos quase, diante de seu exemplo cristão, seguimo-la a pequena eminência do solo, vagamente iluminada, onde dois companheiros velavam diante de alguém estendido em decúbito dorsal. A mentora benevolente dispensou ambos os auxiliares, recomendando-lhes integrar a comissão de serviço, que se postara distante. Em seguida, Zenóbia aproximou-se, maternalmente, e, deixando-nos surpresos, sentou-se na erva rasteira, colocando a cabeça do infeliz no regaço carinhoso. Aquele homem, trajando burel esfarrapado e negro, exibia horripilante fácies. Não obstante a sombra, viam-se-lhe os traços fisionômicos, que inspiravam compaixão. Cabelos em desalinho, olhos fundos na caverna das órbitas, boca e nariz tumefactos em horrível máscara de ódio e indiferença, dava ele a impressão de celerado comum, que só a enfermidade conseguira imobilizar para a prestação de contas com a justiça. Não acusou emoção alguma ao contato daquele colo amoroso e nem se apercebeu de nossa presença amiga. De olhar parado no espaço, num misto de desespero e zombaria, semelhava-se a uma estátua de insensibilidade, vestida de farrapos hediondos. — Domênico! Domênico! — Chamou a Irmã Zenóbia, com ternura fraternal. Deveria o interpelado experimentar extrema dificuldade na audição, porque só depois de pronunciado o seu nome, diversas vezes, foi que, como alguém que registrasse sons de muito longe, exclamou irritadiço: — Quem chama? Quem chama? Oh! poderes orgulhosos que desconheço, deixai-me no inferno! Não atenderei a ninguém, não desejo o Céu reservado a prediletos… pertenço aos demônios do abismo! Não me perturbem!… Odeio, odiarei para sempre!… — Quem te chama?! — Considerou a diretora, delicada e afetuosamente, — somos nós que te desejamos o bem. O infeliz, entretanto, ao que observei, não se apercebeu da frase confortadora, porque continuou praguejando, insensível: — Malvados! Gozam no paraíso, enquanto sofremos dores atrozes! Hão de pagar-nos! Deram-me direitos no mundo, prometeram-me a paz celestial, conferiram-me privilégios sacerdotais e precipitaram-me nas trevas! Desalmados! Satã é mais benigno!… Nossa venerável irmã, no entanto, longe de irritar-se, falou pacientemente: — Pediremos a Jesus te restitua, ainda que por alguns momentos, o dom de ouvir. Solicitando-nos acompanhar-lhe a rogativa, invocou: — Senhor, dá que possamos amparar teu infeliz tutelado! Tens o pão que extingue a fome de justiça, a água eterna que sacia a sede de paz, o remédio que cura, o bálsamo que alivia, o verbo que esclarece, o amor que santifica, o recurso que salva, a luz que revela o bem, a providência que retifica, o manto acolhedor que envolve a esperança em tua misericórdia!… Mestre, tu, que fazes descer a bendita luz de teu reino aos que ainda choram no vale das sombras, concede que o teu discípulo transviado possa ouvir aqueles que o amam!… Pastor Divino, compadece-te da ovelha desgarrada do aprisco de teu coração! Permite que aos seus ouvidos tenham acesso os ecos suaves de teu infinito amor!… Concede-nos semelhante alegria, não por méritos que não possuímos, mas por acréscimo de tua inesgotável bondade!… Oh! Mais uma vez, reconheci que a prece é talvez o poder máximo conferido pelo Criador à criatura! Em seguida à súplica, sensibilizado, observei que de todos nós se irradiavam forças brilhantes que alcançavam o tórax de Zenóbia, como a reforçar-lhe as energias, e de suas mãos carinhosas e beneméritas, então iluminadas de claridade doce e branda, emanavam raios diamantinos. A amorável amiga colocou-as sobre a fronte do desventurado; oferecendo-nos a certeza de que maravilhosas energias se haviam improvisado em benefício dele. Chamou-o, novamente, grave e terna. O interpelado, agora, revelando capacidade auditiva diferente, fez imenso esforço por levantar-se, tateou em torno de si, e bradou: — Quem está aqui? — Somos nós — respondeu Zenóbia, desvelada, — que trabalhamos em teu favor, a fim de que obtenhas paz e luz. — Quimeras! — Gritou o infortunado, acusando alguma transformação íntima, — fui traído em meu ministério sacerdotal, negaram-me os direitos prometidos, fui espezinhado e ferido! Que desejais de mim? Lastimar-me? Não necessito da compaixão alheia. Aconselhar-me? Impossível. Estou cego e atormentado no inferno por deliberado menosprezo das forças divinas que me desampararam totalmente! — Domênico, — falou-lhe, então, Hipólito, a pedido da orientadora, que lhe fez silencioso gesto de solicitação, nesse sentido, dando-nos a ideia de que não desejava empregar a própria voz, na conversação que se iniciava, — não te rebeles contra a determinação da Justiça Divina. — Justiça? — Replicou ele, vibrando de emotividade, — e não tenho fome do direito? não possuía eu prerrogativas no apostolado? não fui sacerdote fiel à crença? Há muitos anos padeço nas trevas e ninguém se lembrou de fazer-me justiça. — Acalma-te! — disse o nosso companheiro com voz firme, — a consciência é juiz de cada um de nós. Possivelmente envergaste a batina fiel à crença, mas desleal ao dever. Temos conosco alguém com bastante poder de penetração nos escaninhos de tua vida mental. Espera! Vamos orar em silêncio para que a bênção do Senhor se faça sentir em teu coração e, em seguida, passaremos a auxiliar-te para que releias, com a serenidade precisa, o livro de tuas próprias ações, compreendendo a longa permanência nos despenhadeiros fatais. O infeliz emudeceu por momentos e, tomados do forte desejo de auxílio, endereçamos fervorosa súplica à Esfera Superior, rogando lenitivo para o sofredor e bastante luz para a nossa irmã Luciana, a fim de que pudesse ver aquela consciência culpada com a eficiência precisa.
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[Vide: ao uso de itens materiais no Mundo Invisível do Plano Espiritual, como edificações providas dos mais diversos objetos, aparelhos, veículos de transporte, etc.]
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[No original: “organizações preciosas e indispensáveis.”]
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[No original: “expedição Fabiano,”]
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[No original: “Casa Planetária,”]
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