Livros Espíritas
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Devemos à gentileza de um de nossos assinantes a interessante notícia que se segue, tirada das crônicas de Froissard, provando que os Espíritos não são uma descoberta moderna. Pedimos permissão aos nossos leitores para relatá-la no estilo da época (Século XIV); ela perderia a sua originalidade, caso fosse traduzida para a linguagem moderna. A batalha de Juberoth é célebre nas crônicas antigas. Ocorreu durante a guerra que João, rei de Castela, e Diniz, rei de Portugal, travaram para sustentar suas respectivas pretensões sobre o último reino. Os castelhanos e os bearneses foram reduzidos a pedaços. O fato que Froissard relata nessa ocasião é dos mais singulares. Lê-se no capítulo XVI do livro III de sua crônica que, no dia seguinte à batalha, o conde de Foix foi informado quanto ao seu resultado, o que a distância dos lugares tornava inconcebível naquela época. É um escudeiro do conde Foix que narra a Froissard o fato em questão: “Todo o dia de domingo, e o dia de segunda-feira e o de terça-feira seguinte, estando o conde de Foix em seu castelo, em Ortais, apresentava o semblante tão fechado e tão duro que dele não se arrancava uma única palavra. Durante esses três dias não quis sair de seu quarto, nem falar ao cavaleiro, nem ao escudeiro, por mais próximo que estivessem, a menos que os chamasse; e ainda aconteceu que ordenou se afastassem aqueles com os quais não desejava trocar uma só palavra naqueles três dias. Quando chegou terça-feira à noite, ele chamou seu irmão, Arnaut-Guillaume, e lhe disse baixinho: Nossa gente enfrentou dificuldades que me enfureceram, pois, como lhes dissera ao partirem, cabaram sendo assaltados em viagem. Arnaut-Guillaume, que é um homem muito prudente e um cavaleiro audacioso, conhecendo a maneira e a condição de seu irmão, calou-se, e o conde, que desejava experimentar sua coragem, por haver durante muito tempo suportado seu aborrecimento, tomou ainda a palavra e falou mais alto do que o fizera da primeira vez, dizendo: Por Deus, Senhor Arnaut, é assim como vos digo e logo teremos notícias, mas nunca o país de Béarn perdeu tanto, desde cem anos até hoje, como perdeu desta vez em Portugal. Vários cavaleiros e escudeiros que estavam presentes e que viram e compreenderam o conde, não ousaram falar. E então, dez dias mais tarde, soube-se a verdade por parte daqueles que lá haviam estado por dever de ofício, os quais lhe contaram primeiramente, fazendo-o em seguida a todos quantos quisessem ouvir, todas as coisas, na forma e maneira por que se deram em Juberoth. Isto renovou o pesar do conde e da gente de seu país, que lá haviam perdido seus irmãos, seus pais, seus filhos e seus amigos. “Santa Maria! – disse eu ao escudeiro que me narrava a história – como pôde o conde de Foix saber, sem presumir, da noite para o dia? – Por minha fé, disse ele, ele o sente bem, como o demonstrou. – Então é adivinho, disse eu; ou tem mensageiros que cavalgam tão rápido quanto o vento, ou deve se tratar de alguma artimanha. – O escudeiro começou a rir e disse: É preciso que ele o saiba por alguma espécie de necromancia. A bem da verdade, nada sabemos, nesta terra, como ele a usa, a não ser por suposição. Então, disse eu ao escudeiro, tende a bondade de me dizer e declarar a imaginação que pensais, e eu vos serei grato. E se é uma coisa para calar, calarei; jamais abrirei minha boca, haja o que houver no mundo. – Peço-vos, disse o escudeiro, pois não gostaria que soubessem que eu o tivera dito. Então me levou para um ângulo do castelo de Ortais e depois começou a fazer o seu relato, dizendo: “Há cerca de vinte anos, reinava neste país um barão que se chamava Raymon, Senhor de Corasse. Como sabeis, Corasse é uma cidade a sete léguas desta cidade de Ortais. Ao tempo em que vos falo o Senhor de Corasse tinha um pleito em Avinhão, perante o papa, sobre os dízimos da Igreja, em sua cidade, contra um padre da Catalunha, muito abastado e que reclamava direitos sobre esses dízimos de Corasse, que bem valiam uma renda anual de cem florins, e o direito que ele tinha mostrava e provava; por sentença definitiva, o papa Urbano V, em consistório geral, condenou o cavaleiro e julgou a favor do padre. Da última sentença do papa levou carta e cavalgou tantos dias que chegou ao Béarn e mostrou suas bulas e suas cartas e entrou na posse desse dízimo. O Senhor de Corasse adiantou-se e disse ao padre: Mestre Pedro, ou Mestre Martin – tal era o seu nome – pensais que por vossas cartas eu deva perder minha herança? Não vos considero tão atrevido a ponto de a tomar, nem que leveis as coisas que são minhas, porquanto se o fizerdes arriscais vossa vida. Mas ide a outra parte impetrar benefícios, porque de minha herança nada obtereis; e, de uma vez por todas, eu vo-lo proíbo. O padre desconfiou do cavaleiro, que era cruel, e não ousou insistir. Avisou que retornaria a Avinhão, como de fato o fez. Mas quando devia partir, veio à presença do cavaleiro e Senhor de Corasse e lhe disse: Pela força, e não pelo direito, vós me tirais os direitos de minha Igreja, com o que, em consciência, praticais grande erro. Não sou tão forte neste país como vós o sois, mas sabei que o mais cedo que eu poder, eu vos enviarei um campeão que temereis mais do que a mim. O Senhor de Corasse, não levando em consideração essas ameaças, disse-lhe: Vai a Deus, vai, faze o que puderes; eu não temo, morto ou vivo; já por tuas palavras não perderei minha herança. “Assim se foi o padre e voltou, não sei para onde, para a Catalunha ou para Avinhão, e não esqueceu o que havia dito ao partir o Senhor de Corasse, porque, quando o cavaleiro menos pensava, cerca de três meses depois, em seu castelo, enquanto dormia em seu leito, ao lado de sua mulher, surgiram mensageiros invisíveis que começaram revolver tudo quanto encontravam no castelo, parecendo que queriam tudo arrasar, desferindo golpes tão grandes no quarto do senhor que a dama, que lá estava, ficou completamente apavorada. O cavaleiro ouvia tudo isso muito bem, mas não emitiu uma só palavra, por não querer demonstrar falta de coragem. Assim, foi bastante astucioso para enfrentar todas as aventuras. Essas confusões e desordens em vários locais do castelo duraram muito tempo, cessando depois. Na manhã seguinte todos os hóspedes se reuniram e vieram ao senhor, à hora em que ele se levantou, e lhe perguntaram: Senhor, não ouvistes o que ouvimos esta noite? O Senhor de Corasse disse que não. Que coisas ouvistes? Então lhe falaram sobre a tempestade que se abateu no castelo, derrubando e quebrando toda a louça da cozinha. Ele se pôs a rir e disse que eles haviam sonhado e que fora apenas o vento. Em nome de Deus – disse a senhora – eu também ouvi. “Quando, em seguida, veio a outra noite, ainda voltaram aquelas tempestades, provocando maior barulho que antes e dando golpes tão grandes nas portas e nas janelas do quarto do cavaleiro que parecia que tudo ia romper-se. O cavaleiro saiu do leito e não pôde nem quis obter o que desejava: Quem é que bate assim a esta hora à porta do meu quarto? Logo lhe responderam: Sou eu. O cavaleiro perguntou-lhe: Quem te envia? – Envia-me o padre da Catalunha, a quem fazes grande mal, porque lhe tiras os direitos de seus benefícios. Não te deixarei em paz enquanto não lhe prestares boa conta e ele não ficar contente. “O cavaleiro perguntou: Como te chamas, tu que és tão bom mensageiro? – Chamam-me Orthon. – Orthon, disse o cavaleiro, o serviço de um padre nada te vale. Ele te dará e te fará muito sofrimento. Se queres crer-me, peço-te, deixa-me em paz e serve-me, e eu te serei muito grato. – Othon julgou por bem responder, porque logo se aproximou do cavaleiro e lhe disse: Quereis? – Sim, disse o cavaleiro, mas que não faças mal a ninguém nesta casa. – A ninguém, disse Orthon; não tenho nenhum poder a não ser te despertar e te impedir de dormir, a ti ou aos outros. – Faze o que te digo, disse o cavaleiro, e entraremos em acordo; deixa esse padre malvado, que nada possui de bom em si, exceto que pena por ti; assim, serve-me. – Já que o queres, disse Orthon, eu o quero. “Assim esse Orthon se ligou de tal modo ao Senhor de Corasse, que muitas vezes vinha vê-lo à noite; e quando o encontrava dormindo puxava o travesseiro ou dava pancadas nas portas e nas janelas do quarto, despertando o cavaleiro, que lhe dizia: Orthon, deixa-me dormir. Não o farei, dizia Orthon, sem que antes te dê notícias. A esposa do cavaleiro, então, teve tão grande medo que seus cabelos se eriçaram, levando-a a esconder-se sob as cobertas. – Então, perguntava o cavaleiro, que novidades me trazes? – Respondeu Orthon: Venho da Inglaterra, ou da Hungria ou de outro lugar. Saí ontem e aconteceram tais coisas. Assim, soube o Senhor de Corasse, através de Othon, tudo quanto se passava pelo mundo. Manteve esse mensageiro durante cinco anos e não podia calar-se nem fazer-se descobrir ao conde de Foix, pela maneira por que vos direi. No primeiro ano o Senhor de Corasse veio diversas vezes ao conde de Foix, em Ortais, e lhe dizia: Senhor, tal coisa aconteceu na Inglaterra, ou na Alemanha, ou em outro país; e o conde de Foix, após verificar que tudo era verdade, ficava maravilhado de como vinha a saber tais coisas. E tanto insistiu uma vez que o Senhor de Corasse terminou por dizer-lhe como e por quem lhe vinham tais notícias.
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