Livros Espíritas
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Espiritos:
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Senhoras, senhores, e todos vós, meus caros e bons irmãos em Espiritismo. A acolhida tão amiga e benévola que recebo entre vós, desde a minha chegada, seria bastante para me encher de orgulho, se eu não compreendesse que tais testemunhos se dirigem menos à pessoa do que à doutrina, da qual não passo de um dos mais humildes operários; é a consagração de um princípio e me sinto duplamente feliz, porque esse princípio deve um dia assegurar a felicidade do homem e o repouso da sociedade, quando for bem compreendido e, melhor ainda, bem praticado. Seus adversários só o combatem porque não o compreendem. Cabe a nós, aos verdadeiros espíritas, aos que vêem no Espiritismo algo além de experiências mais ou menos curiosas, fazê-lo compreendido e espalhado, tanto pregado pelo exemplo quanto pela palavra. O Livro dos Espíritos teve como resultado fazer ver o seu alcance filosófico. Se esse livro tem algum mérito, seria presunção minha orgulhar-me disso, porquanto a doutrina que encerra não é criação minha. Toda honra do bem que ele fez pertence aos sábios Espíritos que o ditaram e quiseram servir-se de mim. Posso, pois, ouvir o elogio, sem que seja ferida a minha modéstia, e sem que o meu amor-próprio por isso fique exaltado. Se eu quisesse prevalecer-me disto, por certo teria reivindicado a sua concepção, em vez de atribuí-la aos Espíritos; e se pudesse duvidar da superioridade daqueles que cooperaram, bastaria considerar a influência que ele exerceu em tão pouco tempo, só pelo poder da lógica, sem contar com nenhum dos meios materiais próprios para superexcitar a curiosidade. Seja como for, senhores, a cordialidade do vosso acolhimento para mim será um poderoso estímulo na tarefa laboriosa que empreendi e da qual fiz a razão de minha vida, pois me dá a certeza consoladora de que os homens de coração já não são tão raros neste século material, como se comprazem em afirmar. Os sentimentos que em mim fazem nascer esses testemunhos benevolentes são mais bem compreendidos do que expressos, e o que lhes dá, aos meus olhos, um valor inestimável, é que não têm por móvel nenhuma consideração pessoal. Agradeço-vos do fundo do coração, em nome do Espiritismo e, sobretudo, em nome da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, que ficará feliz com as demonstrações de simpatia com que vos dignais de lhe dar, e orgulhosa de contar em Lyon tão grande número de bons e leais confrades. Permiti-me descrever, nalgumas palavras, as impressões que levo de minha breve passagem entre vós. A primeira coisa que me impressionou foi o número de adeptos. Eu bem sabia que Lyon os contava em grande número, mas estava longe de suspeitar que fosse tão considerável, pois são contados às centenas e logo, espero, não se poderá mais contá-los. Mas se Lyon se distingue pelo número, não o faz menos pela qualidade, o que é ainda melhor. Por toda parte só encontrei espíritas sinceros, que compreendem a doutrina sob seu verdadeiro ponto de vista. Há, senhores, três categorias de adeptos: os que se limitam a acreditar na realidade das manifestações e que, antes de mais, buscam os fenômenos. Para eles o Espiritismo é uma série de fatos mais ou menos interessantes. Os segundos vêem algo mais do que fatos; compreendem o seu alcance filosófico; admiram a moral que dele resulta, mas não a praticam. Para eles a caridade moral é uma bela máxima, e eis tudo. Os terceiros, enfim, não se contentam em admirar a moral: praticam-na e aceitam todas as suas conseqüências. Bem convencidos de que a existência terrena é uma prova passageira, tratam de aproveitar esses curtos instantes para marchar na senda do progresso que lhes traçam os Espíritos, esforçando-se por fazer o bem e reprimir suas inclinações más. Suas relações são sempre seguras, porque suas convicções os afastam de todo pensamento do mal. Em tudo a caridade lhes é regra de conduta. São estes os verdadeiros espíritas, ou melhor, os espíritas-cristãos. Muito bem, senhores! Eu vos digo com satisfação que aqui não encontrei nenhum adepto da primeira categoria. Em parte alguma vi se ocuparem do Espiritismo por mera curiosidade, ou se servirem das comunicações para assuntos fúteis. Em toda parte o objetivo é nobre, as intenções honestas e, a crer no que vejo e no que me dizem, há muitos da terceira categoria. Honra, pois, aos espíritas lioneses, por haverem tão generosamente penetrado essa via progressiva, sem a qual o Espiritismo não teria objetivo! Tal exemplo não será perdido; terá suas conseqüências e não foi sem razão, bem o vejo, que outro dia os Espíritos me responderam, por um dos vossos médiuns mais dedicados, conquanto um dos mais obscuros, quando eu lhes exprimia a minha surpresa: “Por que te admirar? Lyon foi a cidade dos mártires. A fé aqui é viva; ela fornecerá apóstolos ao Espiritismo. Se Paris é o cérebro, Lyon será o coração.” A coincidência desta resposta, com a que vos foi dada precedentemente, e que o Sr. Guillaume acaba de recordar em sua alocução, tem algo de muito significativo. A rapidez com que a doutrina propagou-se nos últimos tempos, apesar da oposição que ainda encontra, ou, talvez, por isso mesmo, pode fazer prever-lhe o futuro. Por uma questão de prudência, evitemos tudo quanto possa produzir uma impressão desagradável e – não digo perder uma causa já assegurada – retardar-lhe o desenvolvimento. Sigamos nisto os conselhos dos sábios Espíritos e não esqueçamos que, neste mundo, muitos sucessos foram comprometidos por excessiva precipitação. Também não nos esqueçamos de que nossos inimigos do outro mundo, assim como os deste, podem procurar arrastar-nos por um caminho perigoso. Houvestes por bem me pedir alguns conselhos e para mim é um prazer vos dar aqueles que a experiência poderá sugerir-me. Não será mais que uma opinião pessoal, que vos convido a ponderar com a vossa sabedoria e da qual fareis o uso que vos parecer conveniente, pois não tenho a pretensão de me impor como árbitro absoluto. Tínheis a intenção de formar uma grande sociedade. A respeito já vos disse a minha maneira de pensar, de sorte que me limito a resumi-la aqui. Sabe-se que as melhores comunicações são obtidas em reuniões pouco numerosas34, sobretudo naquelas em que reinam harmonia e comunhão de sentimentos. Ora, quanto maior for o número, mais difícil será a obtenção dessa homogeneidade. Como é impossível que no começo de uma ciência, ainda tão nova, não surjam algumas divergências na maneira de apreciar certas coisas, dessa divergência infalivelmente nasceria um mal-estar, que poderá levar à desunião. Ao contrário, os pequenos grupos serão sempre mais homogêneos; as pessoas se conhecem melhor, estão mais em família e podem ser mais bem admitidos as que desejamos. E, como em última análise, todos tendem para um mesmo objetivo, podem entender-se perfeitamente e haverão de entender-se tanto melhor quanto não haja aquele melindre incessante, que é incompatível com o recolhimento e a concentração de espírito. Os Espíritos maus, que buscam incessantemente semear a discórdia, ferindo suscetibilidades, terão sempre menos domínio num pequeno grupo do que num meio numeroso e heterogêneo. Numa palavra, a unidade de vistas e de sentimento nele será mais fácil de estabelecer. A multiplicidade dos grupos tem outra vantagem: a de obter uma variedade muito maior de comunicações, pela diversidade de aptidão dos médiuns. Que essas reuniões parciais comuniquem reciprocamente o que elas obtêm, cada uma por seu lado, de modo que todas aproveitem os seus mútuos trabalhos. Aliás, chegará o momento em que o número de aderentes não permitiria mais uma reunião única, que deveria fracionar-se pela força das coisas. Eis por que preferível é fazer imediatamente aquilo que serão obrigados a fazer mais tarde. Incontestavelmente, do ponto de vista da propaganda, não é nas grandes reuniões que os neófitos podem colher elementos de convicção, mas na intimidade. Há, pois, um duplo motivo para preferir os pequenos grupos, que podem multiplicar-se ao infinito. Ora, vinte grupos de dez pessoas, por exemplo, indiscutivelmente obterão mais e farão mais prosélitos que uma reunião única de duzentas pessoas. Há pouco falei das divergências que podem surgir, e disse que elas não deviam criar obstáculos ao perfeito entendimento entre os diferentes centros. Com efeito, essas divergências só podem dar-se nos detalhes e não sobre o fundo. O objetivo é o mesmo: o melhoramento moral; o meio é o mesmo: o ensino dado pelos Espíritos. Se tal ensino fosse contraditório; se, evidentemente, um devesse ser falso e o outro verdadeiro, notai bem que isto não poderia alterar o objetivo, que é conduzir o homem ao bem, para sua maior felicidade presente e futura. Ora, o bem não poderia ter dois pesos e duas medidas. Do ponto de vista científico ou dogmático é, contudo, útil ou, pelo menos, interessante, saber quem está certo e quem está errado. Pois bem! Tendes um critério infalível para o apreciar, quer se trate de simples detalhes, quer de sistemas radicalmente divergentes; e isto se aplica não somente aos sistemas espíritas, mas a todos os sistemas filosóficos.
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(34) N. do T.: Vide O Livro dos Médiuns, Segunda parte, capítulo XXIX, especialmente o item 332.
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