Livros Espíritas
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CAUSAS DA OBSESSÃO E MEIOS DE COMBATÊ-LA Terceiro artigo O estudo dos fenômenos de Morzine não oferecerá nenhuma dificuldade quando estivermos imbuídos dos fatos particulares que citamos e das considerações que um estudo atento delas permitiu deduzir. Bastará relatá-los para que cada um encontre em si mesmo sua aplicação por analogia. Os dois fatos seguintes ainda nos ajudarão a orientar o leitor. O primeiro nos é transmitido pelo Dr. Chaigneau, membro honorário da Sociedade de Paris e presidente da Sociedade Espírita de Saint-Jean d’Angely. “Uma família fazia evocações com um ardor desenfreado, induzida por um Espírito que nos foi indicado como muito perigoso. Era um de seus parentes, morto depois de uma vida pouco recomendável e terminada por vários anos de alienação mental. Sob nome falso, por surpreendentes provas mecânicas, belas promessas e conselhos de irreprochável moralidade, tinha conseguido fascinar de tal modo aquela gente muito crédula, a ponto de submetê-la às suas exigências e forçá-la a praticar os atos mais excêntricos. Não mais podendo satisfazer a todos os seus desejos, pediram o nosso conselho e tivemos muito trabalho para dissuadi-los e provar-lhes que lidavam com um Espírito da pior espécie. Conseguimo-lo e pudemos obter que, ao menos por algum tempo, eles se abstivessem. A partir de então a obsessão tomou outro caráter: o Espírito se apoderava completamente do filho mais jovem, de catorze anos, o reduzia ao estado de catalepsia e, por sua boca, solicitava entrevistas, dava ordens e fazia ameaças. Aconselhamos o mais absoluto mutismo, que foi observado rigorosamente. Os pais entregaram-se à prece e vinham procurar um de nós para os assistir. O recolhimento e a força de vontade sempre nos fizeram mestre em poucos minutos. “Hoje, praticamente, tudo cessou. Esperamos que, na casa, a ordem sucederá à desordem. Longe de se revoltarem contra o Espiritismo, crêem mais que nunca e com mais seriedade. Agora compreendem seu fim e as conseqüências morais. Todos entendem que receberam uma lição; alguns uma punição, talvez merecida.” Mais uma vez este exemplo prova o inconveniente de nos entregarmos às evocações sem conhecimento de causa e sem objetivo sério. Graças aos conselhos da experiência que aquelas pessoas ouviram, puderam desembaraçar-se de um inimigo, talvez perigoso. Um outro ensinamento, não menos importante, ressalta do fato em questão. Aos olhos das pessoas estranhas à ciência espírita, o rapaz teria passado por louco; não teriam deixado de lhe aplicar o tratamento correspondente, que, talvez, desenvolvesse uma loucura real. Com a assistência de um médico espírita, o mal, atacado em sua verdadeira causa, não teve nenhuma conseqüência. Já o mesmo não se deu no fato seguinte. Um senhor de nosso conhecimento, que mora numa cidade do interior bastante refratária às idéias espíritas, foi tomado subitamente por uma espécie de delírio, no qual dizia coisas absurdas. Como se ocupasse de Espiritismo, naturalmente falava de Espíritos. Aqueles que o cercavam, assustados e sem penetrar a coisa, cuidaram de chamar os médicos que, para grande satisfação dos inimigos do Espiritismo, o declararam atacado de loucura; já se falava até mesmo em interná-lo numa casa de saúde. Tudo quanto soubemos das circunstâncias daquele acontecimento prova que aquele senhor se achou, de repente, sob o império de uma subjugação momentânea, talvez favorecida por certas predisposições físicas. Foi a idéia que ele teve. Escreveu-nos e nós lhe respondemos nesse sentido. Infelizmente nossa carta não lhe chegou a tempo e dela só teve conhecimento muito mais tarde. “É lastimável”, disse-nos ele depois, “que não tenha recebido vossa carta consoladora; naquele momento ela me teria feito um imenso bem, confirmando o pensamento de que eu era joguete de uma obsessão, o que me teria tranqüilizado, pois, de tanto ouvir repetir que eu estava louco, acabei por acreditar. A idéia me torturava de tal modo que, se tivesse continuado, não sei o que teria acontecido.” Consultado a respeito, um Espírito respondeu: “Esse senhor não é louco; mas a maneira por que o tratam poderá torná-lo louco; mais ainda: poderiam matá-lo. O remédio para o seu mal está no próprio Espiritismo e o tomam em sentido contrário.” – Pergunta: Daqui poderíamos agir sobre ele? – Resposta: Sim, sem dúvida. Podeis fazer-lhe o bem, mas a vossa ação é paralisada pela má vontade dos que o cercam. Casos análogos têm ocorrido em todas as épocas; e muitos foram encarcerados como loucos, sem o serem absolutamente. Só um observador experimentado nestes assuntos pode apreciá-los; e como se encontram hoje muitos médicos espíritas, em casos semelhantes convém recorrer a eles. Um dia a obsessão será colocada entre as causas patológicas, como o é hoje a ação de seres microscópicos, de cuja existência não se suspeitava antes da invenção do microscópio; mas, então, reconhecerão que nem as duchas nem as sangrias poderão curá-la. O médico que não admite e não busca senão as causas puramente materiais é tão inapto a compreender e tratar tais afecções, quanto um cego o é para discernir as cores. O segundo caso nos é relatado por um de nossos correspondentes de Boulogne-sur-Mer: “A mulher de um marinheiro desta cidade, de quarenta e cinco anos, está há quinze anos sob o império de uma triste subjugação. Quase todas as noite, sem mesmo excetuar as do período de gravidez, é despertada por volta da meia-noite e logo tomada de tremores nos membros, como se fossem agitados por uma pilha galvânica; o estômago fica comprimido como que por um círculo de ferro e queimado por um ferro em brasa; o cérebro num estado de exaltação furiosa; sente-se atirada fora do leito e, por vezes, sai de casa seminua a correr pelo campo; marcha sem saber por onde durante duas ou três horas e somente ao parar é que sabe onde se encontra. Não pode orar a Deus e, ao ajoelhar-se para o fazer, suas idéias sofrem a intromissão de coisas bizarras e até sujas. Não pode entrar em nenhuma igreja, embora muito deseje fazê-lo; mas ao chegar à porta, sente como uma barreira que a detém. Quatro homens tentaram fazê-la entrar na igreja dos redentoristas e não o conseguiram: ela gritava que a estavam matando, que lhe esmagavam o peito. “Para se livrar dessa terrível situação, a pobre mulher tentou dar cabo à vida, por várias vezes, sem o conseguir. Ingeriu café no qual havia dissolvido fósforo; tomou lixívia sem nada sofrer; jogou-se duas vezes na água, mas flutuava até que alguém a socorresse. Fora dos momentos de crise de que falei, essa mulher é completamente normal e, mesmo durante os acessos, tem plena consciência do que faz e da força exterior que sobre ela atua. Toda a vizinhança diz que ela foi alvo de um malefício ou de um sortilégio.” A subjugação não poderia ser mais bem caracterizada a não ser pelos fenômenos que, sem sombra de dúvida, só podem ser obra de um Espírito da pior espécie. Dirão que foi o Espiritismo que o atraiu para ela ou lhe transtornou o cérebro. Mas há quinze anos não se cogitava disto. Aliás, essa mulher não é louca e o que experimenta não é uma ilusão. A Medicina ordinária não verá nesses sintomas senão uma dessas afecções a que dá o nome de nevrose e cuja causa, para ela, ainda é um mistério. A afecção é real, mas a todo efeito corresponde uma causa. Ora, qual a causa primeira? Eis o problema, cuja solução pode dar o Espiritismo ao demonstrar um novo agente no perispírito e a ação do mundo invisível sobre o mundo visível. Não generalizamos absolutamente, e reconhecemos que, em certos casos, a causa pode ser puramente material; mas há outros em que a intervenção de uma inteligência oculta é evidente, porquanto, combatendo essa inteligência, detém-se o mal, ao passo que, atacando a suposta causa material, nada se produz. Há um traço característico nos Espíritos perversos: é a sua aversão a tudo quanto se prende à religião. A maioria dos médiuns não obsedados que receberam comunicações de Espíritos maus, muitas vezes os viram blasfemar contra as coisas mais sagradas, rir-se da prece e repeli-la, chegando mesmo a irritar-se quando se lhes fala em Deus. No médium subjugado, o Espírito, dispondo de cerca de um terço do corpo para agir, exprime seus pensamentos não mais pela escrita, mas por gestos e palavras que provoca no médium. Ora, como todo fenômeno espírita não pode produzir-se sem uma aptidão mediúnica, pode dizer-se que a mulher de quem falamos é um médium espontâneo, inconsciente e involuntário. A impossibilidade em que se encontra de orar e entrar na igreja vem da repulsão do Espírito que dela se apoderou, pois sabe que a prece é um meio de fazê-lo largar a presa. Em vez de uma pessoa, suponde, na mesma localidade, dez, vinte, trinta ou mais no mesmo estado e tereis a reprodução do que se passou em Morzine.
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(3) Vide os números de dezembro de 1862 e janeiro de 1863.
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