Livros Espíritas
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Somos o nosso próprio passado. Dormem soterradas nos tenebrosos porões do inconsciente as razões das nossas angústias de hoje, tanto quanto estão em nós as conquistas positivas, que lutam por consolidar-se na complexidade da nossa psicologia, tentando suplantar os apelos negativos que insistem em infelicitar-nos. Estamos a caminho da redenção quando damos apoio consciente às tendências do bem em nós, quando estimulamos, com as nossas lágrimas, e cultivamos, com amor e sofrimento, as sementeiras da paz. Se, ao contrário, nos deixamos dominar pelas sombras que trazemos no íntimo, paramos no tempo, enquanto se aprofundam em nós as raízes do desequilíbrio, no terreno fértil das paixões que julgamos tragicamente indomáveis, quando são, simplesmente, indomadas. É preciso saber que cabe a nós — e a ninguém mais — domá-las; mas, enquanto nos apraz o erro, todo o nosso esforço é posto na tarefa inglória de manter soltas as paixões, e presas as recordações. São de incontestável importância estas noções, no trabalho de desobsessão. Para o Espírito atormentado pelos seus desequilíbrios, o futuro não importa, o passado não interessa e o presente é a única realidade que aceitam e manipulam livremente, segundo os impulsos do momento. Comprimidos numa estreita faixa de presente, que procuram viver com toda a intensidade possível, entre um futuro que ainda não existe e um passado que procuram ignorar, esquecem-se de que não poderão, jamais, fugir às suas responsabilidades e compromissos. Quando os advertimos dessas incongruências funestas, respondem-nos que não estão preocupados com o futuro, dado que, ao chegar a vez de sofrerem pelos seus erros, saberão fazê-lo com dignidade e coragem. Esperam, naturalmente, ser tão valentes perante a dor própria, quanto o são perante a alheia. Trágico e doloroso engano é esse; mas, que se há de fazer? Temos a impenitente propensão para rejeitar como inválida a experiência alheia. Quanto mais arrogante e belicoso o companheiro desarvorado, maior a dor que experimenta ao despertar para as realidades que procurou ignorar por tanto tempo. A dor dos grandes criminosos é terrível, comovedora, trágica, desesperada, nesses momentos dramáticos em que o Espírito se acha completamente aturdido ante a enormidade de seus erros. Para abrir diante dele uma janela sobre si mesmo, a chave mais importante de que dispõe o doutrinador consiste em levá-lo a contemplar seu próprio passado, fortemente protegido pelos mecanismos do esquecimento deliberado. Talvez por isso escreveu Sholem Asch, na abertura de “O Nazareno”: “Não o poder de recordar, e sim o poder de esquecer, constitui uma das condições necessárias à nossa existência.” O escritor judaico não positivou no livro a sua crença na reencarnação, embora seja essa a temática de que se utilizou para elaborar a sua estória, mas não se pode negar a sua intuição da verdade. É precisamente por isso que a sabedoria divina determinou que se apagasse em nós, ao tomarmos novo estágio na carne, a lembrança das existências anteriores. Que seria de nós, se fôssemos obrigados a viver sob o tropel das pungentes recordações de antigos e medonhos erros? É preciso, no entanto, distinguir bem uma coisa da outra. O esquecimento proporcionado ao Espírito, na fase da reencarnação, é uma bênção, uma concessão, para que ele tente a reconstrução de si mesmo, como se estivesse momentaneamente desligado das suas culpas, embora ainda responsável por elas. Com a finalidade de conceder-lhe todas as oportunidades, e colocar à sua disposição os melhores instrumentos, o esquecimento do passado constitui dádiva preciosa, que nem sempre ele sabe avaliar. Retornando, não obstante, à sua condição de espírito desencarnado, pode ser-lhe facultado o acesso à memória integral, para que faça um inventário geral de seu acervo espiritual — as aflições que remanescem e as conquistas que já conseguiu realizar. Esse momento é crítico, na trajetória evolutiva do Espírito. Novamente se vê ele numa das inúmeras encruzilhadas da vida: por um lado, poderá prosseguir no áspero caminho da redenção; conseguiu abrandar algumas arestas mais contundentes do seu caráter e desenvolver umas poucas virtudes embrionárias. É seguir em frente, em nova aventura na carne, depois de uma pausa, para refazer-se, no mundo espiritual. É certo que, por aí dificilmente ele irá à glória imediata, ainda que efêmera, ou ao poder, que talvez ainda o fascine; é mais certo que continue o percurso da dor, da renúncia, dos desenganos, porque a redenção ainda vem longe, para aquele que muito errou. Do outro lado, está o caminho aparentemente mais fácil e certamente mais convidativo do adiamento. Ficam para depois as conquistas sobre nós mesmos. Vamos primeiro “gozar” a vida, dominar o semelhante, açambarcar o poder, acumular riquezas materiais, viver, enfim, intensamente, irresponsavelmente, alegremente. Depois, veremos como acertar essas contas com o que, por largos séculos ou milênios, teimamos em chamar de destino. É aquele que opta por este caminho, que também decide pelo esquecimento. Suas angústias são muitas, seus remorsos extremamente penosos, e ninguém pode gozar a vida com esse lastro de aflições. O melhor, mesmo, é esquecê-las, sepultá-las, ignorá-las, como se o passado não existisse mais em nós, e o futuro nunca fosse existir. Dentro dessa lógica atormentada, encerra-se o Espírito endividado num círculo de fogo, de sua própria criação. Só poderá sair queimando-se; enquanto permanecer ali, está abrigado de si mesmo. Para proteger-se do calor que faz à sua volta, congela o coração, pois, além disso, o frio anestesia a sensibilidade e o imuniza da dor alheia. Está pronto o obsessor para a sua tarefa. É só, agora, sair em campo, buscar seus comparsas, perseguir seus inimigos e construir um nicho para si mesmo, no mundo espiritual, ligando-se a tenebrosas organizações, dentro das quais os membros protegem-se mutuamente, enquanto mutuamente se servirem. Dentro de pouco tempo — e que é o tempo, em tais condições? — o passado, que foi recalcado para os subterrâneos da memória perispiritual, passa à condição de não-existente. É como se a vida principiasse novamente, do ponto em que a inocência a deixou, há milênios sem conta, O Espírito, assim envolvido, acaba por acreditar-se uma criatura sem passado, embora, adstrito à incoerência dos alienados, utilize-se, em proveito próprio, de todo o acervo de experiências e conhecimentos que traz em si, daquele mesmo passado que renega. Se é verdade, pois, que temos de descobrir uma fórmula para levá-lo a recordar, é igualmente verdadeiro que se torna extremamente difícil fazê-lo, porque é justamente disso que ele foge. Quantas vezes os temos surpreendido a advertirem-se do “perigo” que representa, para eles, caírem na faixa da recordação. Como reagem, como relutam, como temem os fantasmas interiores, que lhes pareciam desintegrados para sempre na poeira do tempo!... Vários recursos são empregados, pelos mentores espirituais dos grupos de desobsessão, para obter dos companheiros desarvorados o mergulho necessário nas lembranças recalcadas. Um dos mais comuns é o da projeção dos chamados “quadros fluídicos”. O Espírito vê, diante de si, incoercivelmente, cenas vivas de seu passado, especialmente aquelas que constituem o núcleo de sua problemática, que precisa ser dispersado, para desatar os laços que o prendem às suas angústias e ao seu alheamento. É evidente que as cenas não são criadas com a substância evanescente da fantasia; a matéria-prima, indispensável a essas montagens, encontra-se nos arquivos perispirituais do ser ali presente. Os técnicos desencarnados limitam-se a manipular, com respeito e dignidade, os recursos necessários para desencadear o processo terapêutico, como o médico que ministra um remédio amargo, justificado pela expectativa da cura de seu doente. Não temos, ainda, os encarnados, condições e conhecimentos para apreender a essência das técnicas empregadas para a obtenção das projeções. André Luiz deixa-nos entrever tais processos, em MISSIONÁRIOS DA LUZ, quando narra o trabalho de doutrinação junto a um ex- sacerdote desencarnado: “... vários ajudantes de serviço — escreve ele, no capítulo 17 — recolhiam as forças mentais emitidas pelos irmãos presentes, inclusive as que fluíam abundantemente do organismo mediúnico, o que, embora não fosse novidade, me surpreendeu pelas características diferentes com que o trabalho era levado a efeito.” — “Esse material — explicou o instrutor — representa vigorosos recursos plásticos, para que os benfeitores de nossa esfera se façam visíveis aos irmãos perturbados e aflitos, ou para que materializem provisoriamente certas imagens ou quadros, indispensáveis ao reavivamento da emotividade e da confiança nas almas infelizes.” O instrutor prossegue, explicando que, com essas formas de energia, recolhida dos encarnados presentes, podem os benfeitores espirituais prestar certos serviços importantes àqueles que se encontram ainda presos ao padrão vibratório da carne, não obstante já se acharem desligados dela, às vezes, há muito tempo. Ante o impacto dessas imagens, que parecem surgir límpidas, vivas e dramáticas, de um passado que julgavam morto, os irmãos desarvorados parecem saltar o circulo de fogo que os envolve, e, como se do lado de fora de si mesmos, têm uma pausa para reexame de suas posições desesperadas. Afinal de contas, o que estão fazendo? Que loucura é aquela em que mergulhamos? De onde vem tudo isso, no passado, e até onde irá, no futuro? Um desses companheiros atormentados, anti-semita irredutível, viu os quadros do êxodo no antigo Egito, onde foi um dos membros sacrificados da corte do faraó. Recuando mais, porém, foi encontrar raízes muito mais profundas, do drama, na antiga Babilônia, onde, em posição diferente, enfrentara o difícil problema da longuíssima saga do povo hebreu. Pela primeira vez, em muito tempo, perguntou-me, algo perplexo: — Será que isso não tem fim?
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