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Desde então têm sido essas experiências tentadas em muitos centros de estudo. Têm-se obtido assim numerosas indicações a respeito das vidas sucessivas da alma; essas experiências hão de provavelmente multiplicar-se a cada dia. Notemos, entretanto, que elas reclamam grande prudência. Os erros e as fraudes são fáceis; são de recear perigos. O experimentador deve escolher pacientes muito sensíveis e bem desenvolvidos, necessita ser assistido por um Espírito bastante poderoso para afastar todas as influências estranhas, todas as causas de perturbação e preservar o médium de acidentes possíveis, o mais grave dos quais seria a separação completa, irremediável, a impossibilidade de compelir o Espírito a retomar o corpo, o que ocasionaria a separação definitiva, a morte. É necessário, principalmente, precatar-se contra os excessos da auto-sugestão e aceitar somente as descrições dentro dos limites em que é possível examiná-las, verificá-las; exigir nomes, datas, pontos de referência, numa palavra, um conjunto de provas que apresentem caráter realmente positivo e científico. Seria bom imitar nesse ponto o exemplo dado pela Sociedade de Investigações Psíquicas de Londres e adotar métodos precisos e rigorosos, por exemplo, os que granjearam uma grande autoridade para os seus trabalhos sobre Telepatia. A falta de precaução e a inobservância das regras mais elementares da experimentação fizeram das incorporações de Hélène Smith um caso obscuro e cheio de dificuldades. Não obstante, no meio da confusão dos fatos apontados pelo Sr. Th. Flournoy, professor na Universidade de Genebra, entendemos que se deve reter o fenômeno da princesa hindu Simandini. Essa médium, no estado de transe, reproduz as cenas de uma das suas existências ocorridas na Índia, no século XII. Nesse estado, serve-se freqüentes vezes de palavras sânscritas, língua que ela ignora no estado normal; dá, sobre personagens históricas hindus, indicações que não se encontram em nenhuma obra usual. A confirmação dessas indicações é descoberta pelo Sr. Th. Flournoy, depois de muitas investigações, na obra de Marlès, historiador pouco conhecido e inteiramente fora do alcance do sujet. Hélène Smith, no sono sonambúlico, toma uma atitude impressionante. Extratamos o que diz Flournoy num livro que teve grande voga:(137) “Há em todo o ser, na expressão da sua fisionomia, em seus movimentos, no timbre da voz, quando fala ou canta em indostânico, uma graça indolente, um abandono, uma doçura melancólica, um quê de langoroso e sedutor que corresponde ao caráter do Oriente. Toda a mímica de Hélène, tão vária, e o falar exótico, ambos têm tal cunho de originalidade, de facilidade, de naturalidade, que se pergunta com estupefação donde vem a essa filha das margens do Lemano, sem educação artística nem conhecimentos especiais do Oriente, uma perfeição de jogo cênico à qual, sem dúvida, a melhor atriz só chegaria à custa de estudos prolongados ou de uma estada nas margens do Ganges.” Quanto à escrita e à linguagem indostânica empregadas por Hélène, o Sr. Flournoy acrescenta que, nas investigações que fez para averiguar donde lhe vinha tal conhecimento, “todas as tentativas falharam”. Nós mesmos pudemos observar, durante muitos anos, casos semelhantes ao de Hélène Smith. Um dos médiuns do grupo, cujos trabalhos dirigíamos, reproduzia no transe, sob a influência do Espírito-guia, cenas das suas diferentes existências. A princípio, foram as da vida atual no período infantil com expressões características e emoções juvenis; depois, vieram episódios de vidas remotas com jogos de fisionomia, atitudes, movimentos, reminiscências de expressões da meia-idade, um conjunto completo de detalhes psicológicos e automáticos muito diferentes dos costumes atuais da dama, senhora muito honesta e incapaz de fingimento algum, pela qual obtínhamos esses estranhos fenômenos. O coronel A. de Rochas, antigo administrador da Escola Politécnica, ocupou-se muito desse gênero de experiências. Apesar das objeções que elas podem suscitar, cremos dever relatar algumas de suas experiências. Vamos dizer o porquê. A princípio, tornamos a encontrar em todos os fatos da mesma ordem, provocados pelo Sr. de Rochas, a correlação do físico e do mental que já assinalamos e que parece ser a expressão de uma lei. As reminiscências anteriores ao nascimento produzem, no organismo dos pacientes adormecidos, efeitos materiais verificados por todos os assistentes, muitos dos quais eram médicos. Ora, ainda que se leve em conta o papel que nessas experiências pode representar a imaginação dos sujets; ainda que se levem em conta os arabescos que ela borda em torno do fato principal, é tanto mais difícil se atribuírem esses efeitos a simples fantasias dos sujets quando, segundo as próprias expressões do coronel, “se tem plena certeza da sua boa-fé e de que as suas revelações são acompanhadas de característicos somáticos que parecem provar, de maneira absoluta, a sua realidade”.(138) Damos a palavra ao Coronel de Rochas:(139) “Há muito tempo se sabia que, em certas circunstâncias, notadamente quando se está para morrer, recordações, desde muito tempo em olvido, sucedem-se com extrema rapidez no espírito de algumas pessoas, como se diante da sua vista se desenrolassem os quadros de toda a sua vida. Determinei experimentalmente um fenômeno análogo em sujets magnetizados, com a diferença de que, em vez de revocar simples recordações, faço tomar aos pacientes os estados de alma correspondentes às idades a que os reconduzo, com esquecimento de tudo o que é posterior a essas épocas. Essas transformações operam-se por meio de passes longitudinais, que têm, de ordinário, por efeito tornar mais profundo o sono magnético. As mudanças de personalidade, se assim se podem chamar os diferentes estados de um mesmo indivíduo, sucedem-se, invariavelmente, segundo a ordem dos tempos, fazendo-o voltar ao passado quando se empregam passes longitudinais, para tornar na mesma ordem, ao presente, quando se recorre aos passes transversais ou despertadores. Enquanto o paciente não volta ao estado normal, apresenta insensibilidade cutânea. Podem precipitar-se as transformações com o auxílio da sugestão, mas é preciso percorrer sempre as mesmas fases e não proceder com muita pressa. Não se observando esta condição, provocam-se os gemidos do sujet, que se queixa de que o torturam e de que não pode seguir-vos. Quando fiz os primeiros ensaios, parava logo que o paciente, transportado à primeira infância, já não me sabia responder; pensava não ser possível ir mais longe. Entretanto, tentei um dia tornar mais profundo o sono, continuando os passes, e grande foi a minha admiração quando, interrogando o dormente, me achei na presença de outra personalidade, que dizia ser a alma de um morto que usara tal nome e vivera em tal país. Parecia assim abrir-se novo caminho. Continuando os passes no mesmo sentido, fiz reviver o morto e esse ressuscitado percorreu toda a sua vida precedente, remontando o curso do tempo. Aqui não eram, tampouco, simples recordações que eu despertava, mas sucessivos estados de alma que fazia reaparecer. À medida que repetia as experiências, essa viagem pelo passado efetuava-se cada vez com mais rapidez, passando sempre exatamente pelas mesmas fases, de maneira que pude assim remontar a muitas existências anteriores sem haver demasiada fadiga para o paciente e para mim. Todos os sujets, quaisquer que fossem as suas opiniões no estado de vigília, apresentavam o espetáculo de uma série de individualidades cada vez menos adiantadas moralmente, à medida que se remontava o curso das idades. Em cada existência expiava-se, por uma espécie de pena de talião, as faltas da existência precedente e o tempo que separava duas encarnações passava-se num meio mais ou menos luminoso, segundo o estado de adiantamento do indivíduo. Passes despertadores faziam o sujet voltar ao estado normal, percorrendo as mesmas etapas, exatamente na ordem inversa. Quando verifiquei por mim mesmo e por outros experimentadores, operando em outras cidades com outros sujets, que não se tratava de simples sonhos que pudessem provir de causas fortuitas, mas de uma série de fenômenos, apresentados de maneira regular com todos os característicos aparentes de uma visão no passado ou no futuro, pus todos os meus cuidados em investigar se essa visão correspondia à realidade.” O resultado das inquirições a que procedeu o Coronel de Rochas não o satisfez inteiramente, o que não o impediu de concluir nestes termos:(140) “É certo que por meio de operações magnéticas se pode, progressivamente, trazer a maior parte dos sensitivos a épocas anteriores à sua vida atual, com as particularidades intelectuais e fisiológicas características dessas épocas, e isso até o momento de seu nascimento. Não são lembranças que se acordam; são estados sucessivos da personalidade que são evocados; essas evocações se produzem sempre na mesma ordem e através de uma sucessão de letargias e estados sonambúlicos. Também é certo que, continuando essas operações magnéticas, além do nascimento, e sem haver necessidade de recorrer-se às sugestões, faz-se passar o sujet por estados análogos correspondentes às encarnações precedentes e aos intervalos que separam essas encarnações. O processo é o mesmo, através das sucessões de letargias e estados sonambúlicos.” As concordâncias, convém repeti-lo, que existem entre os fatos verificados por sábios materialistas hostis ao princípio das vidas sucessivas, tais como Pierre Janet, o Dr. Pitre, o Dr. Burot, etc., e os relatados pelo Coronel de Rochas, demonstram que há nesses fatos mais do que sonhos ou romances “subliminais”; há uma lei de correlação que merece estudo atento e continuado. Por isso pareceu-nos conveniente insistir sobre esses fatos.
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(137) Th. Flournoy - Des Indes à la Planète Mars, páginas 271 e 272.
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(138) Revue Spirite, janeiro de 1907, pág. 41. Artigo do Coronel de Rochas sobre As Vidas Sucessivas, Chacornac, ed. 1911.
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(139) A. de Rochas, As Vidas Sucessivas.
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(140) A. de Rochas - Les Vies Successives, pág. 497.
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