Livros Espíritas
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1. INTRODUÇÃO Por mais que a gente se dedique ao estudo da fenomenologia anímica e mediúnica, há sempre aspectos inusitados a observar, situações imprevisíveis, eventos literalmente inacreditáveis para os quais fica difícil até mesmo formular uma hipótese de trabalho razoável. Encontro alguns desses casos na experiência pessoal de Regina, como a evidência da sua bilocação. Mas será que é mesmo bilocação? Às vezes parece que é, de outras, parece que não. Vamos aos fatos. Vivia ela o difícil período de sua vida, ainda muito jovem, durante o qual freqüentava a faculdade e já trabalhava para se manter. Foi uma época de perplexidades. Era grande o número de pessoas capazes de afirmar, sob juramento solene, que a tinham visto em lugares onde ela não podia ter estado. Alunos seus, que a conheciam bem de perto, nas suas feições, porte e gestos, declaravam não apenas tê-la visto, aqui e ali, como ainda informavam que a saudaram e ela respondera com acenos e sorrisos inequívocos para eles. Certa vez, alguém lhe disse: - Aí, hein? Passeando em Copacabana em vez de estar trabalhando! O que não era absolutamente verdadeiro. Isso a deixava confusa, pois não havia como convencer as pessoas de que 'a outra' não era ela. Quem seria, então? Por muito tempo pensou que teria uma sósia. Quando afirmava que provavelmente a haviam confundido com outra pessoa, a negativa era categórica: - Não; era a senhora mesma. Chamei pelo seu nome, a senhora sorriu e me acenou. Ou então: - Cumprimentei-a e a senhora me respondeu. Despreparada para a observação do fenômeno, à época, Regina não lhe deu a atenção que merecia, o que lamentaria mais tarde. É que nem lhe passava pela cabeça que pudesse estar em dois lugares ao mesmo tempo. Totalmente impossível. Tinha de ser algum mal-entendido ou confusão de identidade com pessoas parecidas com ela. 2. FIM DE SEMANA NO SÍTIO Cena vez, a situação foi não apenas dramática, mas traumatizante. Acabara de dar suas aulas num colégio em Cascadura, no Rio, aí por volta de meio-dia e seguia para casa quando, numa das ruas centrais daquele bairro, foi abordada por uma senhora que a cumprimentou alegremente: - Como é que vai? Tudo bem com você? Não era, pois, nenhuma confusão de identidade. A mulher diante dela em plena rua, com uma criança na mão, estava lúcida, em estado de alerta, não tendo aparência alguma de alienada. Decididamente, ela conhecia Regina. O problema é que Regina não a conhecia! Veja bem, não é dizer que não a reconhecia. Nunca tinha visto aquela pessoa. Mas não quis ser grosseira e respondeu delicadamente que ia bem, obrigada. E a senhora? Não pôde evitar, contudo, que certo constrangimento se revelasse sua maneira de falar e na reserva da sua atitude. Em seguida, a mulher lhe perguntou o que ela achara do fim de semana. Se havia gostado do seu sítio, da comida etc. Não havia dúvida, portanto: ela estava obviamente equivocada. Mais contrafeita do que nunca, Regina respondeu-lhe que estava ocorrendo ali algum engano porque, infelizmente, ela não conhecia a senhora. Que a desculpasse, portanto. Mas a mulher insistiu, agora, tanto irritada: - Que história é essa de não me conhecer? Pois você foi recebida minha casa, com toda a gentileza possível, esteve conosco e agora diz que não me conhece? - Sinto muito - declarou Regina, com firmeza - mas a senhora está enganada. Eu não a conheço. A essa altura, a pobre senhora se mostrava não apenas aturdida, mas, visivelmente indignada falando com certa agressividade: - Mas então é assim? Você passa um fim de semana conosco, em minha casa, e depois vem me dizer que não me conhece? Que história é essa? Além de mal- educada, você é mal-agradecida? Regina procurava habilmente contornar a situação, sem saber o que dizer para convencer a outra do seu evidente equívoco. Tentou fazê-lo declarando seu nome, o que fazia e onde trabalhava. Em desespero de causa, propôs à senhora irem juntas ao colégio, que não ficava longe dali, para que esta se certificasse da sua identidade. Lembrou-se da sua carteira de identidade, pois a mulher a chamava por outro nome que não o seu. Abriu a bolsa, tirou a carteira e mostrou-a à sua interlocutora. - A senhora está vendo: Não sou a pessoa que a senhora pensa. Deve ser alguém muito parecida comigo. E como que a desculpá-la e até consolá-la pelo equívoco, declarou que muita gente cometia com ela o mesmo engano, dizendo tê-la visto em lugares onde, absolutamente, ela não estivera. A outra pegou a cédula de identidade, examinou-a atentamente e ficou a conferir o retrato com o original diante dela. Manteve-se um momento em silêncio, perplexa, confusa, assustada mesmo. E saiu com uma conclusão imprevisível: - Então já sei. Você mentiu para nós naquele dia. Você não era quem você disse que era. É isso. E deu por encerrada a conversa e aquele estranhíssimo encontro na rua. Estava visivelmente aborrecida, magoada e, por certo, ressentida. Pegou a mão da criança, virou-lhe as costas e se foi. Nesse dia, Regina ficou seriamente preocupada. A coisa estava indo longe demais. Teria ela uma sósia tão perfeita assim: Estaria ficando perturbada? 3. PREÂMBULO A UMA EXPLICAÇÃO Bem, o ser humano é um animal explicativo. Na realidade, é o único bicho que explica as coisas e fica desesperado quando não descobre, nos seus arquivos mentais, material suficiente para deslindar uma bela confusão dessas. Acho que uma explicação bem imaginada e bem exposta pode não fazer ninguém mais esclarecido sobre o assunto, mas dá ao explicador uma agradável sensação de inteligência e competência. Vamos tentar a nossa. O leitor sabe, certamente, que há bem-documentados fenômenos de bilocação na história religiosa e até leiga. O mais famoso deles é o de santo Antônio de Lisboa, sobre o qual nos referimos alhures, neste livro. Vimos, também, o caso da infeliz senhorita Sagée que era vista em dois lugares ao mesmo tempo e pelas mesmas pessoas, sem a menor sombra de dúvida ou trapaça. É de se supor, portanto, que Regina pudesse estar num lugar e apresentar-se em outro, ao mesmo tempo, com o seu perispírito suficientemente adensado a ponto de ser visto por conhecidos seus com o sistema normal de visão, sem nenhuma conotação especial. Ou, quem sabe, as pessoas que a viam longe do local onde ela deveria encontrar-se, no momento, eram dotadas de faculdades clarividentes? É, também, uma alternativa possível. Acontece que, para isto, seria necessário um desdobramento bem caracterizado e para que este ocorra o normal é que o corpo físico esteja, pelo menos, em repouso, em estado de relaxamento, quando não adormecido mesmo. Será que, além do perispírito, há outro corpo que também pode desprender-se, deslocar-se e mostrar-se à visão alheia em locais diferentes? Sem dizer que isso seja possível, podemos supor que é, pelo menos, concebível. Confesso, porém, que a hipótese exige um volume respeitável de boa vontade, pois seria preciso admitir, também, que a consciência de Regina funcionasse, simultânea e independentemente, em dois corpos separados por uma distância considerável. Acho que por aí a coisa fica difícil de se explicar. Vamos experimentar outra hipótese. Esta explicação precisa de um preâmbulo que passo a expor. Conta-nos Regina que, na época em que tais fenômenos ocorriam, estava ela sujeita a mergulhar, subitamente, em períodos de inconsciência. Foi essa, aliás, a razão que a levou a procurar um psiquiatra, temerosa de estar perdendo o juízo. Como todos nós, ele tinha até um rótulo prontinho para o pacote psíquico. Foi só sacá-lo e pregá-lo como um adesivo. Segundo ele, a coisa chamava-se ausência. E acontecia, como sempre, de maneira imprevista. Por exemplo: ela tomava um ônibus, sentava-se e, de repente como que se perdia. Voltava, ao cabo de algum tempo, a si, mas não sabia onde estava (nem onde estivera), o que estava fazendo ali, quem era ela, afinal. A situação, era angustiante, desesperadora. Quando finalmente conseguia lembrar-se, já estava longe do ponto onde deveria ter saltado do ônibus. De outras vezes, caminhava pela rua em certo sentido, indo para algum lugar onde tinha compromisso e novamente se perdia passando pela mesma rotina de sempre: perda de identidade, de objetivo, de rumo, até que acordava e vivia alguns momentos de perplexidade, enquanto não conseguia resumir os comandos da sua mente e sua identidade. Com a repetição de tais episódios, sentiu-se realmente assustada. E se numa dessas ela não voltar mais? Ou não recuperasse sua identidade perdida? Uma dessas ausências foi marcante. Ela morava, na ocasião, em Inhaúma, em um conjunto residencial afastado do centro do bairro. A ligação era feita por um dos antigos lotações e micro-ônibus, hoje (felizmente) desaparecidos, que circulavam pelo Rio então. O trajeto era feito usualmente em vinte minutos. Chegando à praça central, ela tomava outra condução para Duque de Caxias, onde trabalhava. Certo dia saiu de casa e tomou o lotação. Entrou, sentou-se e novamente perdeu-se, ou seja, teve uma de suas ausências. Ao retornar, despertar que seja, foi particularmente difícil localizar-se no tempo e no espaço e recuperar sua identidade. Olhava para tudo em volta de si, sem entender, com a vaga noção de que estava dentro de um ambiente que se deslocava e no qual havia outras pessoas sentadas em poltronas. Lá estava o motorista, acolá as legendas, uma das quais exibia o preço da passagem, mas, a despeito do seu esforço mental, não entendia nada do que se passava, quem era, o que estava fazendo ali ou para onde ia. Era como se acabasse de ser violentamente sacudida de um sono profundo, durante o qual sonhava com outra realidade. E trazia ainda imagens vagas do sonho, que agora se misturavam àquela outra realidade, no ônibus. Qual delas era a verdadeira? O que estava fazendo ali? Quem eram aquelas pessoas?
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