Livros Espíritas
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Temos o coração chagado e os pés feridos na longa marcha, através das incompreensões que nos são próprias, e nossa mente, por isto, aspira ao clima da verdadeira paz, com a mesma aflição em que o viajor extenuado no deserto anseia por água pura. Senhor, infunde-nos o dom de nos ampararmos mutuamente. Beneficiaste os que não creram em Ti, protegeste os que te não compreenderam, ressurgiste para os discípulos que te fugiram, legaste o tesouro do conhecimento divino aos que te crucificaram e esqueceram… Por que razão, nós outros, míseros vermes do lodo ante uma estrela celeste, quando comparados contigo, recearíamos estender dadivosas mãos aos que nos não entendem ainda?!… O Instrutor imprimira tocante inflexão aos últimos lances da rogativa. Elói e eu tínhamos os olhos turvos de lágrimas, tanto quanto Saldanha que recuara, aterrado, para um dos ângulos escuros da cela triste. Gúbio transformara-se, gradualmente. As vibrações vigorosas daquela súplica, que arrancara ao próprio coração, expulsaram as partículas obscuras de que se havia tocado, quando penetrávamos a colônia penal em que conhecêramos Gregório, e sublimada luz brilhava-lhe agora no semblante que o pranto de amor e compunção irisava com intraduzível beleza. Parecia ocultar desconhecido alampadário no peito e na fronte, que despediam raios luminosos de intenso azul, ao mesmo tempo que formoso fio de claridade incompreensível o ligava com o Alto, perante nosso aturdido olhar. Findo o intervalo, fez incidir toda a luminosidade que o envolvia sobre as três criaturas que asilava no regaço e exorou: — É para eles, Senhor, para os que repousam aqui em densas sombras, que te suplicamos a bênção! Desata-os, Mestre da caridade e da compaixão, liberta-os para que se equilibrem e se reconheçam… Ajuda-os a se aprimorarem nas emoções do amor santificante, olvidando as paixões inferiores para sempre. Possam eles sentir-te o desvelado carinho, porque também te amam e te buscam, inconscientemente, embora permaneçam supliciados no vale fundo de sentimentos escuros e degradantes… Nesse ponto, o orientador interrompeu-se. Intensos jorros de luz projetavam-se em torno dele, atirados por mãos invisíveis aos nossos olhos. Com perceptível emotividade, Gúbio aplicou passes magnéticos em cada um dos três infelizes e, em seguida, falou ao rapaz encarnado: — Jorge, levanta-te! Estás livre para o necessário reajustamento. O interpelado arregalou os órgãos visuais, parecendo acordar de pesadelo angustioso. Inquietação e tristeza transpareceram-lhe do rosto, celeremente. Num impulso maquinal, obedeceu à ordem recebida, erguendo-se com absoluto controle do raciocínio. A interferência do benfeitor quebrara os elos que o prendiam às parentas desencarnadas, liberando-lhe a economia psíquica. Presenciando o acontecimento, Saldanha gritou, em lágrimas: — Meu filho! Meu filho!… O doente não registou as exclamações nascidas do entusiasmo paterno, mas procurou o leito singelo onde se aquietou com inesperada serenidade. Vencido nos melhores sentimentos de que era detentor, o algoz de Margarida aproximou-se do nosso dirigente, com as maneiras de uma criança humilhada que reconhece a superioridade do mestre, mas antes que pudesse tomar-lhe as mãos, para osculá-las talvez, pediu-lhe Gúbio, sem afetação: — Saldanha, acalma-te. Nossas amigas despertarão agora. Afagou a cabeça de Iracema e a infortunada mãe de Jorge voltou a si, gemendo: — Onde estou?!… Reparando, no entanto, a presença do marido, ao lado, nomeou-o por apelido carinhoso de família e bradou, desvairada de emoção: — Socorre-me! Onde está nosso filho? Nosso filho? Passou, logo após, para a fraseologia particular de quem reencontra um ser amado, depois de ausência longa. O obsessor da doente que nos interessava de mais perto, tangido nas fibras recônditas do ser, derramava agora abundantes lágrimas e buscava o olhar de Gúbio, instintivamente, rogando-lhe, sem palavras, medidas salvacionistas. — Em que mau sonho me demorei? — Indagava a desventurada irmã, chorando convulsivamente, — que cela imunda é esta? Será verdade que já atravessamos o túmulo? E, em crise de desespero, acrescentava: — Temo o demônio! Temo o demônio! Ó Deus meu! Salva-me, salva-me!… Nosso Instrutor dirigiu-lhe palavras encorajadoras e indicou-lhe o filho que descansava, bem ao nosso lado. Recompondo-se, gradualmente, ela perguntou a Saldanha porque emudecera, faltando à palavra amorosa e confiante de outro tempo, ao que o verdugo de Margarida respondeu, significativamente: — Iracema, eu ainda não aprendi a ser útil… Não sei confortar ninguém. A essa altura, a sofredora mãe, então desperta, passou a interessar-se pela companheira de infortúnio, que fazia a mão direita movimentar-se sobre a garganta. Crendo a custo tratar-se da nora, que se lhe fizera irreconhecível, apelou aflita: — Irene! Irene! Interveio Gúbio com o poder de despertamento que lhe era peculiar, distribuindo vigorosas energias aos centros cerebrais da criatura que continuava abatida. Transcorridos alguns instantes, a nora de Saldanha ergueu-se, num grito terrível. Sentia dificuldade em articular a voz. Sufocava-se, ruidosamente, presa de angústia infinita. Nosso orientador, vigilante, segurou-lhe ambas as mãos com a destra e com a mão esquerda ministrou-lhe recursos magnético-balsâmicos sobre a glote e, sobretudo, ao longo das papilas gustativas, acalmando-a, de alguma sorte. Embora despertada, a suicida não mostrava a relativa consciência de si mesma. Não guardava a menor ideia de que seu corpo físico se desfizera no túmulo. Era o tipo da sonâmbula perfeita, acordando de súbito. Adiantou-se na direção do esposo, reintegrado nas próprias faculdades e exclamou, estentórica: — Jorge, Jorge! Ainda bem que o veneno não me matou! Perdoa-me o gesto impensado… Curar-me-ei para vingar-te! Assassinarei o juiz que te condenou a tão cruéis padecimentos! Observando, ao contrário do que esperava, que o esposo não reagia, implorou: — Ouve! Atende-me! Onde dormi tanto tempo? Nossa filha! Onde está? O interpelado, todavia, que se lhe desligara da influência direta nos centros perispirituais, prosseguiu na mesma atitude fleumática e impassível de quem ajuizava com dificuldade a própria situação. Foi ainda Gúbio quem se abeirou de Irene, elucidando: — Aquieta-te, minha filha! — Sossegar-me? Eu? — Protestou a infortunada, — não posso! Quero tornar a casa… Esta grade me asfixia… Cavalheiro, por quem é! Reconduza-me ao lar. Meu esposo permanece encarcerado injustamente… Estará por certo dementado… Não me escuta, não me atende. Por minha vez, sinto a garganta carcomida de veneno mortal… quero minha filha e um médico! Nosso orientador, contudo, respondeu-lhe com voz triste, não obstante acariciar-lhe a fronte assustadiça: — Filha, as portas de tua casa no mundo cerraram-se para tua alma com os olhos do corpo que perdeste. Teu esposo jaz liberado dos compromissos do matrimônio carnal e tua filha, desde muito, foi acolhida em outro lar. É indispensável, pois, que te refaças, de modo a prestar-lhes todo o serviço que desejas. A desditosa criatura rojou-se de joelhos, soluçando. — Então, morri? A morte é uma tragédia pior que a vida? — Clamou, desesperada. — A morte é simples mudança de veste, — elucidou Gúbio, sereno, — somos o que somos. Depois do sepulcro, não encontramos senão o paraíso ou o inferno criados por nós mesmos. E adoçando a voz para conversar na condição de um pai, prosseguiu, comovido: — Porque atiraste fora o remédio salvador, esfacelando o vaso sagrado que o continha? Nunca ouviste o choro dos que padeciam mais que tu mesma? Jamais te inclinaste para registar as aflições que vinham de mais fundo? Porque não auscultaste o silencioso martírio daqueles que não possuem mãos para reagir, pernas para andar, voz para suplicar? — A revolta consumiu-me… — explicou a desventurada. — Sim, — confirmou o Instrutor, solícito, — um momento de rebeldia põe um destino em perigo, como diminuto erro de cálculo ameaça a estabilidade dum edifício inteiro. — Infeliz de mim! — Suspirou Irene, aceitando a amargosa realidade, — onde estava Deus que me não socorreu a tempo? — A pergunta é inoportuna, — esclareceu nosso dirigente bondosamente. — Procuraste saber, antes, onde te encontravas a ponto de te esqueceres tão profundamente de Deus? A bondade do Senhor nunca se ausenta de nós. Se transparecia da bendita oportunidade terrena que te conduzia à vitória espiritual, reside também agora nas lágrimas de contrição que te encaminham à regeneração salutar. Admito que possas, em breve, alcançar semelhante bênção; entretanto, cavaste enorme precipício entre a tua consciência e a harmonia divina, que precisarás transpor efetuando a própria recomposição. Por algum tempo, experimentarás a consequência do ato impensado. Colher fruto imaturo é praticar violência. Intoxicaste a matéria delicada sobre a qual se estruturam os tecidos da alma e poucas circunstâncias te atenuam a gravidade da falta. Não percas, porém, a esperança e dirige os passos na direção do bem. Se o horizonte, por vezes, se faz mais longínquo, nunca se torna inatingível. E encorajando-a, paternalmente, acentuou: — Vencerás, Irene; vencerás. A interlocutora, entre o desapontamento e a rebelião, não parecia interessada em reter os elevados conceitos ouvidos. Desviando a atenção da verdade que a feria, fundo, identificou a presença de Saldanha, passando a gritar medrosamente. Gúbio interferiu, acalmando-a.
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