Livros Espíritas
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Humilde trabalhador do porto do Havre, falecido aos 20 anos. Morava com a mãe, modesta mercadora, a quem prodigalizava os mais ternos e afetuosos cuidados, sustentando-a com o produto do seu rude trabalho. Nunca o viram frequentar cabarés nem se entregar aos excessos tão comuns da sua profissão, por não querer desviar a menor parcela de salário do fim piedoso que lhe destinava. Consagrava à mãe todo o lazer de que dispunha, a fim de poupá-la de fadigas. Afetado há muito tempo de enfermidade da qual sabia que havia de morrer, ocultava-lhe os sofrimentos para não a inquietar e para que ela não quisesse privá-lo da sua parte de labor. Na idade das paixões, eram precisos a esse moço grande cabedal de qualidades morais e poderosa força de vontade para resistir às perniciosas tentações do meio em que vivia. Sinceramente piedoso, a sua morte foi motivo de edificação para muita gente. Na véspera de morrer, exigiu que sua mãe fosse repousar um pouco, alegando que ele mesmo também precisava dormir. Já no leito, a mãe teve uma visão; achava-se, disse, em plena escuridão, quando viu um ponto luminoso que crescia pouco a pouco, até que o quarto ficou iluminado por brilhante claridade, da qual se destacava radiante a figura do filho, elevando-se no Espaço infinito. Compreendeu, então, que seu fim estava próximo e, de fato, no dia seguinte, aquela alma bem formada deixava a Terra, enquanto seus lábios murmuravam uma prece. Uma família espírita, conhecedora da sua bela conduta, interessando-se por sua mãe, que ficara sozinha, teve a ideia de o evocar pouco tempo após a morte, mas ele se manifestou espontaneamente, dando a seguinte comunicação: “Desejais saber como estou agora: feliz, felicíssimo! Devem ser levados em conta os sofrimentos e angústias, que são a fonte das bênçãos e da felicidade de além-túmulo. A felicidade! Ah! não compreendeis o que significa essa palavra. Quão longe estão as venturas terrenas das que experimentamos ao regressar para Jesus, com a consciência pura, com a confiança do servo cumpridor do seu dever e que espera cheio de alegria a aprovação daquele que é tudo! “Ah! meus amigos, a vida é penosa e difícil, quando não se tem em vista o seu fim; mas eu vos digo, em verdade, que quando vierdes para junto de nós, se seguirdes a Lei de Deus, sereis recompensados além, mas muito além dos sofrimentos e méritos que porventura julgardes ter adquirido para a outra vida. Sede bons e caridosos, dessa caridade tão desconhecida entre os homens, que se chama benevolência. Socorrei os vossos semelhantes; fazei por eles mais que por vós mesmos, uma vez que ignorais a miséria alheia e conheceis a vossa. Socorrei minha pobre mãe, único pesar que me vem da Terra. Ela deve passar por outras provas antes de chegar ao céu. Adeus, vou vê-la.” Victor O guia do médium – Nem sempre os sofrimentos amargados na Terra constituem uma punição. Os Espíritos que, pela vontade de Deus, baixam à Terra para cumprirem uma missão, são, tal como este, felizes em provar males que para outros seriam uma expiação. O sono os revigora perante o Altíssimo, dando-lhes a força de tudo suportarem para sua maior glória. A missão deste Espírito, em sua última existência, não era das mais importantes, porém, por mais obscura que fosse nem por isso tinha menos mérito, visto que ele não podia ser estimulado pelo orgulho. Aquele jovem tinha, antes de tudo, um dever de gratidão a cumprir para com aquela que foi sua mãe; depois, deveria demonstrar que nos piores ambientes podem encontrar-se almas puras, de sentimentos nobres e elevados, capazes de resistir a todas as tentações. Isso é uma prova de que as qualidades morais têm causas anteriores, e de que tal exemplo não foi em vão.
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