Livros Espíritas
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É indispensável penetrar a alma, devassar o cerne da personalidade, melhorar os efeitos socorrendo as causas; por conseguinte, não restauraremos corpos doentes sem os recursos do Médico Divino das almas, que é Jesus-Cristo. Os fisiologistas farão sempre muito, tentando retificar a disfunção das células; no entanto, é mister intervir nas origens das perturbações. O caso de Marcelo é tão somente um dos múltiplos aspectos do “fenômeno epileptóide”, para empregarmos a terminologia dos médicos encarnados. Esse desequilíbrio perispiritual assinala-se, todavia, por gradação demasiado complexa. A confirmação da teoria dos reflexos condicionados não se aplica exclusivamente a ele. Temos milhões de pessoas irascíveis que, pelo hábito de se encolerizarem facilmente, viciam os centros nervosos fundamentais pelos excessos da mente sem disciplina, convertendo-se em portadores do “pequeno mal”, em dementes precoces, em neurastênicos de tipos diversos ou em doentes de franjas epilépticas, que andam por aí, submetidos à hipoglicemia insulínica ou ao metrazol; enquanto isso, o serem educados mentalmente, para a correção das próprias atitudes internas no ramerrão da vida, lhes seria tratamento mais eficiente e adequado, pois regenerativo e substancial. Enunciando tais verdades, não subestimamos o ministério dos psiquiatras abnegados, que consomem a existência na dedicação aos semelhantes, nem avançamos que todos os doentes, sem exceção, possam dispensar o concurso dos choques renovadores, tão necessários a muita gente, como ducha para os “nervos empoeirados”. Desejamos apenas salientar que o homem, pela sua conduta, pode vigorar a própria alma, ou lesá-la. O caráter altruísta, que aprendeu a sacrificar-se para o bem de todos, estará engrandecendo os celeiros de si mesmo, em plena eternidade; o homicida, esparzindo a morte e a sombra em sua cercania, estabelece o império do sofrimento e da treva no próprio íntimo. Ao topar com irmãos nossos sob o domínio das lesões perispiríticas, consequências vivas dos seus atos, exarados pela Justiça Universal, é indispensável, para assisti-los com êxito, remontar à origem das perturbações que os molestam; isto se fará não a golpes verbalísticos de psicanálise, senão, socorrendo-os com a força da fraternidade e do amor, a fim de que logrem a imprescindível compreensão com que se modifiquem, reajustando as próprias forças… Nesse instante, observando que o Marcelo se reerguia, o instrutor interrompeu-se nas elucidações e convidou-o a vir ter conosco novamente. O rapaz abraçou-nos, comovido. — Então, — disse fitando humildemente Calderaro, — fraquejei e caí… — Oh! Não! — exclamou o orientador, afagando-o, — não te sintas em queda. Estás ainda em tratamento, e não podemos esquecer a realidade. Teu esforço é admirável; entretanto, há que aguardar a contribuição do tempo. Sorriu e acentuou: — Em épocas recuadas perdeste valioso ensejo de seguir na senda progressiva, a escorregar, a resvalar… Agora, é imprescindível retomar a subida cautelosamente. O pássaro de asas débeis não pode abusar do voo. O jovem cobrou esperanças novas e, contemplando Calderaro, reconhecidamente, inquiriu: — Acredita o meu benfeitor que deva optar pelo uso de hipnóticos? — Não. Os hipnóticos são úteis só na áspera fase de absoluta ignorância mental, quando é preciso neutralizar as células nervosas ante os prováveis atritos da organização perispirítica. Em teu caso, Marcelo, para a tua consciência que já acordou na espiritualidade superior, o remédio mais eficaz consiste na fé positiva, na autoconfiança, no trabalho digno, em pensamentos enobrecedores. Permanecendo na zona mais alta da personalidade, vencerás os desequilíbrios dos departamentos mais baixos, competindo-te, por isto mesmo, atacar a missão renovadora e sublime que te foi confiada no setor da própria iluminação e no bem do próximo. Os elementos medicamentosos podem exercer tutela despótica sobre o cosmo orgânico, sempre que a mente não se disponha a controlá-la, recorrendo aos fatores educativos. O rapaz osculou-lhe as mãos enternecidamente, e Calderaro, ocultando a comoção, falou, bem-humorado: — Nada fizemos ainda por merecer o reconhecimento de qualquer criatura. Somos não mais do que trabalhadores imperfeitos em serviço, e o serviço é a maior força que nos põe de manifesto nossas próprias imperfeições. Todos temos um credor divino em Jesus, cuja infinita bondade não nos é lícito esquecer. E, acariciando-lhe os cabelos, acentuou: — Já lhe ouviste a palavra celestial, abandonando o mal, “para que te não suceda coisa pior”. () Assim sendo, és agora feliz. Em verdade, somos presentemente felizes, porque nosso objetivo de hoje é a realização do Reino de Deus, em nós, com o Cristo. Trabalhemos com Ele, por Ele e para Ele, curando nossos males para sempre. O jovem abraçou-se a nós, qual se fora um filho, de encontro aos nossos corações, e saímos juntos em agradável excursão de estudos, enquanto seu corpo físico repousava tranquilamente.
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Referência ao livro “Nosso Lar”. — (Nota do autor espiritual.)
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