Livros Espíritas
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Raquel, fora dos veículos de carne, pode ver a avozinha, com quem se encontra ligada no mesmo círculo de elevação. Adelino, porém, somente poderá ver Segismundo, com quem se encontra imantado pelas forças do ódio que ele deixou, imprudentemente, desenvolver-se, de novo, em seu coração… A palavra do orientador, contudo, foi interrompida por um grito lancinante. Adelino, receoso, identificara a presença do antigo adversário e, espavorido, tentava correr, inutilmente. Movimentava-se, com dificuldade, ansioso de retomar o corpo físico, à maneira de criança medrosa procurando um refúgio, mas Alexandre, aproximando-se dele, com amorosa autoridade, estendeu-lhe as mãos, das quais saíam grandes chispas de luz. Contido pelos raios magnéticos, o esposo de Raquel pôs-se a tremer, sentindo-se que ele começava a ver alguma coisa além da figura do ex-inimigo. Aos poucos, em vista das vigorosas emissões magnéticas de Alexandre, ele pôde ver nosso venerável orientador, com quem passou a sintonizar-se diretamente e caiu de joelhos, em convulsivo pranto. Observei o pensamento de Adelino naquela hora comovedora e percebi que ele associava a visão radiosa às preces do filhinho. Via ele ali a estranha figura de Segismundo e a resplandecente presença de Alexandre e fazia intraduzível esforço para recordar-se de alguma coisa do passado distante que a sua memória não conseguia situar com exatidão. Supôs, naturalmente, que o nosso mentor devia ser um emissário do Céu para salvá-lo dos pesadelos cruéis e, ofuscado pela intensa luz, soluçava, genuflexo, entre o medo e o júbilo, suplicando paz e proteção. O bondoso instrutor dirigiu-se para ele, com a serenidade de um pai carinhoso e experiente, e, levantando-o, exclamou: — Adelino, guarda a paz que te trazemos em nome do Senhor! E, abraçando-o de encontro ao peito amigo, continuou: — Que temes, meu irmão? Ergueu ele os olhos lacrimosos e indicando Segismundo, triste, alegou sentidamente: — Mensageiro de Deus, livrai-me deste pesadelo infeliz! Se viestes, trazido pelas orações de meu filho inocente, ajudai-me por caridade! E apontando o pobre amigo, continuava: — Este fantasma enlouquece-me! Sinto-me doente, desventurado!… Alexandre, porém, fixando-o firmemente, indagou: — É assim que recebes os irmãos mais infelizes? É assim que te portas, ante os desígnios supremos? Onde puseste as noções de solidariedade humana? Por que fugir aos mais infortunados da sorte? É sempre muito fácil amar os amigos, admirar os bons, compreender os inteligentes, defender os familiares, entronizar as afeições, conservar os que nos estimam, louvar os justos e exaltar os heróis conhecidos; mas, se somos respeitáveis em semelhantes posições íntimas, é preciso reconhecer que elas traduzem serviço realizado em nosso processo evolutivo. Nós, porém, meu amigo, ainda não alcançamos a redenção final. Por isso mesmo, a tempestade é nossa benfeitora; a dificuldade, nossa mestra; o adversário, instrutor eficiente. Modifica as vibrações de teus pensamentos! Recebe com caridade o mendigo que te bate à porta, quando não tenhas adquirido ainda bastante luz para recebê-lo com o amor que Jesus nos ensinou! Impressionado com as palavras ouvidas, pronunciadas com inflexão de ternura paternal, Adelino, em lágrimas copiosas, voltou-se para Segismundo, encarando-o de frente. Alexandre, como se lhe aproveitasse a nova atitude, acentuou: — Contempla o pobrezinho que te pede socorro! Observa-lhe o estado de humilhação e necessidade. Imagina-te na posição dele e reflete! Não te doeria a indiferença dos outros? Não te dilaceraria a alma a crueldade alheia? Estimarias que alguém te classificasse à conta de fantasma, tão só pelas tuas demonstrações de sofrimento? Adelino, meu amigo, abre as portas do coração aos que te procuram em nome do Poderoso Pai. O interpelado voltou-se, qual criança medrosa, e, fixando o mentor generoso, falou: — Oh! Mensageiro dos Céus, tenho medo, muito medo!… Algo existe entre este homem de sombra e eu, compelindo-me a profunda aversão! Creio que ele deseja roubar-me a vida, aniquilar a minha felicidade doméstica, envenenar-me o coração para sempre!… Compreendi que a aproximação de Segismundo despertava em Adelino reencarnado as reminiscências do passado sombrio. Ele, a vítima de outro tempo, não conseguia localizar os fatos vividos, mas experimentava, no plano emotivo, as recordações imprecisas dos acontecimentos, cheias de ansiedades dolorosas. Findo ligeiro intervalo, Alexandre objetou: — Não deves permitir a intromissão de forças negativas e destruidoras no campo íntimo da alma. É sempre possível transformar o mal em bem, quando há firme disposição da criatura no serviço de fidelidade ao Senhor. Considera, meu amigo, as grandes verdades da vida eterna! Ainda que este irmão te procurasse na condição dum adversário, ainda que ele te buscasse como inimigo feroz, deverias abrir-lhe o espírito fraternal! Toda reconciliação é difícil quando somos ignorantes na prática do amor, mas sem a reconciliação humana jamais seria possível nossa integração gloriosa com a Divindade! E porque o esposo de Raquel chorasse copiosamente, o orientador observou: — Não chores! Equilibra o coração e aproveita a sagrada oportunidade!… Adelino, então, enxugou as lágrimas e pediu, humilde: — Auxiliai-me por amor de Deus! Sentindo-lhe a sinceridade profunda, o instrutor convidou Segismundo a aproximar-se. Ele levantou-se, cambaleante, angustiado. Amparando a ex-vítima, Alexandre indicou-lhe a figura do ex-assassino e apresentou: — Este é o nosso amigo Segismundo que necessita de tua cooperação no serviço redentor. Estende-lhe as mãos fraternas e atende em nome de Jesus! Adelino não hesitou e, embora o grande esforço íntimo, visível à nossa percepção espiritual, apertou a destra do ex-adversário, fundamente comovido. — Perdoe-me, irmão! — Murmurou Segismundo, com infinita humildade. — O Senhor recompensá-lo-á pelo bem que me faz!… O marido de Raquel fixou-o nos olhos, como a dissipar as derradeiras sombras do desentendimento, e redarguiu: — Disponha de mim… serei teu amigo!… O ex-homicida inclinou-se, respeitoso, e beijou-lhe as mãos. O ato espontâneo de Segismundo conquistara-o. Não podia ser mau aquele Espírito angustiado e triste que lhe osculava as mãos com veneração e carinho. Foi então que vi um fenômeno singular. O organismo perispiritual de Adelino parecia desfazer-se de pesadas nuvens, que se rompiam de alto a baixo, revelando-lhe as características luminosas. Irradiações suavíssimas aureolavam-lhe agora a personalidade, deixando perceber a sua condição elevada e nobre. Herculano, junto de mim, falou-me em tom discreto: — O perdão de Adelino foi sincero. As sombras espessas do ódio foram efetivamente dissipadas. Louvado seja Deus! Alexandre abraçou as duas almas reconciliadas e renovou-lhes fraternais observações, repassadas de sabedoria e ternura. Em seguida, recomendou ao esposo de Raquel descansasse da luta, dispondo-se a retirar em nossa companhia. Notei que marido e mulher, impulsionados pelos amigos espirituais ali presentes, voltavam ao corpo físico, a fim de permutarem impressões, referentemente aos fatos que classificariam de sonhos, dentro da coloração mental de cada um. Ao se retirar, Alexandre, satisfeito, comentou paternalmente: — Com o auxílio de Jesus, a tarefa foi executada com êxito. E, fixando Segismundo, acrescentou: — Creio que na próxima semana poderá iniciar o seu serviço definitivo de reencarnação. Acompanhá-lo-emos com carinho. Não receie coisa alguma. Enquanto Segismundo sorria, resignado e confiante, o orientador dirigiu-se a Herculano, explicando-se: — Já observei o gráfico referente ao organismo físico que o nosso amigo receberá de futuro, verificando, de perto, as imagens da moléstia do coração que ele sofrerá na idade madura, como consequência da falta cometida no passado. Segismundo experimentará grandes perturbações dos nervos cardíacos, mormente os nervos do tônus. Entretanto, — e nesse momento concentrou toda a sua atenção no interessado, — é necessário que você lhe faça ver que as provas de resgate legítimo inclinam a alma encarnada a situações periclitantes e difíceis na recapitulação das experiências; todavia, não obrigam a novas quedas espirituais, quando dispomos de verdadeira boa vontade no trabalho de elevação. O aprendiz aplicado pode ganhar muito tempo e conquistar imensos valores se, de fato, procura conhecer as lições e pô-las em prática. A justiça divina nunca foi exercida sem amor. E quando a fidelidade sincera ao Senhor permanece viva no coração dos homens, há sempre lugar para o “acréscimo de misericórdia” a que se referia Jesus em seu apostolado. () Em seguida, convidando-me a acompanhá-lo, Alexandre despediu-se dos demais, frisando: — Voltaremos a vê-los no dia da ligação inicial de Segismundo com a matéria física. Preciso cooperar, na ocasião, com os nossos amigos Construtores, aos quais pedi me apresentassem os mapas cromossômicos, referentemente aos serviços a serem encetados. Separamo-nos. E eu, torturado de curiosidade estranha, em vista daqueles cuidados extremos para que Adelino e Segismundo se reconciliassem, antes da reaproximação pelos laços da carne, não sopitei as interrogações que me atormentavam o espírito. Não seria lícito providenciar a reencarnação do necessitado, sem quaisquer delongas? Por que tamanha demonstração de carinho para com o esposo de Raquel se ele deveria sentir-se satisfeito em poder cooperar na obra sublime de redenção?
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[Vide no , um exemplo do que se passa quando um dos cônjuges, de reta conduta, consegue proteger o tálamo conjugal de ligações com entidades inferiores.]
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