Livros Espíritas
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Somente em face de conclusões inequívocas e bem documentadas, seria então necessário debater com ela o assunto e fazê-la ver, se fosse o caso, que estava sendo vitimada por espíritos mistificadores. Mas não apenas isso: recomendar-lhe procedimentos e cuidados que eliminassem envolvimentos indesejáveis. Mas isso tudo à vista de um conjunto bem definido de elementos demonstrativos, como por exemplo se os versos de Auta não representassem nada do seu estilo, a métrica estivesse errada, as rimas inadequadas ou forçadas, o ritmo nada tivesse a ver com o de seus poemas habituais nem as imagens fossem as do seu estilo pessoal. Além do mais, se a temática fosse antidoutrinária, contivesse conceitos éticos inaceitáveis, fantasias inadmissíveis ou fossem versos confusos, sem sentido, sem a beleza e sem a harmonia que estamos acostumados a encontrar na obra da excelente poetisa, tanto na sua produção quando encarnada quanto no que escreveu após a desencarnação, através de vários médiuns. Quanto à incorporação, ou seja, à psicofonia, não era justo rejeitar sua expressão mediúnica apenas porque não estava rigorosamente dentro dos padrões locais. Então todos os médiuns do mundo têm de exercer suas respectivas faculdades exatamente da mesma maneira ou estão sendo mistificados? Se o médium não pode gaguejar porque em vigília não gagueja, então seria inadmissível o estupendo fenômeno da xenoglossia, porque, em sua condição normal, o médium não sabe uma palavra de grego, latim, árabe ou chinês. Está sendo mistificado porque o espírito manifestante, vencendo barreiras que nem sabemos ao certo como, consegue expressar-se na língua que falou quando 'vivo'? E se o espírito manifestante é o de um ex-cirurgião competente, que não pode operar porque o médium nada sabe de medicina e, portanto, não pode 'dar passividade' aos gestos necessários para que a operação seja realizada? Durante quase meio século de prática regular e constante, o brilhante jornalista inglês Maurice Barbanell serviu de médium ao notável espírito que a si mesmo denominava Silver Birch. Não foram poucas as dificuldades iniciais da acomodação e sintonização do espírito com seu instrumento, a primeira das quais foi a da própria língua inglesa. Barbanell era um competente jornalista, discípulo e amigo do famoso e legendário Hannen Swaffer (aliás, espírita convicto), mas o espírito desconhecia o inglês, apresentando-se como simples índio pele-vermelha americano. Se por lá estivesse algum dos nossos 'entendidos' dirigentes, provavelmente ficaríamos sem as páginas de ouro que a mediunidade de Barbanell filtrou para nós, provindas da inesgotável sabedoria do velho 'índio' americano. É que Silver Birch venceu as barreiras lingüísticas iniciais e conseguiu desenvolver, para seu uso, um inglês limpo, singelo e poético, no qual expressava, com rara beleza e profundidade, os mais elevados conceitos éticos e religiosos. O crítico injusto e despreparado teria dito ao médium, logo de início, que ele não poderia, de forma alguma, permitir que o espírito usasse seu incerto linguajar inicial porque ele, médium, era um homem culto, civilizado e dotado de grande poder verbal, tanto que era excelente jornalista profissional e autor de vários livros de sucesso. E mais, muito mais; segundo os dirigentes, que quase conseguiram bloquear a mediunidade de Regina. Barbanell não poderia permitir que o espírito manifestante proclamasse sua convicção na reencarnação, como fazia, uma vez que o médium a rejeitava. Mesmo após quarenta anos de convivência com Silver Birch, apenas conseguiu aceitá-la como eventualidade possível, mas não necessária, e muito menos obrigatória ... Silver Birch, dotado de paciência, bondade e sabedoria, respeitava o ponto de vista de seu médium, mas continuou pregando a reencarnação através dele. Fica uma pergunta no ar: por que, então, Silver Birch, dono de tão ampla sabedoria, não assumira outra postura e não falava de outra maneira, sem os modismos e imagens do índio? Certamente tinha suas razões para isso. O importante é analisar e estudar criteriosamente o teor de suas belíssimas exposições e a pureza dos seus conceitos, tudo isso formalizado na clareza meridiana de sua linguagem peculiar. A segurança e a finura com as quais passou a manipular a língua inglesa, ao cabo de alguns anos, foram admiráveis. Nenhum termo erudito, nenhuma intenção de enfeitar, de complicar ou de se mostrar como mero criador de frases de efeito, linguagem antologicamente simples, fácil e bela como instrumento de um espírito lúcido e moralizado. No entanto, ele se dizia apenas um porta-voz (mouthpiece) de outros que estavam - afirmava ele - muito acima dele. De minha parte sempre achei - e não vejo como e por que mudar de ponto de vista - que ele se mantinha naquela identidade para que pudesse transmitir, na linguagem singela de que parece ter tido o segredo, complexidades e belezas que, de outra forma, estariam soterradas debaixo da erudição obscura e desnecessária, pois a verdade é simples e é por isso que os simples têm acesso a ela e não, necessariamente, os eruditos, como dizia o Cristo. É que os eruditos costumam confundir o simples com o simplório e o profundo com o obscuro. Tais reflexões demonstram para nós as dificuldades encontradas no caminho do desenvolvimento correto da mediunidade. Ao mesmo tempo em que precisa da crítica, pois sua ausência total seria prejudicial ao médium, deve ele, também, precaver-se em relação à crítica exagerada, contundente e, principalmente, injusta, para que não venha esta última sufocar suas faculdades nascentes ou criar inibições insuperáveis devidas à insegurança e desconfiança em relação a si mesmo e aos fenômenos que, por seu intermédio, ocorrem. O médium tem de estar atento, de outro lado, quanto ao elogio indiscriminado, bajulador e desejoso de elevá-lo à categoria dos semideuses. 17. CRÍTICA E AUTOCRÍTICA Nisso tudo, como saber se a crítica que acaba de ouvir é justa e válida e deve ser levada em conta ou se o reparo, além de inoportuno, é incompetente? Como distinguir entre o mero estímulo - para saber, ao menos, que está indo razoavelmente bem - e o elogio barato que o endeusa? A apreciação de um ou outro médium já experimentado é colaboração amiga, expressão velada do ciúme, a ponta aguda da hostilidade surda ou da rivalidade inconseqüente? Por isso, em muitos médiuns iniciantes já habituados, quase familiarizados com a fenomenologia e, portanto, aceitando-a como resultante de faculdades normais, como se fosse apenas uma ampliação dos sentidos habituais, começam a surgir dúvidas e questionamentos, logo que procuram integrar-se em grupos, dos quais precisam para 'afinar' a instrumentação mediúnica e começar a trabalhar regularmente com ela. Que o médium possa enganar-se e ser enganado pelos espíritos, e até mesmo pelos seus próprios sentidos de observação, não é difícil de se compreender. Que também não deva atribuir aos espíritos qualquer fenômeno para o qual não tenha à mão uma explicação aceitável, é certo. Que é preciso estar alerta e vigilante para não se envolver em fantasias é igualmente pacífico. Mas precisa preservar sua identidade e confirmar-se com personalidade naquilo que esteja convicto de estar com a boa doutrina. Para isso é que precisa estudar. Ouça as observações, leve-as em conta, pondere sobre o que lhe dizem mas, também, esteja habituado a distinguir o falso do verdadeiro, o que deve aceitar para se corrigir e aperfeiçoar-se e o que deve rejeitar para não se prejudicar. Tais atitudes foram as de Regina. Sempre que algo ocorria de maneira insólita, a primeira impressão era a de que podia ter resultado de um fenômeno comum, embora sem explicação pronta e acabada. O desaparecimento de um pequeno objeto, por exemplo. Provavelmente tê-la-ia colocado em algum lugar diferente e se esquecera, ou alguém havia levado para outro cômodo, colocado numa gaveta, ou coisa assim. Quando, porém, o objeto desaparecia ou reaparecia enquanto ela o contemplava, em plena lucidez, então era porque algo insólito estava acontecendo. Se tinha um sonho estranho, ainda que nítido e bem armado, era apenas um sonho; mas se os eventos nele testemunhados ocorriam tal como lhe haviam sido 'mostrados', novamente estávamos ante algo digno de exame e meditação. Com o decorrer do tempo e a repetição de tais fenômenos, ou a ocorrência de outros semelhantes, cria-se no médium certa familiaridade com eles. É o caso de Regina. Ela não mais se assustava ou ficava perplexa com certas ocorrências no lar, na rua ou nos recintos onde exercia sua atividade profissional, no magistério. Desenvolvia-se uma espécie de intimidade entre ela e os fenômenos observados. Já identificava até seres desencarnados, como ainda veremos; habituara-se a curiosos fenômenos de efeito físico, premonição, vidência, clariaudiência, psicografia, ou intuição, telepatia, desdobramentos e outros. Quando começou a receber, por psicografia, comunicações do anônimo espírito que apenas dizia ser seu amigo, desinteressou-se, a pedido dele próprio, da sua identificação, concentrando-se no teor, no conteúdo desses textos, logo compreendeu que o texto não é bom e aceitável apenas porque vem assinado por um nome ilustre ou respeitável nem mau ou desprezível porque não tem assinatura ou a que traz nada quer dizer de especial. Além do mais, já aprendera a confiar no seu amigo. Não lhe faltaram veementes demonstrações de sabedoria e bom senso e do carinho com os quais examinava seus problemas; ou da sobriedade e firmeza dos seus conselhos. Sentia, na sua presença, além disso, aquilo que o médium aprende logo a distinguir e que chama de 'vibração' do espírito. o que equivale a um documento de identidade.
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